SERGIO CASTRO/ESTADÃO
SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

18 Novembro 2016 | 08h00

Poucos dias depois da maratona do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os candidatos a uma vaga na Universidade de São Paulo (USP) precisam “reprogramar” os estudos para um novo desafio: a Fuvest. Conteudista, o vestibular mais tradicional do País exige dos alunos habilidades diferentes, como cálculos mais complexos do que a maioria dos outros processos seletivos.

Para professores de cursos e colégios de São Paulo, compreender o modelo da prova é o ponto de partida para ir bem na primeira fase. “A Fuvest vai cobrar o que o aluno estudou no ensino médio mesmo. Não é uma interpretação de texto, é o que ele sabe. Exige formação escolar”, diz Vera Lúcia Antunes, coordenadora pedagógica do Curso e Colégio Objetivo.

Na primeira etapa, os candidatos terão cinco horas (30 minutos a mais em relação ao primeiro dia de Enem) para resolver 90 questões de múltipla escolha, cada uma com cinco alternativas. São cobradas oito disciplinas: Português, Matemática, Física, Química, História, Geografia, Biologia e Inglês, além de perguntas interdisciplinares, que mesclam temas das diferentes áreas.

“A Fuvest tende a cobrar um conteúdo mais abrangente, mesmo com menos questões. Na prova de Matemática, o Enem pede quase a metade do conteúdo da Fuvest”, exemplifica Edmilson Motta, coordenador-geral do Colégio Etapa. A prova da USP é recheada de cálculos e o candidato que não dominá-los dificilmente conseguirá resolver uma questão só pela interpretação, como pode ocorrer no Enem.

Vilã dos candidatos da Fuvest, a Matemática é a disciplina na qual os alunos mais erram na primeira fase. Segundo um levantamento do Curso Poliedro, entre os estudantes que tentaram Medicina no ano passado, o índice de acerto na matéria foi de apenas 29,5%. Em Direito, a taxa cai para 23,5%. “O aluno já tem de ir preparado para uma prova mais exigente. A Fuvest pega pesado nas Exatas”, diz o coordenador da turma de Medicina do Poliedro, Rodrigo Fulgêncio. 

Já nas questões de Humanas, os professores acreditam que a Fuvest está ficando, ao longo dos anos, mais parecida com o Enem em relação à tendência de contextualizar bem os enunciados. A habilidade de leitura em vários formatos - como obras de arte, quadrinhos e gráficos -, bem exigida no Enem, também é importante para tentar uma vaga na USP.

Além disso, os candidatos da Fuvest têm um dever de casa a mais: ler os nove livros divulgados no edital do concurso. Segundo os professores, perguntas sobre o enredo são certas, na primeira ou na segunda fase. A paisagem descrita na obra também pode servir, por exemplo, para embasar questões de História e Geografia.

Estratégias. Apesar das diferenças entre as provas, os estudantes que se dedicaram ao longo do ano não precisam se desesperar. “A Fuvest acaba sendo um dos últimos entre os principais vestibulares, mas o que o aluno estudou serve de base para todos. O que muda é o formato da prova”, diz Alessandra Venturi, coordenadora de orientação educacional do Cursinho da Poli.

Segundo ela, é recomendável agora que o estudante se familiarize com o formato do exame que vai fazer e com o tempo permitido para resolver os testes. “É importante que o vestibulando pegue as questões e treine os exercícios. Não queira agora estudar todo o conteúdo. É impossível e desumano.”

O cálculo da nota na primeira fase da Fuvest não segue a teoria de resposta ao item (TRI), adotada pelo Enem para identificar “chutes”. No vestibular da USP, o que importa é o total de acertos, sendo a questão fácil ou difícil. Os professores aconselham pular as complicadas e marcá-las para tentar resolver no fim. Também indicam separar três minutos para cada pergunta e deixar o gabarito para o término da prova.

O controle do horário durante a prova é um complicador, já que o uso de relógios pelos candidatos não é permitido desde o ano passado. Mas, segundo Paulo Sérgio Cugnasca, diretor-executivo da Fuvest, o fiscal da prova fará alertas periódicos sobre o tempo restante do exame, com intervalos menores de avisos na última hora.

Ele recomenda que ainda na véspera do exame o estudante visite o local de prova e, no dia, esteja presente antes da abertura dos portões. “Sempre pode haver algum imprevisto. Ele tem de ficar atento também se está acontecendo algum evento nas imediações, para tomar as precauções e não se atrasar.”

Segunda fase. Além de cobrar as matérias do ensino médio, o vestibular da USP pede uma boa dose de controle da ansiedade. Antes de saber se foi aprovado na primeira fase, o candidato já deve ficar de olho na segunda, quando terá de elaborar um texto e resolver uma nova bateria de exames - desta vez, questões abertas.

A nota de corte da primeira etapa varia em cada curso e ano após ano. “Em Medicina, vem maior que 70, mas existem variações que dependem do nível de dificuldade da prova. A gente fala para os alunos não se preocuparem muito com isso porque a diferença pode ser grande de um ano para o outro”, diz o professor Rodrigo Fulgêncio, do Curso Poliedro.

O estudante tem até os primeiros dias de janeiro para se debruçar na resolução de questões discursivas. Também precisa dar atenção à Redação, cuja nota é decisiva para o resultado final. O texto pedido aos candidatos da USP tem uma série de diferenças em relação à Redação do Enem. “A Fuvest aborda temas mais abstratos, não necessariamente sociais ou coletivos”, explica o professor Tiago Moreira Gomes, professor de Redação do ensino médio no Colégio Vital Brazil. No ano passado, por exemplo, os alunos desenvolveram um texto sobre violência doméstica no Enem e, na USP, precisaram discorrer sobre utopia.

Enquanto o Enem cobra uma proposta de intervenção (uma solução para o problema), na Fuvest isso não é pedido. O aluno precisa de um bom repertório sociocultural e de relacionar informações como conhecimentos de História, Geografia, Sociologia, Filosofia e temas atuais da sociedade brasileira. “É preciso que o aluno vá além do que está exposto nos textos motivadores.”

Segundo Gomes, os alunos têm dificuldade para entender a diferença entre as provas. “Precisamos desenvolver uma habilidade textual diferente, como se reprogramássemos a forma de elaborar o texto.”

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Pedro Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2016 | 04h00

“Prestar Fuvest sempre foi algo certo. E, há dois anos, quando decidi que iria estudar Direito, o Largo de São Francisco virou meta. No ano passado, prestei como treineiro tanto para conhecer o exame como para sentir o clima de fazer um exame em um ambiente fora do habitual. Como estudo no Mobile desde o ensino infantil, foi importante para eu ver como é fazer prova em um lugar menos favorável, com mesas menores e sem ar-condicionado. 

Durante este ano, fiz seis simulados com as provas anteriores. Tenho tentado aumentar meu número de acertos para passar com uma margem boa para a segunda fase. Em um curso como Direito, você não pode ficar satisfeito só com a nota de corte. Montei um plano de estudos e tento fazer um calendário semanal com as disciplinas para estudar. Monto em uma folha de sulfite e vou marcando meu progresso. Sem organização seria muito fácil me perder e ficar desmotivado. 

Nessa programação, no entanto, eu tomo o cuidado de não me sobrecarregar: tento deixar as sextas-feiras e os fins de semana para as atividades culturais, que indiretamente ajudam na prova, como os filmes indicados pelos professores e os livros que estão na lista do vestibular.” / DEPOIMENTO A OCIMARA BALMANT, ESPECIAL PARA O ESTADO

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Paula Degenszajn Stolar, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2016 | 04h00

“Sempre fui muito disciplinada. Desde o 6.º do ensino fundamental, faço resumos. Para mim é o melhor método, até para disciplinas de Exatas. Para conseguir uma vaga em Direito na USP (Universidade de São Paulo), que registrou concorrência de 24 alunos por vaga no ano passado, eu estudava uma média de quatro horas e meia todo dia. Muitos professores indicavam rever a disciplina dada naquele dia, mas para mim isso nunca funcionou. 

Preferi montar um esquema e, em média, fazer a revisão de uma apostila a cada duas semanas, para tirar as dúvidas com os professores. E daí não valia dar mais atenção às disciplinas que eu tinha mais afinidade: era preciso, por exemplo, encarar Física e Matemática. Além disso, ao estudar tudo, você fica mais preparado para enfrentar as questões interdisciplinares, cada dia mais comuns nos vestibulares. 

Engraçado, meu desempenho foi melhor na Fuvest do que no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Não me senti muito preparada para o Enem. Achei a prova muito cansativa. As questões são menos conteudistas, e eu estava com muito conteúdo na cabeça. Meu esquema de estudo foi mesmo sob medida para a Fuvest. 

Hoje, na minha turma da USP, tem outros três alunos que se formaram no Colégio Bandeirantes comigo. Na época do vestibular, era legal falar com eles sobre a prova, mas também causava uma certa pressão. Quando um amigo dizia que estava estudando um conteúdo que eu ainda não dominava, ficava preocupada. É complicado para todo mundo, não é? 

Na faculdade, sigo meu método de estudo. Como é muita coisa para ler, a gente chega a se dividir e depois faz trocas de resumo. Se deu certo até agora, é só manter a receita.” / DEPOIMENTO A OCIMARA BALMANT, ESPECIAL PARA O ESTADO

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Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

18 Novembro 2016 | 08h00

A prova da Fuvest, caminho para uma vaga na Universidade de São Paulo (USP), é conhecida pela cobrança de conteúdo extenso. Ao Estado, professores de cursinhos compararam o vestibular da USP ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado no início deste mês, indicando mudanças de estratégias de estudo que os candidatos da Fuvest podem adotar na reta final. Eles também apontaram conteúdos que são frequentes na primeira etapa, marcada para o dia 27. Veja a seguir: 

PORTUGUÊS

Segundo o coordenador de Português do Etapa, Heric José Palos, a prova da Fuvest tem clareza de intenção e de raciocínio. “As questões são bem articuladas e, normalmente, não causam dúvidas quanto ao que está sendo pedido”. Segundo ele, os exercícios “estabelecem relações entre textos cotidianos variados, verbais e não verbais, pressupõem uma base sólida dos candidatos e uma boa capacidade de reflexão”.  As cobranças de nomenclaturas gramaticais específicas, como crase e pontuação, não têm aparecido nas últimas provas. “Porém, a partir de textos, avalia-se se estes conceitos estão consolidados na formação do candidato. Além disso, há a preocupação em se cobrar as obras propostas como leituras obrigatórias, buscando seu entendimento tanto no âmbito da História da Literatura, quanto nas possíveis relações com o mundo atual”.

MATEMÁTICA

“Ao contrário das questões do Enem, as da Fuvest costumam ser mais objetivas e menos contextualizadas. Entretanto, aproximadamente 40% das questões da Fuvest 2016 tinham estrutura similar às questões do Enem, com texto-base, enunciado e cinco alternativas”, explica o professor de Matemática do Cursinho da Poli, Willian Tamashiro. “Para se preparar para a prova da Fuvest, recomendo que o candidato revise os seguintes assuntos: semelhança de triângulos, teorema de Pitágoras, teorema dos senos e cossenos e áreas de figuras planas, da geometria plana; equações de reta e de circunferência, da geometria analítica; e porcentagem, logaritmos, PA, PG, polinômios, análise combinatória e números complexos, da álgebra.”

GEOGRAFIA

Segundo a professora de Geografia do Curso Poliedro Cristina Luciana do Carmo, a grande diferença entre Enem e Fuvest é o grau de aprofundamento de cada prova. A Fuvest é mais detalhista e costuma cobrar temas como ecossistemas brasileiros, climas, bacias, urbanização e demografia. “Os grandes assuntos desse ano, que podem ter destaque na Fuvest, são: o Acordo de Paris sobre meio ambiente, a tragédia de Mariana, com ênfase no drama ambiental, a guerra civil na Síria, a situação dos refugiados no mundo e o impacto da Olimpíada no Brasil e no exterior”.

HISTÓRIA

Para o coordenador de História do Etapa, professor Thomas Wisiak, a Fuvest costuma trazer uma distribuição um pouco maior das questões ao longo do programa. “Por isso, todas as partes são importantes, embora predominem assuntos da História mais recente - Contemporânea e Brasil República”, diz. Segundo ele, em comparação com o Enem, a Fuvest pode ter questões que dependam ainda mais do domínio de conteúdo e que considerem temas da atualidade. “Uma sugestão de preparação seria estudar a cronologia, ou seja, a linha do tempo na História Geral e na História do Brasil, pois noções de contexto são fundamentais em provas com uma lista grande de exercícios sobre a disciplina”.

QUÍMICA

Para Rubens Faria, professor de Química do Cursinho da Poli, assim como no Enem, a prova da Fuvest apresenta questões inseridas em um contexto, “mas com um grau de complexidade maior no sentido de cobrança de conteúdos”.  A dica, para ele, é conhecer bem os conteúdos mais triviais, que sempre caem nas provas, como atomística e o conhecimento das interações entre as partículas das substâncias; relações mássicas no universo macroscópico; cinética química e eletroquímica. Em Química Orgânica, podem aparecer questões que envolvam algum modelo de reação com compostos orgânicos. 

FÍSICA

Para Alexandre Lopes Moreno, coordenador de Física do Etapa, as diferenças entre as provas estão diminuindo, ano após ano. Os testes se parecem na contextualização das questões, na exigência do domínio de conceitos físicos como pré-requisitos, no equilíbrio entre questões conceituais e outras que exigem algum tipo de cálculo aritmético. “A principal diferença ocorre na distribuição de assuntos cobrados nas questões destas duas provas. Como exemplo, nas últimas provas do Enem, a Ondulatória apareceu com um peso bem maior e a Eletricidade com um peso bem menor do que normalmente estes assuntos são cobrados na Fuvest. Ainda hoje as provas da Fuvest são mais próximas da real proporção dos conteúdos de Física estudados no ensino médio”.

BIOLOGIA

De acordo com o professor de Biologia do Curso Poliedro, Luis Gustavo Megiolaro, a Fuvest traz melhor distribuição das questões, tentando abordar os mais variados conteúdos da Biologia. “Temas como zoologia, evolução vegetal, fisiologia humana, embriologia e genética, por exemplo, são bem explorados. Podemos dizer que o Enem dos últimos dois anos trouxe uma prova bem conteudista, sendo um modelo com um perfil um pouco mais aproximado da Fuvest. Mesmo assim, as questões da Fuvest diferenciam-se por não serem tão diretas como as que encontramos no Enem e exigem dos candidatos uma preparação mais aprofundada dos assuntos.”

INGLÊS

Segundo o coordenador de inglês do Etapa, Tadeu Okubaro, os dois tipos de prova cobram leitura e interpretação. “O Enem privilegia diferentes tipos (tirinhas, reportagens, poemas) e a Fuvest quase só usa textos jornalísticos. Esses textos, na Fuvest, tendem a ser de temas atuais e razoavelmente próximos da realidade dos candidatos”. Recentemente, apareceram questões relacionadas aos protestos, ao mosquito da dengue e ao Uber. A Fuvest faz duas ou três perguntas sobre cada um e cobra informações mais específicas. 

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