Enem trouxe seis questões sobre África; número é recorde

Conteúdo sobre continente apareceu em maior quantidade e é visto como forma de implementar a lei 10.639

Guilherme Soares Dias, especial para o Estado,

17 Novembro 2013 | 18h27

Mesmo com a implementação de conteúdos sobre história e cultura da África, prevista na Lei 10.639/2003, ainda não ser realidade na maioria das escolas brasileiras, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) trouxe 6 das 90 questões de Ciências Humanas sobre o tema. A grande quantidade pegou os estudantes de surpresa e divide opinião de professores ouvidos pelo Estado.

As questões abordaram África, escravismo e aspectos da cultura africana, entre outros. “É um número significativo, mas a maioria das perguntas ainda é sobre Estados Unidos e Europa”, diz o professor de Geografia do Cursinho da Poli, Antônio Carlos Malachias, que também é consultor na implementação da lei 10.639. Ele admite, no entanto, que o tema apareceu pela primeira vez em grande quantidade. “Sempre houve uma questão ou outra, mas é a primeira vez nesse número. Isso pode ter surpreendido”, considera.

Malachias lembra que a prova não trouxe questões sobre geografia africana, por exemplo. “A abordagem das questões focaram mais na questão etnico-racial do que na história africana”, ressalta. Ele considera que a cobrança é uma forma de implementação da lei que prevê conteúdos sobre África nas escolas. “Seria impensável essa quantidade de questões fossem abordadas em outro momento”, afirma.

Já para o coordenador de História do Cursinho Objetivo, Daily Matos, o número de questões sobre África no exame deste ano foi desproporcional. “Foi atípico, algo que deve ocorrer só neste ano. Como o Enem se propõe a abordar diversos conteúdos, trazer seis perguntas desse tema parece desproporcional pelo universo de assuntos que podem ser abordados”, considera. Ele ressalta, no entanto, que é comum o tema aparecer no exame e lembra que é sempre relacionado à história geral, como grandes navegações e período da escravidão.

Para o professor da USP Dennis de Oliveira, membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (Neinb), as escolas privadas são bastante focadas na preparação para o vestibular e considera que a cobrança do conteúdo do Enem é uma forma de pressioná-las a adotar o conteúdo em sala de aula. “É uma maneira de pautar a questão”, ressalta. Pesquisa realizada pelo Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades (Ceert) mostra que as escolas particulares são as que têm menos práticas de implementação da lei.

Estudantes. A maior presença de conteúdos sobre África no Enem também foi notada pelos alunos que fizeram o exame. A psicopedagoga Helena Neves, de 69 anos, considerou a prova difícil. "Já prestei cinco exames, mas essa prova é um absurdo. Não fui para a África, não conheço peixes e não sou obrigada a saber determinados conteúdos", ironizou na saída da prova, se referindo a tópicos cobrados.

A professora de redação Ângela Maioli, considerou a prova cansativa por conta do número de texto e destacou a presença de questões sobre o continente africano. "Não tinha termos tão elaborados. Em Geografia, caíram mais questões políticas e tinham várias sobre África", disse.

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