Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Enem terá aplicação digital em 2020 em fase piloto

Proposta é de uma implementação progressiva; nada irá mudar para os participantes inscritos em 2019

Lígia Formenti, Isabela Palhares e Júlia Marques, BRASÍLIA

03 de julho de 2019 | 10h25
Atualizado 04 de julho de 2019 | 00h48

Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passará a ser aplicado de forma digital a partir do próximo ano. O projeto, apresentado nesta quarta-feira, 3, pelo ministro da Educação, Abrahan Weintraub, prevê que 50 mil candidatos, em 15 capitais brasileiras, façam o modelo digital em 2020. A expectativa é de que o número seja ampliado progressivamente até 2026, quando a prova impressa será extinta.

Para Weintraub, o novo modelo aumentará a concorrência. "A gente se livra de uma grande corporação. Duas ou três grandes empresas conseguem hoje se credenciar."  Ele acredita ainda que o novo formato permitirá mais oportunidades para estudantes fazerem a prova, incluindo os que têm mobilidade reduzida.

O plano prevê que toda a prova seja realizada de forma digital, incluindo a Redação. Para o projeto piloto, devem ser desembolsados R$ 20 milhões - no formato atual, o custo de aplicação para este ano, com cerca de 5 milhões de participantes, é de R$ 500 milhões. Não estão ainda definidas as empresas que participarão dessa primeira fase. Segundo o MEC, os custos iniciais com a versão digital serão expressivamente maiores do que da versão atual, mas a expectativa é de reduzi-los ao longo dos anos.

O presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, afirmou que está em análise a logística necessária para a contratação das empresas.  "Mas vai ser nos mesmos moldes", disse. A ideia é ter um aplicador e computadores, que serão fornecidos pela empresa escolhida ou por parceiros onde o exame será realizado. Diferentemente do que ocorre hoje, o exame não precisará ser aplicado em escolas. "Bastará uma sala com estrutura." Pelo cronograma apresentado para 2020, as provas digitais serão realizadas em 11 e 18 e as escritas, nos dias 1 e 8 de novembro

A ideia é que, ao longo dos anos, as provas digitais sejam feitas em mais de uma data, o que, na avaliação do ministro retiraria "a agonia" de fazer o exame de tamanha relevância em apenas um dia. "Estamos chegando tarde. Não como governo, mas como nação", afirmou Weintraub sobre a mudança do modelo. Ele comparou os testes ao exame Toefl, feito para avaliar a proficiência da língua inglesa.

Durante a campanha para a presidência da República no ano passado, o presidente Jair Bolsonaro levantou dúvidas sobre a segurança do sistema de votação por meio de urnas eletrônicas. Indagado se o mesmo questionamento não poderia ser feito também para a prova digital, o ministro respondeu: "Não é o caso. Está envolvendo um outro tipo de risco". 

Weintraub argumenta que, com a prova digital, o candidato poderá receber, logo após a conclusão das questões, a prova corrigida. O ministro procurou ainda reduzir os riscos de fraudes. Comparou a realização dos exames ao sistema bancário brasileiro, todo eletrônico. "O Brasil tem tecnologia para isso, o sistema bancário é todo eletrônico", disse, para mais tarde emendar: "Mas bandido é criativo."

Ele argumentou que hoje boa parte do processo do Enem já é digital. Nas versões atuais, um dos problemas de segurança é o ponto eletrônico. Questionado se um hacker não poderia invadir o sistema para fazer a prova do candidato, o ministro afirmou que seria mais fácil uma invasão apenas na nota da prova, um risco que, em tese, hoje já existiria.

A exemplo da versão atual, os exames seriam feitos em salas monitoradas por fiscais e a identificação do aluno será feita de forma digital. O projeto prevê que, com projeto totalmente implementado, o Enem seja feito em até quatro datas anuais, estabelecidas pelo Inep. Em 2021, será realizada em duas datas distintas, agendadas previamente.As taxas para a realização da prova digital serão as mesmas que para provas escritas. 

Para a equipe do MEC, a versão eletrônica poderá também facilitar a realização de provas por itinerários, que será implementada a partir da reforma do ensino médio. Com a mudança, os candidatos deverão fazer uma parte da prova específica, o que exigirá um aumento das questões. Para o presidente do Inep, na versão digital, será possível embaralhar as questões. O importante, de acordo com a equipe, é ampliar o banco de questões.

Ideia é discutida desde 2012

A ideia de aplicar o Enem de forma digital não é nova e começou a ser discutida em 2012. Os últimos presidentes do Inep e principais quadros do MEC já defendiam nos últimos anos que a transição para a prova online deveria ser uma prioridade para os próximos anos, já que esse modelo é mais seguro que o atual. 

Apesar de defendida por especialistas e quadros especializados, a mudança não era bem recebida pelos estudantes. Em 2017, o ministério fez uma consulta pública para receber sugestões de como melhorar o Enem e 70,1% das pessoas responderam que não concordavam com a realização digital da prova - segundo a pasta, foram ouvidos cerca de 700 mil alunos. 

A dificuldade para a transição, segundo eles, era ter questões em número suficiente. As questões do Enem são formuladas a partir do Banco Nacional de Itens, que é formado por questões que passam por rigoroso processo de produção - a elaboração de uma única questão prevê dez etapas, que envolvem desde o treinamento de professores à revisão por parte de especialistas das áreas de conhecimento. Todos os itens são pré-testados para avaliar o nível de dificuldade e, assim, garantir que todas as provas têm o mesmo grau de dificuldade. 

No ano ano passado, em entrevista ao Estado, a então presidente do Inep, Maria Inês Fini, explicou, mesmo com o investimento em tecnologia, a aplicação online seria mais barata e segura. Em 2017, a prova custou R$ 505,5 milhões – apenas 25% dos gastos são cobertos pelo valor da taxa de inscrição, de R$ 82 – e envolveu mais de 600 mil pessoas na elaboração, distribuição, aplicação e correção do exame.

Com 5,5 milhões de inscritos para a edição deste ano, o Enem é a segunda maior prova de acesso ao ensino superior do mundo, atrás apenas do Gaokao, o vestibular chinês, que tem anualmente cerca de 9 milhões de inscrições. 

Membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e ex-secretária executiva do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro, disse ver com preocupação o prazo anunciado pelo atual governo para iniciar o projeto piloto. "Há anos nós tínhamos esse desejo, mas não fazíamos a transição por não sentirmos segurança. O Inep esteve preocupado em garantir uma segurança sólida e recursos humanos e estruturais antes da transição. Será que estão garantindo todas essas condições?"

Segundo ela, um planejamento adequado para uma prova do tamanho e importância do Enem leva ao menos dois anos. Além da segurança, sigilo e logística, Maria Helena lembra que a digitalização, e sobretudo a realização de mais de uma edição da prova, vai exigir um banco de itens maior. "Nossa avaliação na época, era de que precisaríamos ter um banco com ao menos 5 mil itens. Nós temos muito menos que isso (o número atual não pode ser divulgado). Um banco de itens robusto e de qualidade exige um investimento alto. Na União Europeia, por exemplo, a elaboração de cada item custa entre 800 e 1 mil euros. É muito caro, mas é necessário se quiser manter a qualidade da prova."

Para ela, o governo precisa apresentar um plano e mais detalhes da implementação do novo modelo, explicitando o custo previsto, se vai ampliar o banco de itens e o quanto pretende investir para a ampliação, etc. 

Para Mônica Franco, diretora-executiva do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação (Cenpec), o governo precisa pensar e apresentar propostas para garantir a igualdade de condições para que todos façam a prova de forma digital. Ela lembra que muitas escolas ainda não disponibilizam computador ou internet para os alunos. "O Enem não mede apenas o desempenho das escola, é um exame que garante o acesso à universidade. Por isso, é fundamental garantir a equidade de condições. Não podemos prejudicar os mais vulneráveis e menos assistidos. O governo precisa dizer como pretende garantir a igualdade". 

Alunos veem proposta com ressalvas

Daniel Silveira, de 23 anos, sonha com uma vaga em Economia. Ele pretende estar bem longe do vestibular em 2026, quando todas as provas deverão ser digitais, mas elogia alguns pontos da medida. "A sujeira que faz na rua é enorme. As pessoas descartavam a prova em qualquer lugar", diz ele, que fez o Enem no ano passado. 

Ansioso por causa da prova, Silveira lembra que, na edição passada, mal dormiu e quase chegou atrasado. Caso houvesse mais edições do teste por ano, como espera o MEC, Silveira acredita que a tensão ficaria diluída. Sobre a prova de Redação, vê mais facilidade no formato virtual. "Você apaga mais facilmente e digita mais rápido. No papel, é difícil."

Opinião diferente tem o estudante Moisés Sousa, de 22 anos, que vai tentar uma vaga em Medicina na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele conta que já participou de uma prova online e não se deu bem com a interface. "Prefiro o lápis. No computador parece muito abstrato."

Para Samara Rodrigues, de 19 anos, uma mudança como essa deveria ser precedida de mais infraestrutura nas escolas. No colégio público onde estudou, por exemplo, a sala de informática só abriu quando ela já estava no ensino médio. "Não adianta modernizar a prova se o aluno não sabe resolver as questões", diz ela, que tentará uma vaga para Direito. 

Sobre a possibilidade de mais de uma edição por ano, os estudantes têm dúvidas se a oferta da prova resultaria em vantagens na hora de entrar na faculdade. "Tem de ver a distribuição das vagas nas universidades", diz Yasmin Jorge Silva, de 19 anos, que deve fazer o Enem pelo terceiro ano em novembro. 

Enem 2019

O ministro afirmou que o Enem deste ano já foi enviado para a gráfica. Garantiu que nem ele, nem o presidente do Inep nem o presidente Jair Bolsonaro tiveram acesso às questões. "Não li a prova, o presidente não leu." Questionado se ninguém iria ler a prova ele respondeu. "Ninguém vai ler salvo uma hecatombe nuclear. Zero probabilidade digo que é só para a morte ou para impostos."

Weintraub afirmou, no entanto, achar difícil que o presidente pare suas atribuições para ler o conteúdo. No ano passado, Bolsonaro criticou questões do Enem, com dialeto da comunidade LBGT. Weintraub afirmou haver uma recomendação para que não sejam incluídas questões de cunho político e que, se a medida for desrespeitada, o responsável será afastado do cargo.

O maior vestibular do Brasil

O Enem é a maior prova do Brasil e dá acesso a uma centena de universidades federais, estaduais e privadas que usam o exame como forma de seleção. No fim do processo, quem fez o exame pleiteia uma vaga por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), pelo qual as universidades de todo o País oferecem suas vagas. Com sua pontuação em mãos, o aluno escolhe o curso e a universidade; se tiver o total necessário, está dentro.

Atenção: O que muda no Enem 2019?

Segundo o site do Enem, os alunos contaram neste ano com um novo sistema de inscrição que permitiu incluir uma foto. Os deficientes auditivos e visuais tiveram a opção de indicar no ato da inscrição o uso de um aparelho auditivo ou de implante coclear. Além disso, todos os alunos terão os lanches revistados no dia da prova, e no final dos cadernos de questões haverá espaço para rascunho da redação e cálculos. 

Quando serão realizadas as provas?

Os testes serão aplicados nos dias 3 e 10 de novembro.

Quantas questões terão as provas no Enem 2019?

Haverá quatro provas objetivas com 45 questões cada uma sobre os seguintes temas: linguagens e códigos, ciências humanas, ciências da natureza e matemática. Além disso, os alunos deverão fazer uma redação argumentativa de, no máximo, 30 linhas sobre o tema que será proposto.

No dia 3 de novembro, serão aplicados os testes de linguagens e códigos, ciências humanas e a redação, com 5h30 de duração. No dia 10 de novembro, serão aplicados os testes de ciências da natureza e matemática, com 5h de duração.

Quando conseguirei acessar meu cartão de confirmação de inscrição?

Ele será disponibilizado em outubro e deve conter o número de inscrição do aluno, data, hora e local das provas, atendimento especializado (deficientes visuais, por exemplo) e/ou específico (como gestantes e lactantes), caso solicitado, e a opção de língua estrangeira.

 

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