Enem tem o pior resultado em cinco anos

A nota média dos participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na prova objetiva, este ano, foi 34,13, numa escala de 0 a 100. É o pior desempenho já registrado nas cinco edições do teste, classificado no intervalo entre insuficiente e regular. Na redação, a média subiu em relação ao ano passado e ficou em 54,31 pontos, entre regular e bom. Ao divulgar os resultados nesta terça-feira, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, admitiu que a nota na prova objetiva é ?insatisfatória?.O Enem retrata a pirâmide social brasileira naquilo que ela tem demais perversa: vai melhor quem é branco, estuda em escola particular,tem renda familiar mais alta e pais com maior escolaridade. Criado em1998, o exame contou este ano com 1,3 milhão de participantes, dosquais 70% estão cursando o último ano do ensino médio ? os demais jáconcluíram esse nível escolar. ?Não podemos esperar milagres?, disse Paulo Renato, acostumado aanunciar resultados negativos em todos os níveis de ensino. No caso doEnem, o objetivo não é avaliar o ensino médio. Afinal, parte dosinscritos já saiu da escola e faz o teste só para entrar nauniversidade, pois o exame conta pontos ou até substitui o vestibularem 384 instituições de ensino superior.Independentemente disso, o desempenho dos participantes dá uma idéiada capacidade de raciocínio e do aprendizado dos jovens brasileiros. Deacordo com a diretora do Enem, Maria Inês Fini, boa parte dos erros nas63 questões de múltipla escolha da prova objetiva se deveu àdificuldade de leitura e compreensão do que estava sendo pedido. ?Asrespostas estão no enunciado das próprias questões?, disse PauloRenato.MotivosPara o ministro, a piora da nota média, na prova objetiva, foi causada pelo aumento do número de participantes ? 1,3 milhão esteano contra 1,2 milhão em 2001; 352 mil em 2000; 315 mil em 1999; e 115 mil em 1998. ?De onde vêm esses inscritos adicionais? Justamente das famílias com menor nível de escolaridade?, justificou Paulo Renato,enfatizando que o impacto disso sobre o resultado do teste seria omesmo em qualquer país do mundo.Dos participantes do Enem este ano, 65% declararam vivem em famíliascom renda inferior a cinco salários mínimos. No ano passado, essaporcentagem foi de 60%. Da mesma forma, 73% dos que fizeram a prova este ano estudaram exclusivamente em escolas públicas, índice que ficou em 66% no ano passado. Já a escolaridade dos pais permaneceu praticamente inalterada, em torno de 56% nos dois anos. Mas os participantes do Enem 2002 alcançaram a segunda melhor média em redação nas cinco edições do exame. O tema da redação foi o direito de votar, o que teria ajudado a melhorar o desempenho numa época decampanha eleitoral. Mais do que contar pontos no vestibular, o exame foi concebido pelo MEC para orientar os governos estaduais sobre o melhor tipo de ensino médio a ser oferecido. A proposta é clara: trocar a tradicional ênfase em conteúdos desvinculados da realidade do aluno pelo aprendizado de conhecimentos necessários ao dia a dia de sua vida, incentivando sua capacidade de pensar.?O que sempre dirigiu o ensino médio foi o vestibular e os cursinhospreparatórios?, disse a secretária-executiva do MEC, Maria HelenaGuimarães de Castro. ?Queremos acabar com a história da decoreba?,disse Paulo Renato. Mas, entre o objetivo traçado nos gabinetes deBrasília e a realidade do País, cerca de 2 milhões de estudantes emvias de concluir o ensino médio convivem com o desemprego, a baixarenda familiar, as deficiências da escola pública, os baixos salários eo despreparo de boa parte dos professores. ?Em educação não existemmilagres?, repetiu Paulo Renato.CollorEmbora fossem crianças no começo da década de 90, os participantes do Enem 2002 mostraram que lembram e querem distância do ex-presidente Fernando Collor de Mello, deposto em 1992 sob acusações de corrupção. ?São muitos os exemplos que dizem respeito a FernandoCollor. É ele certamente o campeão na lembrança dos jovens, comoexemplo de má administração e do que não pode ser repetido na histórianacional?, diz o relatório pedagógico do Enem, que analisou amostra com 500 redações avaliadas.Os participantes tinha de escrever sobre o tema O Direito de Votar:como fazer dessa conquista um meio para promover as transformaçõessociais de que o Brasil necessita? A foto de um comício da campanhapelas Diretas Já, em 1984, ilustrava a prova. ?Collor é apontado nasredações como a grande justificativa para a necessidade do conhecimento histórico como elemento decisivo na elaboração da escolha eleitoral?, diz o relatório.

Agencia Estado,

12 de novembro de 2002 | 19h53

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