WILTON JUNIOR / ESTADAO
Candidatos chegam para o primeiro dia de prova do Enem no câmpus da UERJ, no Rio WILTON JUNIOR / ESTADAO

Enem 2021: Invisibilidade e registro civil é tema da Redação

Prova é aplicada neste domingo, 21, para 3,1 milhões de candidatos; portões foram fechados às 13 horas

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 13h50
Atualizado 21 de novembro de 2021 | 16h51

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, divulgou na tarde deste domingo, 21, o tema da Redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2021. Candidatos terão de escrever sobre "Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil". A aplicação do primeiro dia de provas começou às 13h30 e deve seguir até as 19 horas. Além da Redação, os candidatos respondem a questões de Linguagens e Ciências Humanas neste domingo. 

A proposta de Redação é acompanhada de textos de apoio aos candidatos, que ainda não foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão responsável pela prova. Professores de Língua Portuguesa e Redação elogiaram a proposta e afirmaram que o tema oferece várias possibilidades de abordagem pelos candidatos.

Na prova de Redação do Enem, candidatos devem escrever um texto do tipo dissertativo-argumentativo em que defendem um ponto de vista a respeito do tema proposto. Para isso, precisam usar argumentos estruturados. O texto deve conter uma proposta de intervenção social para o problema apresentado, ou seja, sugerir uma forma de enfrentá-lo.

"É um tema considerado tranquilo para os alunos e é uma importante discussão já que muitas pessoas não conseguem ter acesso ao registro civil ainda. Falamos em analfabetismo digital, desemprego, sendo que muitas pessoas não conseguem ter acesso a direitos mais básicos porque não são reconhecidas pelo Estado", diz Thiago Braga, autor de Língua Portuguesa do Sistema de Ensino pH. 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que pelo menos 3 milhões de pessoas não tinham registro civil de nascimento no Brasil em 2018. 

O professor Sérgio Paganim, diretor pedagógico do Curso Anglo, considerou o tema trabalhoso para os candidatos. "(O candidato) pode pensar na força do Estado para incentivar e promover o registro civil. E, na ponta dos efeitos, pode pensar na distorção dos dados públicos que são fundados nos dados dos cartórios."

Como opções de abordagem pelos candidatos, Paganim cita problemas relacionados a políticas públicas, que ficam reféns da ausência de registros. "E a própria inserção social que depende desses registros e fica prejudicada." De acordo com Milton Costa, professor de Redação do Curso Pré-vestibular da Oficina do Estudante de Campinas, é possível ainda abordar o atraso no Censo demográfico pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no governo Jair Bolsonaro.

Para Maria Catarina Bózio, coordenadora pedagógica e de Redação do Colégio Poliedro, o aluno que conseguir descrever a variedade de direitos impedidos quando não se tem registro civil tende a ter um bom desempenho na prova. O candidato pode lembrar a impossibilidade do voto, de acesso à educação básica e até de vacinação acarretados pela falta de documentos.

Já a proposta de solução para o problema, exigência da Redação do Enem, pode tratar sobre as formas de garantir a agilidade do registro, até mesmo com o uso de tecnologia, e a possibilidade de recuperar os documentos em caso de perda, roubo ou desastre, segundo Maria Catarina.

A nota da Redação pode chegar a mil pontos. Alguns deslizes, porém, fazem o candidato zerar, como fugir do tema, escrever menos de sete linhas, inserir algum trecho totalmente desconectado do tema proposto, não obedecer à estrutura dissertativo-argumentativa e desrespeitar a seriedade do exame.

Nas redes, tema é debatido

Nas redes sociais, o tema suscitou dúvidas e levantou questionamentos sobre as possíveis abordagens para a redação. A maioria dos internautas lembrou da oportunidade de se escrever sobre temas como cidadania e dificuldade de acesso à direitos básicos por quem não tem documentos.

Questões relacionadas ao registro com nome social, às dificuldades enfrentadas pela população transsexual no País e à falta do nome do pai na certidão de nascimento também foram mencionadas. 

Ganhou bastante destaque entre os internautas, também, a necessidade de campanhas de conscientização e incentivo à regularização dos documentos pessoais para quem mora em zonas rurais e afastadas dos grandes centros. Além disso, o tema da redação rendeu muitos “memes” por conta da dificuldade de compreensão da proposta. 

Exame ocorre em meio à crise no Inep

No próximo domingo, 28, os participantes fazem as provas de matemática e ciências da natureza. A aplicação do Enem deste ocorre em meio a uma crise no Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que organiza o exame. Trinta e sete coordenadores pediram demissão coletiva neste mês, o que expôs a instabilidade no órgão. 

Somou-se a esse cenário a declaração do presidente Jair Bolsonaro, que disse que a prova estava começando a ter a sua cara. O Estadão revelou na semana passada que, em uma intervenção inédita, a gestão federal selecionou questões e quis driblar regras de acesso ao conteúdo da prova

O exame é aplicado neste domingo para 3,1 milhões de estudantes que tiveram a inscrição confirmada. É o menor número de participantes desde o ano de 2005, o que expôs a dificuldade de acesso igualitário à educação em um ano marcado pela pandemia e pelo agravamento das condições socioeconômicas. /COLABOROU DANIEL TOZZI MENDES

Veja os temas de Redação do Enem dos anos anteriores

  • 1998: Viver e aprender
  • 1999: Cidadania e participação social
  • 2000: Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional?
  • 2001: Desenvolvimento e preservação ambiental: como conciliar os interesses em conflito?
  • 2002: O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais de que o Brasil necessita?
  • 2003: A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo?
  • 2004: Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação? 
  • 2005: O trabalho infantil na realidade brasileira
  • 2006:  Poder de transformação da leitura
  • 2007:  O desafio de se conviver com a diferença
  • 2008: Amazônia
  • 2009: O indivíduo frente a ética nacional
  • 2010: O Trabalho na Construção da Dignidade Humana
  • 2011: Viver em rede no século XXI: Os limites entre o público e o privado
  • 2012: O movimento imigratório para o Brasil no século XXI
  • 2013: Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil
  • 2014: Publicidade infantil em questão no Brasil
  • 2015: A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
  • 2016: Caminhos para combater a intolerância religiosa
  • 2017: Desafios para a formação educacional de surdos
  • 2018: Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet
  • 2019: Democratização do acesso ao cinema no Brasil
  • 2020: O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira

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Enem: Portões de acesso aos locais de prova são fechados; 1º dia tem redação e ciências humanas

Os portões se fecharam às 13h, no horário de Brasília, em todas as cidades do País. Exame ocorre em meio à crise do Inep, órgão federal que organiza a prova

Ana Paula Niederauer e Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 12h17
Atualizado 21 de novembro de 2021 | 17h25

Os portões de acesso aos locais de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foram fechados às 13h (horário de Brasília) em todo o País. A aplicação do primeiro dia começou às 13h30 e segue até 19h deste domingo, 21, quando os candidatos terão de responder a questões de linguagens, ciências humanas, além da elaboração da redação. 

Antes mesmo da abertura dos portões, os candidatos que fariam a prova do Enem já se concentravam no entorno do prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no bairro do Maracanã, na zona norte da capital fluminense.

A estudante Luiza Miranda Fernandes, de 18 anos, mora a apenas 10 minutos de distância do local da prova, no bairro do Grajaú, mas chegou à Uerj ainda no fim da manhã, como parte do esforço de afastar a ansiedade.

“Estou muito nervosa. Eu me preparei, mas vejo o tanto de gente tentando (a prova) também e fico ansiosa”, contou Luiza, candidata a uma vaga de graduação no curso de Enfermagem. “Chegamos antes para acalmar, para respirar, para esperar com mais tranquilidade”, relatou.

A jovem estava acompanhada pela mãe, Fabrícia Miranda, que não poupou esforços para motivar a filha. Ela esperaria à porta da universidade até que a estudante terminasse a prova, que se estende de 13h30 às 19h.

“É essencial nesse momento tão importante para eles que a gente esteja ao lado dando apoio, passando tranquilidade”, disse Fabrícia, que relatou ter evitado no noticiário recente sobre os problemas envolvendo a organização do Enem, para evitar transmitir ansiedade para a filha às vésperas da prova. “Preferi não focar nisso não só pela minha ansiedade como mãe, mas também para não passar isso para ela. Quero passar tranquilidade, porque ela está muito ansiosa”.

A estudante Maria Vitória Damasceno, de 19 anos, também teve o apoio da família no dia de prova. Ela chegou acompanhada pelo pai e pelo irmão à universidade, onde presta o concurso para uma vaga na graduação em Direito.

“Não estudei como gostaria, por conta do trabalho e do concurso para o Banco do Brasil, mas vou na fé e na força”, declarou. “Prefiro chegar antes, relaxar, dar uma estudada, do que chegar atrasada”, completou.

O estudante Pedro Henrique de Amorim, de 18 anos, que tenta uma vaga no curso de Psicologia, relata não saber o que esperar da prova, especialmente depois de tantas notícias recentes sobre turbulências envolvendo o processo seletivo. "Acho que a redação vai ser o maior desafio”, contou Pedro Henrique.

A pensionista Maria do Socorro de Carvalho, de 83 anos, esbanjava disposição na sua terceira tentativa de conquistar uma vaga na universidade através do Enem. A cearense pretende cursar a faculdade de Administração. “É o meu sonho”, declarou Maria do Socorro. “Não importa a idade, o importante é a força de vontade”, concluiu.

O Enem 2021 tem medidas de segurança contra a covid- 19. Assim como na edição de 2020, o uso de máscara facial é obrigatório desde a entrada até a saída do local de provas. Participantes que estejam com covid-19 ou com outras doenças infectocontagiosas não devem comparecer ao exame e podem solicitar a reaplicação na Página do Participante

Exame ocorre em meio à crise no Inep

No próximo domingo, 28, os participantes fazem as provas de matemática e ciências da natureza. A aplicação do Enem deste ocorre em meio a uma crise no Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que organiza o exame. Trinta e sete coordenadores pediram demissão coletiva neste mês, o que expôs a instabilidade no órgão. 

Somou-se a esse cenário a declaração do presidente Jair Bolsonaro, que disse que a prova estava começando a ter a sua cara. O Estadão revelou na semana passada que, em uma intervenção inédita, a gestão federal selecionou questões e quis driblar regras de acesso ao conteúdo da prova

O exame será aplicado neste domingo para 3,1 milhões de estudantes que tiveram a inscrição confirmada. É o menor número de participantes desde o ano de 2005, o que expôs a dificuldade de acesso igualitário à educação em um ano marcado pela pandemia e pelo agravamento das condições socioeconômicas. 

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Candidatos do Enem relatam ansiedade diante da crise do Inep e de falas de Bolsonaro

Primeiro dia do exame ocorre neste domingo, 21, em todo o País. Demissão coletiva no Inep e suspeitas de interferências indevidas deixam estudantes preocupados

Ana Paula Niederauer e José Maria Tomazela , O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 13h49
Atualizado 02 de dezembro de 2021 | 10h46

Participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que tem seu primeiro dia de aplicação neste domingo, 21, relataram ansiedade diante do contexto da crise no Inep (órgão federal que organiza a prova) e das falas recentes do presidente Jair Bolsonaro. Os estudantes de diferentes partes do País disseram temer que questões e temas específicos sejam suprimidos e relataram “cuidados” com opiniões a serem dadas na elaboração da redação. A correção da redação do Enem não prevê avaliação de opiniões, mas dos argumentos do candidato. Uma das regras, segundo o edital, é não desrespeitar os direitos humanos no texto

Em São Paulo, a participante Beatriz Benjamin Chagas, de 22 anos, que chegou com duas horas de antecedência ao Colégio Objetivo, na Avenida Paulista,  disse se sentir insegura. "Todos esses acontecimentos às vésperas da prova só trazem insegurança.”

Ela enfatizou que tem medo de expor opiniões no tema da redação que possa desagradar o governo. "Querendo ou não eu vou ter que seguir a política deles para tentar uma boa nota. Eu não posso falar exatamente minha opinião porque tenho medo de retaliações", disse Beatriz.

Com o sonho de cursar museologia, a produtora cultural Alice Beatriz Gallina, de 23 anos, teme pelo futuro do Enem, após as crises recentes. " Eu lembro que no passado a prova tinha questões impactantes, bem elaboradas e que de alguma forma colocavam na ‘parede’ o governo. Eu tenho preocupação de perder esse caráter de questões importantes do País.”

Para o estudante Rafael Alves, de 17 anos, que chegou às 11h30 ao local de prova na capital paulista,  participar do Enem já traz o nervosismo natural de quem almeja entrar em uma universidade. "É normal ter um pouco de ansiedade, mas temos que tentar", disse Alves.

Para Alves, que pretende cursar Tecnologia da Informação, "é melhor não escrever opiniões contrárias ao governo Bolsonaro na redação".

Como mostrou o Estadão, o Inep enfrenta sua pior crise desde o roubo do Enem em 2009. Às vésperas da aplicação do exame de 2021, o órgão viu uma debandada: 37 servidores pediram exoneração denunciando a pressão para trocar itens da prova e criticando a “fragilidade técnica” da cúpula da autarquia responsável pelo exame. 

O Inep, o Ministério da Educação e o governo federal sustentaram ao longo das últimas semanas que o exame não será prejudicado pela demissão e negaram interferências indevidas no conteúdo da prova. 

O estudante Pedro Luiz da Silva Domiêncio, de 18 anos, morador da Vila Sônia, zona sul de São Paulo, chegou ao Objetivo na Paulista às 11h30. "Cheguei cedo para garantir que não aconteçam imprevistos", disse.

Domiêncio, que cursa o terceiro ano do ensino médio, afirmou que tanto a crise no Inep quanto as declarações do presidente acabam impactando os candidatos no Enem.

" A gente sabe como é o nosso presidente. Na escola estávamos estudando os possíveis temas que poderiam cair na prova como: feminicídio, crise no meio ambiente, entre outros polêmicos. Mas depois das declarações do Bolsonaro, achamos prudente junto aos professores trocarmos o foco para capitalismo e governo conservador".

Mais calmo do que imaginava, o estudante do curso técnico de engenharia mecatrônica Felipe Santos Silva, de 17 anos, chegou à PUC-Minas, em Belo Horizonte, para as provas daquele que considera “o pior Enem de todos”.  

Não bastassem a pandemia e as aulas online, Felipe avalia como “surreal" os últimos acontecimentos envolvendo o exame deste ano. “Dei azar de fazer o pior Enem de todos. Estudar em 2021 tem sido muito desanimador”. 

Ele se refere tanto à dificuldade de se preparar por conta da pandemia como dos fatos envolvendo a aplicação do Enem. “Se cair um tema na redação, por exemplo, de assédio moral, será que eu vou poder citar o caso do próprio Inep?”, ironiza o aluno do Cefet-MG, referindo-se à demissão coletiva de membros do instituto. 

Tiago de Moura, de 25 anos, prestou o exame pela primeira vez em 2015, e agora repete a prova em Porto Alegre em busca de uma bolsa do Prouni. Ao comparar a preparação para a prova prestada há seis anos, ele diz ter se sentido mais acuado neste ano. “Na época eu tinha mais segurança, pois sabia que o que eu estudei iria cair na prova, mas neste ano estudei de forma muito insegura, pois a gente sabe que o governo está mexendo na prova.”

Gustavo Reis, de 17 anos, faz a prova em Salvador e conta que se preparou muito, mas admite que no ano passado foi atrapalhado pelo nervosismo. Dessa vez, quando ficou sabendo das demissões no Inep, parou de acompanhar o noticiário, por orientação dos professores.

“O psicológico pesa muito na hora da prova e influencia no nosso rendimento. São noventa questões, decidi não acompanhar muitas notícias relacionadas ao governo, para controlar a minha ansiedade. Sempre que vejo a injustiça me sinto muito impotente. É como se a gente não tivesse poder de mudança nenhuma, então foi melhor evitar”, comentou o estudante.

Pai de Maria Eduarda, de 17 anos, o aposentado Ilson Rodrigues, de 57, conversava com outros pais após deixar a filha em um dos locais de prova, na zona centro-sul de Manaus. Ele teme que o exame reprove quem considera o regime militar brasileiro uma ditadura. “Nossa filha foi formada acreditando que foi uma ditadura. Ela nunca foi ensinada na escola que era uma revolução. Isso vai causar problemas, tendo em vista que eles tiveram uma formação totalmente diferente”, apontou.

Ativismo e passado

“No ano passado, já teve interferência do governo federal e a prova não teve questões sobre o período da ditadura militar, por exemplo. Este ano, é de se esperar que não apareçam questões sobre a pandemia e desmatamento, que podem incomodar o governo de Bolsonaro”, disse um candidato de 38 anos que preferiu não se identificar quando esperava o momento de entrar para a prova, em Sorocaba, interior de São Paulo. 

Ele está no quinto Enem e parou de trabalhar para se dedicar aos estudos. “Tive formação de operário e só agora estou buscando recuperar as oportunidades que não tive”, disse. Ele esperava que a redação fosse de um tema que não expusesse o governo. 

O estudante lembrou que o presidente Jair Bolsonaro disse que o Enem teria a cara do seu governo. “Ele não quer o ativismo da oposição, mas quer o seu ativismo. Creio que a prova foi moldada para levar ao esquecimento o passado difícil do Brasil, como as torturas e mortes durante o regime militar.” 

Ele disse que também se sentia inseguro devido à pandemia. “Estou de máscara e vacinado com duas doses, mas sei que muita gente não tomou a vacina. Nem todos têm a consciência de não se apresentar para a prova se estiver com algum sintoma.”

A candidata Maria Eduarda Butieri Gomes, de 20 anos, que não prestou a prova do ano passado por causa da pandemia, disse que a interferência de governantes na elaboração das questões pode ser um fator limitante para o desempenho dos estudantes. “Você estuda tudo esperando que possa cair tudo, mas alguns temas são vetados. Isso limita e prejudica quem se preparou para uma prova mais ampla”, disse. É o seu segundo Enem – ela prestou em 2019 – e espera conseguir vaga em biomedicina ou farmácia.

O candidato Joshuel Sanzovo, de 23 anos, que esperava a abertura dos portões para seu segundo Enem, disse que a interferência do governo afeta a qualidade da prova. “Por anos o Enem seguiu um padrão que, bem ou mal, avaliava o candidato. No ano passado, a fórmula já foi alterada e este ano, tudo indica que a interferência tenha sido ainda mais alta. Na redação, por exemplo, certamente não vão focar o momento do país. Não vejo como isso pode ser bom para avaliar o conhecimento.”

O candidato Bryan Pereira Duarte, de 18 anos, disse ter feito o possível para não deixar que os “fatores políticos” prejudicassem a preparação para seu primeiro Enem. “Se a gente se ocupa com esses fatores extras acaba perdendo o foco no estudo. Tento não pensar para não ficar nervoso.” 

Ele esperava uma redação sobre um tema atual. “Vou encarar o que vier.” 

Houve casos de retardatários que perderam a prova em pelo menos dois locais do exame em Sorocaba. Na Universidade Paulista (Unip), um estudante chegou alguns segundos atrasado e culpou o serviço de transporte por aplicativo. “Cancelaram duas vezes e acabei atrasando”, disse ele, que pediu para não ser identificado. Uma estudante chegou a tempo, mas não pode fazer a prova por documentação incompleta. /COLABORARAM BRUNO TADEU, LAILA NERY, EDUARDO AMARAL E ALINE RESKALLA, ESPECIAIS PARA O ESTADÃO

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Prova do Enem no Rio tem protesto contra interferência do governo no exame

Grupo se manifestou contra o que chamou de 'desmonte' do exame. Primeiro dia da prova ocorre neste domingo, 21, em todo o País

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 15h01

RIO – Estudantes que integram o coletivo Juntos.org.br fizeram um protesto neste domingo, 21, em meio à circulação de candidatos que fariam a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) na sede da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no bairro do Maracanã, na zona norte da capital fluminense.

Pouco antes do fechamento dos portões, às 13h, os ativistas estenderam uma faixa com os dizeres “Pelo direito de estudar” e “Contra a censura e o desmonte do Enem”, em referência às denúncias sobre interferências do governo federal na organização e confecção da prova, o que despertou uma crise no Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que organiza o exame.

“Há uma série de interferências do governo federal no Enem”, afirmou Fabiana Amorim, de 23 anos, estudante da Universidade federal Fluminense (UFF) que participava do ato de protesto. “A gente está denunciando a situação de desmonte dessa prova”, justificou.

O presidente Jair Bolsonaro chegou a declarar que a prova do Enem deste ano estava começando a ter a cara do governo. O Estadão revelou na semana passada que, em uma intervenção inédita, a gestão federal selecionou questões e quis driblar regras de acesso ao conteúdo da prova.

O Inep, o Ministério da Educação e o governo federal sustentaram ao longo das últimas semanas que o exame não será prejudicado pela demissão coletiva no instituto e negaram interferências indevidas no conteúdo da prova. 

“O Enem do ano passado já teve a maior taxa de evasão da história (mais da metade dos inscritos não apareceu para fazer a prova na edição de 2020). Isso tem a ver com um problema muito grave que está acontecendo na educação básica”, avaliou Fabiana.

A ativista menciona as dificuldades de estudantes de baixa renda de acompanharem as aulas remotas durante a pandemia pela falta de estrutura e conexão à internet, ao mesmo tempo em que a crise econômica estaria fazendo esses jovens desistirem de tentar ingressar no ensino superior pela necessidade de encontrar uma fonte de renda no mercado de trabalho.

O Enem teve 3,1 milhões de inscrições confirmadas nesta edição de 2021, o menor número de participantes desde o ano de 2005.

O engenheiro Altair Ciro Rodrigues de Moraes, de 59 anos, acompanhava a filha Daniela de Moraes, de 19 anos, na seleção deste domingo na Uerj. Ele lamentava, porém, que a filha não tenha obtido a oportunidade de se preparar para o exame da mesma maneira que concorrentes que estudam em escolas privadas. Estudante do Colégio Pedro II, no campus Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Daniela tenta uma vaga na área de Ciências Biológicas, mas está quase dois anos sem aulas presenciais na rede de ensino federal.

“De março a setembro do ano passado eles nem tiveram aula. O ensino remoto começou apenas em setembro, então fizeram um programa apressado, reduzido, para comprimir dois anos em um praticamente, nem perto do que seria um ano letivo normal. Ela só vai concluir o terceiro ano do ensino médio no ano que vem. Então ela está fazendo a prova em desvantagem em relação aos alunos de colégios particulares”, lamentou Moraes.

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