Jef Delgado
Jef Delgado

Enem 2020: Rapper Emicida é homenageado em caderno de questões

‘Quando vi, dei um sorriso por trás da máscara’, diz candidato; estudantes usaram canções do álbum ‘AmarElo’ como argumento na Redação

Ilana Cardial, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 15h26

O rapper Emicida foi homenageado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Trechos de suas canções marcaram as capas dos 5,7 milhões de cadernos de prova neste domingo, 17. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) usa frases na capa do exame desde 2011 e, neste ano, escolheu as de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida. Três delas do álbum AmarElo - É tudo pra ontem, último disco do cantor, considerado por muitos uma mistura de abraço afetuoso com um bote salva-vidas. Candidatos relatam ter usado trechos de canções na Redação, cujo tema foi “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”.

No Enem, os cadernos de questões têm quatro cores: amarelo, rosa, azul e branco. Todos os anos, a fim de dificultar fraudes, o Inep escolhe uma frase para cada cor de caderno que deve ser transcrita pelos candidatos. É comum que personalidades brasileiras sejam homenageadas. Em 2019, as capas continham versos de músicas da banda Legião Urbana. Em 2018, foram trechos de obras da escritora Conceição Evaristo. 

Neste ano, foi a vez do Emicida. Em São Paulo, o vestibulando de Medicina, Dherick Flud, de 20 anos, recebeu o caderno amarelo, com a frase “Quem tem um amigo tem tudo”, da canção de mesmo nome, que conta com participação Zeca Pagodinho e da banda japonesa Tokyo Ska Paradise Orchestra. 

“Quando me deparei com o caderno de questões, dei um sorriso por trás da máscara", diz Dherick. "Por ter uma memória afetiva muito forte com as letras do AmarElo, principalmente com a faixa-título, era como se o Emicida estivesse passando para me desejar forças naquele contexto.” 

Na Redação, o estudante usou a frase “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”, da música AmarElo. “Destaquei na introdução, para evidenciar que não se deve julgar um indivíduo pelas marcas que o tempo lhe atribui, especialmente se essas marcas tratam-se de doenças mentais. Essas são como correntes que aprisionam as identidades de cada brasileiro, e é nosso trabalho enquanto sociedade quebrar as amarras e os preconceitos, porque todos temos certa culpa nos estigmas que nos rodeiam.”

Quem pegou o caderno rosa, deparou-se com “Cale o cansaço, refaça o laço”, da música Principia (part. Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira e Pastoras do Rosário). No azul, “Me deu um beijo e virou poesia”, de Pequenas Alegrias da Vida Adulta (part. Thiago Ventura & Marcos Valle), do AmarElo. 

No sul de Minas Gerais, em Areado, Daniel José, de 18 anos, recebeu o caderno branco com a frase “Vitória é sonho dos olhares”, do single Trevo, Figuinha e Suor na Camisa, de Emicida e Ivete Sangalo. Única canção escolhida pelo Inep que não faz parte do álbum AmarElo. “Mesmo fazendo como treineiro, eu estava bem nervoso. O Enem joga essa energia na gente. Mas quando eu li a frase, foi como um ‘vai ficar tudo bem’”, diz Daniel. “É óbvio que, como jovem preto, eu achei incrível ver um dos meus artistas preferidos na capa de algo como o Enem.”

Na Redação, assim como o Dherick, Daniel escolheu um trecho da música AmarElo, faixa-título do último álbum. Quando leu a proposta de redação ligada à saúde mental, anotou o trecho “Eu preciso cuidar de mim” na folha de rascunho. “Citei na redação como o exemplo de um dos maiores artistas no cenário atual, que tem projetos que escancaram nossa fragilidade e fazem a gente refletir sobre cuidar de nós mesmos”, diz. “Vai na contramão da maior parte da sociedade que ainda enxerga esse tema da saúde mental com muito preconceito”. 

Outras canções de AmarElo tratam, ao mesmo tempo, sobre força e fragilidade. Emicida canta com compreensão e afeto sobre a dor. Em Hoje Cedo, com a participação da cantora Pitty, há um trecho sobre “Crise, trampo, ideologia, pause / E é aqui onde nóis entende a Amy Winehouse”. Na canção Ismália, inspirada no poema de Alphonsus Guimarães, o rapper aborda a dor causada pelo racismo, como em “Quis tocar o céu, mas terminou no chão / Ter pele escura é ser Ismália, Ismália”. 

Em seu projeto multimídia AmarElo Prisma, Emicida propõe debates coletivos a partir de experiências pessoais. No episódio “Movimento 2: Clareza/Mente”, o rapper conversa com especialistas sobre saúde mental. “A gente começou cuidando do corpo, agora a gente tá cuidando da mente. Porque se a gente estiver forte, a gente começa a criar uma comunidade mais forte”, diz Emicida. 

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