Empresários vão centrar esforços no ensino fundamental

Executivos de grandes empresas resolveram atacar juntos o problema da má qualidade da educação pública no País. Investindo nas escolas, o grupo pretende aumentar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, que hoje ocupa a 73.ª posição no ranking mundial. O investimento inicial no setor é de R$ 90 milhões."Percebemos que soluções de varejo não funcionam mais; precisamos de ações de atacado", diz o presidente do grupo chamado de Empresários pelo Desenvolvimento Humano (EDH) e presidente da Philips, Marcos Magalhães. Por "atacado", entenda-se um investimento inicial de R$ 90 milhões, provenientes de empresas multinacionais como Credicard, Nokia, Nestlé e Oracle, e nacionais, como Itaú Seguros, Unibanco e Estrela. "Normalmente, os projetos sociais visam a promover a marca de cada empresa e têm um efeito pequeno no País", diz o presidente da americana Oracle, Sérgio Rodrigues. No EDH, segundo ele, só são aceitos presidentes das corporações. "O trabalho do executivo prepondera sobre o da empresa. Se eu mudar de trabalho, com certeza continuarei colaborando." Magalhães diz que, quando o grupo resolveu juntar forças para melhorar o IDH brasileiro, constatou rapidamente que o objetivo só seria alcançado por meio da educação de qualidade. O ensino fundamental (1.ª a 8.ª séries) foi escolhido como alvo de atuação. Mesmo com a recente universalização do ensino - 97% das crianças estão nas escolas -, o País registra índices de 39% dos alunos com atraso escolar e apenas 59% de concluintes.AnalfabetismoO EDH começou este mês seu investimento em Pernambuco, depois de cruzamentos de dados que mostraram a situação precária do ensino no Estado. "Temos um grande problema de crianças analfabetas", diz o secretário de Educação de Pernambuco, Mozart Neves Ramos. Cerca de 150 mil alunos do ensino fundamental do Estado não aprenderam a ler e a escrever. O primeiro projeto do EDH - desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna - combate justamente esse problema. Já capacitou mil professores da própria rede de ensino do Estado e formou salas especiais em 48 municípios para alfabetização. Segundo a presidente do instituto, Viviane Senna, o programa foi aplicado e aprovado em 240 municípios de Goiás. "As crianças que eram analfabetas passaram a ler 40 livros por ano", diz. A segunda etapa em Pernambuco será executada em 2004, com o projeto chamado de Acelera. A intenção é montar outras salas específicas para alunos em defasagem idade/série. No Estado, são cerca de 450 mil, de acordo com a avaliação prévia realizada a pedido do EDH. Segundo Viviane, os professores são treinados pelo instituto para conseguir recuperar três a quatro anos escolares em um ano. Por estar focado na solução de um problema imediato, a preocupação dos empresários é também a de garantir que haja mudanças estruturais no sistema. "Estamos lutando para que esses projetos não tenham de ser permanentes", completa o secretário Ramos. A intenção do EDH é, ao capacitar professores, mudar a maneira de ensinar. "Por isso fazemos tudo com profissionais que fazem parte da rede de ensino do Estado. Estes mesmos professores que atendem os alunos em defasagem depois vão trabalhar com os outros e mudar o sistema", diz Viviane. A intenção é garantir a alfabetização logo na 1.ª série. A duração prevista dos dois projetos é de cerca de cinco anos. "Depois disso, gostaríamos de evoluir para outros Estados, inclusive com adesões de empresários locais", diz Magalhães. Na inauguração do projeto, semana passada em Pernambuco, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Educação, Cristovam Buarque, Magalhães manifestou sua intenção de que os programas se transformassem em políticas públicas. Hoje, todo o custo - capacitação de professores, material e supervisão - é bancado pelos executivos do EDH, que compram cotas mensais de, no mínimo, R$ 5 mil.

Agencia Estado,

21 de maio de 2003 | 14h05

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