Alexandre Rampazzo
Alexandre Rampazzo

Empatia, palavra que une livro e criança

Literatura de qualidade faz com que meninos e meninas se coloquem no lugar dos personagens e compreendam sentimentos e situações

Bia Reis e Cristiane Rogerio, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 05h00

Em comemoração ao mês das crianças, o Estado publicará em todos os domingos de outubro uma matéria sobre literatura infantil.

SÃO PAULO - Dos vários retornos que ouviu sobre suas histórias ao longo dos 20 anos de carreira, o escritor Ilan Brenman se recorda particularmente de um. Após sofrer um acidente grave, um menino perdeu parte de um dos dedos da mão direita e, apesar de ter se recuperado bem, se recusava a voltar para a escola. Alguém, então, deu à criança o livro A Cicatriz (Cia. das Letrinhas), em que Brenman, inspirado em um pequeno imprevisto doméstico com uma das filhas, fala sobre como cada cicatriz conta uma história, e como as histórias aproximam as pessoas. “O menino pediu para a mãe ler mais de cem vezes a história para ele e, depois de uma semana sem ir para a escola, acordou de manhã, pegou o livro na mão e disse: ‘Hoje quero ir para escola para contar a minha história’”, conta Brenman, psicólogo, doutor em Educação e um dos autores da literatura infantojuvenil mais publicados e premiados no Brasil.

Não foi intencional, mas Brenman conseguiu que o menino se colocasse no lugar dos personagens (no caso, da garota também acidentada), compreendesse a atitude dela e, assim, repensasse a própria condição. A obra e as personagens despertaram a empatia do leitor. “A palavra empatia vem do grego, significa a capacidade de se colocar no lugar do outro, de tentar experimentar a emoção sentida por seu semelhante Homo sapiens”, diz Brenman, que é autor, além de dezenas de livros infantis, de duas obras teóricas sobre o tema, Através da Vidraça da Escola e A Condenação da Emília – O Politicamente Correto na Literatura Infantil (ambos da Editora Aletria). 

Envolver-se com as histórias, identificar-se com os personagens, colocar-se no conflito, no medo, nas fragilidades é um meio de fortalecimento, explica a pedagoga Denise Guilherme, mestre em Educação e idealizadora de A Taba, empresa focada na curadoria de livros para crianças e jovens. “Quando leio e entro em contato com um universo diferente do meu, vou percebendo que existem outras formas de ver o mundo. Pode ser um primeiro passo para perceber que sua forma de ver não é a única, que a forma que sua família é não é a única, além daquela que você vê e experimenta.”

Para Brenman, a empatia na literatura está diretamente ligada à qualidade do livro. “Não imagino (Leon) Tolstói, Machado de Assis ou Monteiro Lobato começando suas obras com a intenção de serem empáticos. Uma obra literária de qualidade é empática por osmose: quanto mais qualidade, mais verdadeiramente humana ela será e, por consequência, mais identificação causará.”

Assim, o possível “benefício” deve ser precedido da necessidade do autor de dizer algo ao mundo. As histórias do historiador e escritor Fábio Monteiro, por exemplo, nascem de seus incômodos com a vida. Cartas a Povos Distantes (Paulinas), ilustrado por André Neves e vencedor do Prêmio Jabuti de 2016, surgiu da vontade de falar sobre o continente africano e a infância.

Por meio da troca de cartas entre duas crianças, uma brasileira e outra angolana, Monteiro estabelece a relação entre os países. “Me coloquei no lugar de Angola, na situação do quanto é cruel as crianças serem vítimas de guerras. Venho de Pernambuco, Estado onde a cultura negra é forte na maneira de falar, dançar e cantar, e acho que essas memórias não podem ser esquecidas. Queria assegurar a memória de dois continentes irmãos que se complementam, porque nossas dores são parecidas: desigualdade, exploração europeia, pobreza como herança da colonização.”

Diversidade. Mexer com as nossas memórias também coloca em questão as nossas representatividades. Se somos um povo miscigenado, as crianças também querem se sentir representadas nas histórias publicadas. Assim, os livros não podem ser povoados apenas de princesas loiras e esbeltas, certo?

A questão da diversidade está presente no livro A Cor de Coraline (Rocco), em que o autor paulistano Alexandre Rampazo questiona o lápis “cor da pele”. A história nasceu de um estranhamento relatado pela filha durante um trabalho em um abrigo. Enquanto desenhava, um menino negro pediu a ela o tal lápis “cor da pele”. Ele estava em busca do rosa e repetia, sem perceber, o estereótipo preconceituoso.

No livro de Rampazo, Pedrinho pede a Coraline o lápis “cor da pele” emprestado. A menina olha, surpresa, para sua caixa de 12 cores e se pergunta: “De qual pele será que o Pedrinho estava falando?”. A partir daí, Rampazo nos convida a uma viagem de cores e representações, com leveza, humor e afeto, tocando em questões importantes de forma poética, sem lição de moral, e joga o leitor para a reflexão sobre si mesmo em relação ao outro.

Para Rampazo, um livro é só o início para uma série de reflexões. “Empatia, para mim, é também entender o todo de uma situação, entender por que a pessoa tomou determinada atitude. É um processo de amadurecimento percebermos que as pessoas têm reações diferentes com base nas próprias histórias. É, talvez, a chance de ampliar horizontes, de salvar um pouco o mundo da angústia.”

Três perguntas para Raquel Franzim, assessora pedagógica do Instituto Alana

O mundo parece viver uma crise de empatia. Estamos em uma época em que falta a escuta do outro, em que há pressa nas conversas e nas relações. A literatura voltada para a infância pode ajudar a reverter esse cenário, a provocar empatia, compaixão?

A literatura, assim como as demais linguagens artísticas, é sim capaz de proporcionar experiências como a de empatia. Ao nos aventurarmos em uma história, adentramos o universo da imaginação. É uma demonstração de que a leitura não é só um exercício cognitivo: é também social, sensorial, emocional, cultural, espiritual. E aí está a riqueza. Posso experimentar, de maneira segura, um universo de sensações, me colocar em uma perspectiva distinta da minha. Posso sentir medo como crianças abandonadas em uma floresta escura ou o sabor da vingança de quem perdeu uma perna na boca de uma baleia. A literatura provoca o deslocamento, permite assumir diferentes perspectivas. 

A empatia ocorre apenas quando há identificação?

Não, também ocorre por contraposição. Faz bem sentir, de forma segura, raiva, ódio, ira, inveja - sentimentos tão condenados pelas sociedades. Em uma recente roda de conversa sobre a importância da empatia na educação de crianças e jovens, o filósofo Renato Janine Ribeiro (ex-ministro da Educação) reforçou a ideia de que falta na educação mais ativo cultural, mais arte, mais literatura, mais desordem. Isso é exatamente o que a literatura faz conosco: traz um pouco de caos às certezas da vida.

Há uma maneira ideal de mediar a leitura para as crianças?

São muitas as maneiras de proporcionar vínculos à experiência literária: frequentar bibliotecas, livrarias e feiras de livros; abrir espaços para histórias que ouvimos quando crianças; estimular o empréstimo e a troca de livros. E ler! Crianças e jovens se vinculam às histórias quando sentem que essas tocam os adultos que os cercam. A experiência de mediação é também uma experiência de tempo vivido com a criança. Não se trata de tempo do relógio, já que muitas vezes a criança interrompe ou abandona a leitura. Trata-se, sobretudo, dos adultos criarem espaços de tempo com seu filho. 

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Maternidade com livros e afeto

Médico divide tempo e sentimento com os filhos

Bia Reis e Cristiane Rogerio, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Na hora de escolher o que vai ler para os filhos, a médica baiana Vanessa do Vale, de 39 anos, procura um livro que a sensibilize de alguma maneira. “Pode ser a narrativa, os personagens, a ilustração ou um projeto gráfico diferente. Primeiro é realmente a questão de empatia: mas a minha empatia com aquela obra. Depois, penso se o livro vai mexer com eles de alguma forma, se vão pensar em algo sobre o tema, aprender, se divertir ou se identificar”, conta a mãe de Antonio, de 8 anos, e de Francisco, de 3 anos.

Vanessa conta que o hábito da leitura em casa faz com que os meninos já tenham um vasto repertório de literatura. Ela conhece os gostos e as preferências de cada um e também se empenha em oferecer obras que ampliem as referências das crianças. Livros com temas mais difíceis não são deixados de fora, como O Coração e a Garrafa, do autor irlandês Oliver Jeffers, que fala sobre a morte e como lidar com esta perda. “É um jeito de colocar o assunto, parar de fingir que não existe”, afirma Vanessa.

Para ela, a leitura com os filhos traz ainda outro ganho: o compartilhamento do momento, da companhia. “A primeira vez que li para o Antonio o conto A Pequena Vendedora de Fósforos (do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen), ele adormeceu no meio e eu achei ótimo, porque não parava de chorar”, conta a mãe sobre o clássico conto, que apresenta um final dramático para a história da menina que luta pela sobrevivência em um rigoroso inverno. “No dia seguinte, ele pediu a história toda, e fui me segurando, mas não aguentei de novo e desabei. E, no fim, vi que tudo bem. Foi bacana me emocionar com ele, dividir isso.”

Para o escritor Ilan Brenman, a troca de emoções e a ampliação dos vínculos são aspectos fundamentais da literatura para crianças. “Além da empatia com os personagens ficcionais, há também estreitamento do vínculo afetivo e social com aqueles que leem e contam histórias em voz alta."

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