<!-- emercado -->A escola dos filhos pelo trabalho dos pais

Em troca da mensalidade do filho, trabalho. Desempregados ou potenciais inadimplentes, pais têm se oferecido para prestar serviços às escolas, numa última tentativa de manter o estudante na instituição particular. Para não perder alunos, muitos colégios passaram a aceitar a proposta.Nessa relação de escambo, a moeda de troca pode ser desde o fornecimento de papéis ou produtos de limpeza até serviços de funilaria para a frota escolar. Em outros casos, a alternativa é conseguir um emprego no próprio colégio e ganhar bolsa para o filho."Os pais se oferecem para fazer qualquer coisa: lavar banheiro, trabalhar na cozinha", diz Diane Cley Cundiff, diretora do Colégio Santa Maria. A afirmação se refere a uma clientela de classe média alta, que banca mensalidades entre R$ 520,00 (ensino infantil) e R$ 740,00 (médio).InadimplentesPara Diane, a maior razão do desespero é o o desemprego - a escola tem cerca de 8% de inadimplentes. O Santa Maria já usou serviços de pais no fornecimento de uniformes e em trabalhos de fotografia, mas sempre prefere pagar o contratado e receber o dinheiro da mensalidade.Na Escola Morumbi, a troca é mais direta. O colégio já deixou de receber pagamento em espécie de alunos cujos pais saldaram suas dívidas prestando serviços de marcenaria ou de engenharia civil. Também trocou mensalidades até pela instalação de persianas nas salas."É um gasto que a escola acabaria tendo de qualquer maneira. Ao fechar acordos como esses ajudamos a família num momento em que ela precisa", diz José Carlos Andrade coordenador da Morumbi, que luta contra um índice de inadimplência de cerca de 20%. A escola também atende alunos de bairros privilegiados, como Morumbi, Jardim Europa e Alphaville.Manter o padrãoFormada em comércio exterior, Marta Brugnetti Simioni teve de desistir da profissão para trabalhar na escola das filhas, numa tentativa de conseguir manter o padrão de ensino ao qual as meninas estavam acostumadas. Hoje, é recepcionista do Colégio Magno e tem duas bolsas integrais no valor de cerca de R$ 900,00. "Colocando no papel, acabou sendo mais vantajoso, já que moro na frente da escola e ainda não preciso pagar o serviço."No berçário do Magno há outra mãe-recepcionista. O trabalho da psicóloga Marisa Mastrocolla na escola dos filhos permitiu ao marido médico deixar de trabalhar em quatro lugares para poder pagar as mensalidades. "Esse emprego foi a salvação da nossa família", diz Marisa, que havia sido obrigada a fechar seu consultório pouco tempo antes.Ela disse que outras mães, também com problemas financeiros, a procuram para pedir dicas e até enviam currículos para tentar conseguir um trabalho na escola.Vestindo a camisa da escolaNo Magno, cerca de 10% dos 500 funcionários atualmente são pais de alunos - que, além da bolsa, recebem salários. Segundo a diretora Myriam Tricate, a procura tem aumentado nos últimos anos. "A vantagem para a escola é que conseguimos ter funcionários com formação muito boa e que acabam vestindo a camisa do Magno."Célio Martinez, de 56 anos, proprietário de uma oficina de funilaria e pintura, propôs ao colégio Anglo-Latino, onde seus filhos estudavam, consertar os carros e ônibus da instituição em troca da mensalidade. Deu certo. "Se dissessem não, teria de tirar os meninos da escola, não tinha o que fazer." O acordo vigorou de 2001 a 2002 e ajudou a levar um de seus filhos para a faculdade."O que não pode é se tornar uma regra, senão a escola fica sem dinheiro para pagar os funcionários", diz o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp), José Augusto de Mattos Lourenço. A prática do escambo escolar, segundo ele, foi freqüente nos anos que antecederam o Plano Real, quando a inflação era galopante e os preços sofriam reajustes mensais.Atualmente, o nível médio de inadimplência nas escolas do Estado está em 10,8%. No mesmo período do ano passado, o índice era de 7%, segundo dados do Sieeesp.

Agencia Estado,

05 de agosto de 2003 | 08h39

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