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Em um dia, MEC nomeia e exonera apoiador do 'Escola Sem Partido'

Ministério da Educação não confirma relação com posicionamento de economista e diz que concluiu que sua colaboração 'não seria necessária'

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2016 | 09h25

SÃO PAULO - Em um dia o Ministério da Educação (MEC) nomeou e, horas depois, decidiu exonerar o doutor em Economia e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Adolfo Sachsida. Ele  exerceria o cargo de assessor especial do ministro Mendonça Filho, de diálogo direto com o chefe da pasta, mas sua nomeação, que saiu no Diário Oficial da União de segunda-feira, 11, acabou sendo cancelada nesta terça-feira, 12. O caso foi informado pelo jornal Valor Econômico.

Sachsida é apoiador do projeto "Escola Sem Partido", movimento que diz defender a "neutralidade do ensino" por meio da proibição de "doutrinação ideológica" nas escolas, ideia que o próprio ministro já disse ser contra.  Em uma das publicações de seu blog, o economista, que se diz conservador, divulga um vídeo em que entrevista o procurador paulista Miguel Nagib, idealizador do texto original do projeto em 2004. Em sua página no Facebook, ele diz ser "pró vida, propriedade privada, conservadorismo moral e liberdade econômica". 

Em nota, o Ministério da Educação não confirma a relação do recuo com o apoio do economista ao "Escola Sem Partido". "O MEC e o economista concluíram não ser necessária tal colaboração." De acordo com a pasta, a nomeação de Sachsida tinha como objetivo analisar o impacto da macroeconomia no financiamento de políticas públicas da educação, função agora delegada à Subsecretaria de Orçamento e Planejamento.

A pasta disse ainda que o ministro "não discute a educação sob o ponto de vista político ideológico" e defende que a bandeira da educação deve ser "estritamente técnica, acima de qualquer disputa política, ideológica ou partidária". 

Nas redes sociais, no entanto, apoiadores do economista dizem que o motivo para o recuo do MEC é sua convicção ideológica. "Estamos vivendo um momento em que está havendo um patrulhamento enorme e qualquer pessoa que seja reconhecida como de direita não pode assumir cargos no governo porque a petralhada inferniza. Não basta tirar a Dilma, tem que desratizar o Ministério da Educação, da Cultura", diz a advogada Beatriz Kicis em vídeo no Facebook. A publicação já teve mais de 450 compartilhamentos e 5 mil visualizações.

Em seu currículo, consta que Sachsida possui doutorado em Economia pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutorado pela Universidade do Alabama. Sua área de pesquisa é a de "uso de modelos econométricos para a resolução de questões econômicas".

Blog. Integrante do Foro de Brasília, que defende o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Sachsida obteve da Justiça, na semana passada, autorização para que o  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) divulgue documentos sobre o financiamento do porto de Mariel, em Cuba. A decisão foi comemorada em seu blog.

"O interesse nacional não pode se sobrepor aos de países alinhados ideologicamente com quaisquer governos, especialmente quando os mesmos recursos públicos não são aplicados em obras estratégicas para o desenvolvimento e crescimento nacional", escreveu o economista.

Em outra postagem, Sachsida diz ser "estranha" a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de tornar réu o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) por prática de apologia ao crime de estupro e por injúria. O deputado afirmou à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que não a estupraria porque ela "não merece". "Pode-se achar a frase acima de mau gosto, pode-se achá-la inconveniente, mas daí a dizer que a mesma se configura em apologia ao crime é de um absurdo incrível. Onde está a apologia ao crime?", afirmou Sachsida.

Procurado pelo Estado, o economista não quis se manifestar.

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