FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Em mundo globalizado, pais buscam escolas bilíngues

Cresceu de 2,8 mil para 4,6 mil o total de alunos em SP em instituições internacionais ou de ensino em outro idioma

Luciana Alvarez, especial para o Estado

15 de setembro de 2019 | 07h00
Atualizado 18 de setembro de 2019 | 16h02

Correções: 16/09/2019 | 10h50

Quando chega de manhã na escola, ninguém diz “bom dia” a Felipe Yanaka, de 5 anos. O mais provável é que ele ouça um “hey, good morning”, ou alguma outra saudação em inglês. Filho de pai e mãe brasileiros, desde o início do ano o menino estuda no colégio bilíngue Aubrick, onde durante o ensino infantil as aulas são quase totalmente em inglês. 

A mãe de Felipe, Yuri, diz ter se surpreendido com a tranquilidade com que o processo está transcorrendo.

“De pequeno, ele teve um atraso de fala. Preferimos não botar antes na escola bilíngue, onde a irmã já estudava, porque ficamos preocupados de incluir mais um idioma se nem o português ele falava direito”, conta.

O menino, porém, parece ter progredido até no português depois de ter esse contato intenso com o inglês.

“Sinto que, desde a entrada na Aubrick, ficou mais atento ao meio, aos colegas, à emoção das pessoas. E nunca voltou para casa reclamando que não estava entendendo”. 

Fala e textos

A irmã mais velha, Victoria, de 7 anos, está no 2º ano. Para ela, as aulas se dividem entre português e inglês. E ela se comunica com desenvoltura nas duas línguas e agora começa a dominar o código escrito de ambas.

“Trabalho numa multinacional e às vezes a gente recebe colegas para jantar que são estrangeiros, e vejo como ela fala com desembaraço”, diz Yuri, que fala inglês fluentemente, mas começou a aprender só na adolescência. “Para mim, era uma matéria, como Matemática, Geografia. Para ela, é algo natural”. 

A diretora da Aubrick, Mirza Laranja, percebe que a geração que hoje está com filhos em idade escolar é uma que enxerga valor no bilinguismo.

“Eles cresceram no momento de globalização mais intensa, de muita comunicação com o mundo”, afirma.

A escola que foi fundada há dez anos, só com ensino infantil e 37 alunos, hoje tem quase 700 crianças do infantil ao fundamental 2. 

O crescimento da escola reflete um crescimento geral da procura por uma educação bilíngue, sobretudo em inglês. Um levantamento da Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo mostra que só na capital, onde existem ao menos 71 instituições de ensino bilíngue e oito escolas internacionais, o número de estudantes matriculados saltou de 2,8 mil para 4,6 mil ao longo dos últimos cinco anos. 

Novo foco

O inglês é a língua dos negócios e da ciência, da cultura e da tecnologia. Ser fluente no idioma não é mais visto como diferencial, mas como pré-requisito para se viver bem em um mundo globalizado. Com o desejo de que os filhos aprendam inglês de fato, mas com menos disponibilidade de levar a cursos extras, os pais buscam soluções dentro da escola regular. Muitos optam por colégio internacionais e bilíngues, instituições que já nasceram com a missão de formar os alunos no idioma estrangeiro. Outros aderem a programas especiais de idioma em escolas brasileiras, que têm percebido a demanda e passaram a fazer convênios com cursos de inglês, ou criar programas próprios. 

Coordenadora de pós-graduação do Instituto Singularidades, Antonieta Megale acredita que o ensino de inglês é o grande chamariz para escolas internacionais e bilíngues, mas defende que todas essas escolas precisam ir muito além do idioma. “O idioma deve ser colocado a serviço da ampliação do repertório cultural. Uma outra língua dá a possibilidade de acesso a bens culturais diversos”, explica. O inglês é língua oficial em 60 países. 

“Até posso trabalhar só com a Disney, mas o aluno já tem acesso a isso. O corpo docente pode, em vez disso, apresentar contos da Nigéria, da Índia. O aluno vai conhecer outro repertório do que é brincar, do que é ser criança, do que é família, de forma a rever seu papel no mundo”, afirma Antonieta. 

Fenômeno global

O aumento do interesse por colégios que ensinem em inglês não é um fenômeno de São Paulo, nem do Brasil. “Temos menos expatriados do que antes. Isso está de acordo com o quadro da maioria das escolas internacionais britânicas em todo o mundo, à medida em que mais famílias locais enxergam os benefícios de uma educação britânica”, afirma Louise Simpson, diretora do colégio britânico St. Paul’s. Sem dar números, ela diz que a demanda por vagas na escola, que sempre foi alta, “continua a crescer”. 

Arno Krug, CEO da rede Maple Bear do Brasil, de ensino bilíngue no modelo canadense, lembra ainda que a ciência está do lado do ensino de idiomas ainda na infância. Segundo ele, algumas décadas atrás, as pessoas tinham certo medo que ensinar o inglês (ou outra língua) muito cedo atrapalharia a aquisição da língua materna e na alfabetização.

“As pesquisas têm demonstrado que, na verdade, faz bem para o cérebro. Pessoas bilíngues que chegaram à terceira idade têm menos incidência de Alzheimer e mais velocidade de raciocínio”, afirma. Esse seria mais um dos motivos que têm contribuído para o aumento da demanda por escolas bilíngues em todo o mundo. 

Com 27 unidades só na cidade de São Paulo, a rede prepara uma forte expansão nos próximos três anos para o interior e outros Estados. No País, são atualmente 130 unidades, e a intenção é abrir mais 110. “Para a Grande São Paulo, não temos previsão de novas unidades, mas isso não significa que não haja mais espaço de crescimento. Se a gente comparar com Cingapura, cidade com 5 milhões de habitantes e 20 unidades da Maple Bear, ainda temos para crescer”, diz. 

Linha pedagógica

Escolas bilíngues ou internacionais podem ter projetos pedagógicos muito diferentes entre si. Na hora de escolher, é preciso analisá-las como se analisa uma escola regular.

“Ser ou não bilíngue nunca pode ser o único critério. Tem de entender a proposta educativa da escola, quais são os valores e a missão. Algumas são mais voltadas para a tecnologia, outras, para as artes, outras se preocupam mais com o vestibular”, cita Antonieta Megale, professora de pós-graduação em ensino bilíngue do Instituto Singularidades. 

Diferenças entre bilíngue e internacional

Não há uma lei nacional com definições mínimas sobre o que é necessário para uma escola ser classificada como bilíngue. Contudo, a maioria dos especialistas defende que é necessário ter cerca de metade da carga horária no outro idioma, e que as aulas não sejam “de inglês”, mas “em inglês”. Veja aqui algumas definições:

Escola internacional

Adota o currículo de outro país; pode ser americano ou inglês, por exemplo. Segue o calendário do país de origem e, portanto, o ano letivo se inicia em setembro. A maior parte da carga horária é dada em inglês, ou no outro idioma estrangeiro. A língua portuguesa fica restrita a algumas disciplinas específicas da grade.

Escola bilíngue

Precisa seguir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mas costuma incluir também o currículo de outro país. Segue o calendário do Brasil, com início do ano letivo em fevereiro. Cerca de metade do tempo oferece aulas em português, metade do tempo no segundo idioma.

Escola com programa bilíngue

No horário regular é uma escola brasileira, com o currículo segundo a BNCC, mas que inclui um programa de ensino em inglês, normalmente no contraturno. Segue o calendário do Brasil, com começo do ano letivo em fevereiro. Pode ter várias horas/ aula em inglês, mas à parte do currículo principal.

Correções
16/09/2019 | 10h50

O texto acima foi atualizado às 10h50 desta segunda-feira, 16, para corrigir a grafia do nome da diretora do colégio britânico St. Paul's. O correto é Louise Simpson.

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