DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Em entrevista ao 'Estado', reitor da Unicamp nega ter autorizado PM no câmpus

José Tadeu Jorge declarou ser contra a construção de uma base da PM e o policiamento ostensivo na universidade - como acontece em São Paulo, na USP

Ricardo Brandt, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2013 | 20h16

CAMPINAS - Uma semana após um grupo de alunos invadir o prédio da reitoria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em protesto ao anúncio de que seria aceita a presença da Polícia Militar dentro dos câmpus, o reitor José Tadeu Jorge declarou ser contra a construção de uma base da PM e o policiamento ostensivo na universidade - como acontece em São Paulo, na USP.

"Não passa pela cabeça da direção da universidade, minha e dos meus colegas de equipe, que exista uma base da PM dentro do câmpus da Unicamp. Acho que nós não precisamos de um policiamento ostensivo de rondas na universidade durante o seu funcionamento normal", afirmou Tadeu.

Em entrevista ao Estado, o reitor, que está há sete dias sem gabinete, despachando de maneira itinerante, classificou de "desnecessária" a invasão do prédio da reitoria e admitiu que a proposta de discussão sobre um plano de segurança para o câmpus foi mal interpretada. Ele afirmou que os danos ao patrimônio provocados deverão ser ressarcidos, que não haverá "anistia" em relação às apurações internas de responsabilidades e que a ocupação já afeta o pagamento de bolsas.

Confira os principais trechos da entrevista com o reitor José Tadeu Jorge: 

Por que autorizar a presença da PM dentro dos câmpus?

Acho importante deixar claro que a PM não está no câmpus da Unicamp. O que ocorreu foi que após os tristes acontecimentos do dia 21 (quando o estudante Dênis Papa Casagrande, de 21 anos, foi morto à facada em uma festa clandestina no câmpus) o governo do Estado colocou à disposição da Unicamp o uso da PM. Nós aceitamos como gesto, mas isso tem que se dar dentro de um plano de segurança que a Unicamp já está elaborando para ser submetido à discussão da comunidade. A ideia de que a PM está nos campi é um equívoco total, não está, não temos um convênio com a polícia como se diz no movimento. Não há convênio, nem negociado, nem assinado, nem nada.

Houve atropelo da reitoria ao se anunciar que aceitaria a presença da PM nos câmpus?

A PM, por decisão constitucional, não precisa pedir autorização da universidade para entrar aqui. Temos o complexo hospitalar, não faz sentido a polícia pedir para entrar para trazer um ferido.

Mas a polêmica é em relação ao policiamento ostensivo ?

Nós nunca precisamos que a PM tivesse feito policiamento ostensivo na universidade. Temos uma vigilância que cuida da segurança da Unicamp de uma maneira cotidiana, regular. Nunca houve a necessidade da PM fazer patrulhamento no câmpus, e acho que não há.

A notícia foi mal entendida?

Foi muito bem anunciada, não deveria ter ocorrido nenhum mal entendido, mas não posso descartar a hipótese de ter ocorrido algum entendimento equivocado. O que nós propomos é a discussão de um plano de segurança que determine como a universidade vai fazer as suas atividades de proteção aos que circulam aqui nos campi. Isso pressupõe como será a nossa parte da vigilância, que precisa de um plano mais consistente. E não é uma preocupação nova, porque no plano de gestão que apresentei em fevereiro essa preocupação existia.

Mas o policiamento ostensivo da PM nos câmpus faz parte desse programa de gestão?

Não, em minha opinião, nos momentos de funcionamento normal da Unicamp, nós não precisamos de patrulhamento ostensivo, não precisamos de PM. Há dados que podem demonstrar que a universidade sempre deu conta dessas garantias com a sua própria vigilância. Agora, se acontece alguma emergência na universidade e é uma competência legal, constitucional, de outras instituições, elas têm que atuar. O plano de segurança precisa ser suficientemente qualificado e detalhado para fazer essa distinção para que toda comunidade saiba quais são os procedimentos de cada situação.

Foi abusiva a ocupação da reitoria pelos alunos no dia 3, usando o anúncio da PM nos câmpus?

Tenho a absoluta certeza que foi desnecessária. Nós iniciamos a nossa gestão no fim de abril e desde então nós não negamos nenhum pedido de reunião das entidades e dos grupos organizados dentro da Unicamp. O único episódio onde isso não ocorreu foi a invasão da reitoria.

O motivo de ocupação extrapola a questão da PM nos câmpus?

Eles têm na pauta assunto diretamente ligados à universidade. Mas aparecem nas manifestações, na internet palavras de ordem e reivindicações que nada têm a ver com a ação direta da universidade. Embora, na negociação que estamos fazendo, só apareçam questões relacionadas à universidade. E a mais destacada é a questão da segurança como um todo, com foco na não participação da PM. O que eu insisto que não existe.

E nem vai existir ?

A proposta é discutir o plano de segurança como toda comunidade. Ela, entendendo que a universidade tem um plano que acolha suas preocupações, e que isso possa ser feito sem a PM, não existirá.Depende da discussão com a comunidade.

O que o senhor pensa sobre a unificação de reivindicações com a USP, como discussão sobre estatuto e eleição direta para reitor?

Uma questão que aparece é a discussão sobre os nossos estatutos. Há um reconhecimento que os estatutos da Unicamp estão defasados. Boa parte deles ainda são os originais de 1966, de quando ela foi criada. Portanto, um estatuto bastante caduco e ultrapassado em certos pontos, e vários deles refletindo uma realidade que o País não vive mais que é o da ditadura militar. Mas isso também está no meu programa de gestão, de revisão total dos estatutos da universidade. É uma proposta em sintonia com nosso programa. Queremos dar uma nova roupagem a eles, inclusive na questão disciplinar.

No caso eleitoral, é um pouco diferente do que acontece na USP. A Unicamp é mais aberta do que lá. Não é uma eleição direta, mas é um sistema bem mais aberto à participação da comunidade. Na Unicamp a consulta permite que todos votem. Com um sistema de pesos, a lista tríplice e a escolha do governador, mas é um sistema mais participativo.

Até quando vai ser levada a negociação e quando vai ser pedido apoio da PM para a reintegração já dada pela Justiça?

Na sexta-feira, 11, tem uma nova rodada de negociação e sempre temos a expectativa que o bom senso prevaleça e se possa chegar a um entendimento. Difícil estabelecer prazo para negociação. Temos que esgotar todas as oportunidades de efetivamente produzir entendimento. Houve avanças nas duas reuniões realizadas.

E quanto aos estragos no prédio?

Os reparos ao patrimônio público são importantes porque, o que move a universidade na reintegração, é preponderantemente a preservação do bem público. O fato de o DCE se propor, desde a primeira reunião, a arcar com os prejuízos é um elemento importante para fazer avançar o entendimento.

A ocupação da reitoria tem afetado o trabalho administrativo e de pesquisa na Unicamp?

Tomamos medidas para minimizar o impacto, mas há coisas, documentos, processos, contratos e informações que estão fisicamente no prédio. Isso está parado. Há questões de estudantes, de bolsas, de viagens de intercâmbio, passaportes de alunos. Há liberações de pagamento de bolsas, que no mínimo vão atrasar.

 

Estudantes continuam na reitoria. Os cerca de 150 alunos que ocupam o prédio da reitoria da Unicamp há uma semana aprovaram na tarde desta quinta-feira, 10, a permanência no local e a exigência de proibição de entrada da PM nos câmpus. Nesta sexta-feira, 11, eles farão uma terceira rodada de negociações com representantes da reitoria. O pedido de entendimento foi feito pela Justiça, em seu mandado de reintegração de posse concedido na sexta-feira, 4.

Os protestos começaram após o assassinato no estudante Dênis Papa Casagrande, de 21 anos. Ele foi esfaqueado e espancado por um grupo de punks em uma festa clandestina no câmpus no dia 21 de setembro. Após o crime, a reitoria anunciou que aceitaria a presença da PM na universidade proposta pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

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