FÁBIO MOTTA/ESTADÃO
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Em discurso de posse, reitor da UFRJ critica prioridades do MEC

Roberto Leher defendeu deslocamento de recursos do Ministério da Educação para rede pública; universidade enfrenta grave crise

Felipe Werneck, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2015 | 19h51

RIO - Em discurso de posse, o novo reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, criticou a “escolha de prioridades” do Ministério da Educação nos últimos anos, com aumento dos recursos para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e cortes orçamentários nas federais.

Leher disse que o MEC destinou R$ 1 bilhão para o Fies em 2010 e R$ 13,8 bilhões em 2014, enquanto as federais receberam R$ 9 bilhões de 2007 a 2014. “Em oito anos foram R$ 9 bi para as universidades e, em um ano, R$ 13,8 bi para os fundos de investimento que controlam essas organizações. A previsão orçamentária (do Fies) para 2015 é de R$ 16 bilhões. Essa é uma situação que exige escolha de prioridades. A nossa voz é pela prioridade ao público.”

Um dos fundadores do PSOL, o professor da Faculdade de Educação foi eleito com apoio entre os estudantes, que fazem greve contra o ajuste fiscal e a situação de penúria da instituição. Leher disse que o orçamento da UFRJ, que enfrenta uma de suas piores crises, sofreu corte drástico. Ele defendeu o deslocamento de recursos do MEC para a rede pública. “Com o orçamento do Fies teríamos criado número muito maior de vagas. Poderíamos ter mais vagas públicas do que as que o Estado está comprando.”

Segundo ele, o UFRJ teve R$ 115 milhões para investimentos em 2011, mas o valor caiu para R$ 61 milhões em 2014, e foi contingenciado. “Isso explica os esqueletos de prédios e a falta de alojamentos e restaurantes.” Maior federal do País, a UFRJ tem 4 mil professores, 9 mil funcionários e 55 mil alunos.

Para o reitor, o Brasil vive hoje a maior crise política e econômica das últimas décadas, mas o corte de gastos representa “saída enganosa”. Leher, que defende posição de independência dos reitores, terá reunião no MEC no dia 14, em que tentará repactuar a dívida atual de R$ 115 milhões.

Ele criticou o aumento de terceirizados. O orçamento da UFRJ para custeio era de R$ 240 milhões em 2010, quando havia 870 terceirizados, e passou para R$ 301 milhões em 2014, já com 5 mil terceirizados. “Vai chegar o momento, provavelmente a partir de setembro, em que as dívidas acumuladas vão criar uma situação em que a universidade não será capaz de honrar seus pagamentos.”

Muito aplaudido, Leher ganhou um boné do MST, criticou a proposta de redução da maioridade penal e disse que proporá ao Conselho Universitário que retire o título de honoris causa concedido ao ex-presidente Emílio Garrastazu Médici, que governou o Brasil de 1969 a 1974, durante a ditadura militar. “Entendemos que essa honraria não pode ser dada a pessoas que afrontaram os direitos humanos.” 

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