Felipe Rau
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Em cidades com só 1 escola, sonho de oferecer 5 ‘futuros’ vira pesadelo

Em Pouso Alto, perfil majoritário é de alunos que querem ensino técnico, mas há também Matemática e Ciências Humanas; Estado já teve experiência traumática de aumento da carga horária

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2017 | 03h00

POUSO ALTO, PASSA QUATRO E VIRGÍNIA (MG) - O relógio marca 4h e o estudante Simão Pedro Vilela, de 14 anos, já está de pé. Ele ajuda o pai, diariamente, com as atividades do sítio: tirar leite da vaca, organizar o gado e até nas plantações. Às 13h, troca as botas de couro por um par de tênis e pega o ônibus que leva à Escola Estadual Felizarda Russano, a única da rede pública que oferece o ensino médio no pequeno município de Pouso Alto, em Minas Gerais, em um trajeto que leva cerca de uma hora. Para seguir nos negócios da família, o jovem quer estudar zootecnia ou medicina veterinária.

O perfil de Vilela é majoritário na unidade: com grande parte de seus alunos vindos da zona rural, a especialização natural do colégio com a reforma do ensino médio seria a de ofertar um itinerário formativo de ensino técnico, segundo o diretor Carlos Rodrigues de Carvalho. Mas não é o único. A prima do garoto, Maria Gabriela, de 14 anos, só quer saber de matemática. “Vou estudar astronomia ou engenharia”, conta. E não para por aí: Talis Victor de Almeida, de 14 anos, quer cursar psicologia. Gabriela Alves de Carvalho, de 14, quer mais tempo fora da sala de aula, com aulas de teatro e até costura. “O adolescente fica entediado com coisas repetitivas. Queremos uma aula mais dinâmica”.

“Existe uma grande propaganda do MEC sobre essa reforma, mas ninguém sabe direito como vai acontecer. Nossas condições são muito precárias até para a situação de hoje”, diz Carvalho. “Nós não temos salas ociosas aqui, só no ensino noturno”, conta. Está em estudo pelo governo de Minas Gerais ofertar transporte para que os estudantes possam estudar em cidades vizinhas que ofereçam outros itinerários (mais informações na página ao lado).

Um dos receios do diretor é que um mesmo problema que aconteceu no passado se repita: em 2011, o governo estadual implementou um programa que, assim como a reforma de agora, ampliava a carga horária das escolas de 800 para 1 mil horas por ano. Na prática, havia uma aula a mais por dia com foco em ensino profissionalizante, de diversas áreas. A medida gerou uma desigualdade dentro da própria rede: como os municípios não tinham recurso para bancar esse transporte, estudantes da área rural começaram a faltar em todas as aulas. Só os alunos que moravam perto da escola é que conseguiam participar. A iniciativa foi descontinuada em 2015 e hoje é considerada um “fracasso”.

Espaço. A realidade de Pouso Alto é semelhante em boa parte do Estado de Minas: ao menos um terço das cidades têm só uma escola de ensino médio. Em muitos casos há também só uma unidade de ensino fundamental e uma escola privada.

Em Passa Quatro, a escola estadual Nossa Senhora Aparecida abriga mais de 1 mil estudantes em um prédio centenário que já foi um convento. Parte das salas de aula ficam onde antes havia quartos. “Aqui não existe possibilidade de oferecemos todas as opções. Usamos todas as nossas salas”, conta a professora de sociologia Anete Andrade. As cidades mais próximas dali são Itanhandu, a 15 minutos de carro e Pouso Alto, a 30 minutos, ambas só com uma escola de ensino médio.

O colégio atende hoje turmas de ensino médio na manhã, ensino fundamental à tarde e Educação de Jovens e Adultos e ensino médio no período noturno. “Se tiver de aumentar a carga horária, precisaríamos dispensar os alunos do ensino fundamental. E a outra escola que atende essa etapa aqui no município não tem  vaga”, diz a diretora Vera Maria Andrade.

O  colégio também tem dúvidas em relação à carga horária dos professores: hoje, boa parte do quadro de funcionários tem dois e até três empregos. “Tem até professor que vende produtos de beleza”, conta Anete, que também tem outro emprego: no período da tarde, é secretária de Assistência Social do município. O professor de filosofia Roger Pinheiro já chegou a dar aula em três escolas para se sustentar - hoje está em duas. Entre uma e outra, há uma viagem de mais de uma hora. “Chegamos em casa muito cansados, não dá tempo de relaxar. Chegamos e vamos dormir, as energias se esgotam. Até para se renovar nos estudos, ficamos na esfera da sobrevivência. Só nos sujeitamos a trabalhar assim s porque precisamos do dinheiro”, disse.

Esperança. Apesar dos problemas apontados, alunos que hoje estão no ensino médio no colégio já sonham com uma nova forma de estudar. “Não gosto dessa estrutura de hoje, em que só estudamos coisas que nunca vamos usar na vida”, diz Gustavo Domingos, de 17 anos, aluno do 3º ano do ensino médio e membro do grêmio estudantil do colégio. “Não vou participar dessa reforma, mas preocupo com a minha escola e gostaria de ver essa mudança acontecer”. Anderson Sales, de 17 anos, também aluno do 3º ano, diz que a sala de aula não evoluiu com o mundo. “Não pode nem usar celular, mesmo com todos os alunos tendo um e tendo acesso à internet. Não é o celular que vai dispersar, é o método que se dá aula, em salas de aula enfileiradas, sem interação”, diz.

O superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, diz que é “fundamental” que os Estados garantam acesso ao novo ensino médio para todos, sob o risco de “acirrar ainda mais as desigualdades educacionais”. “Ao ter a flexibilização, você enfrenta um velho problema do ensino médio brasileiro, que é ter uma boa política de coordenação entre estados e municípios e associado a isso uma boa política de transporte. Municípios pequenos e relativamente próximos podem fazer um cluster territorial. Entretanto, é preciso estar atento ao financiamento e à qualidade do transporte, pois já existe uma dificuldade de financiamento do transporte escolar com a atual demanda. Por isso é necessário um modelo que suporte o aumento da demanda”.

Leia a série de reportagens sobre a reforma no ensino médio:

 1: Cidades pequenas, falta de estrutura e recursos desafiam novo ensino médio

2: Ampliar apoio financeiro e técnico às escolas é fundamental, segundo especialistas

3: Em cidades com só 1 escola, sonho de oferecer 5 ‘futuros’ vira pesadelo

4: Em cidade no interior de SP, docentes cobram reforma física

5: Secretários já cogitam ampliar período do ensino noturno e enviar alunos para cidades vizinhas

6: Ministro Mendonça Filho quer 'liberdade' para Estados definirem a reforma que farão

7: Sem dinheiro, Estado de MG tem 2 mil escolas na fila por reforma física

8: ANÁLISE: Reforma exige atenção para evitar aumento das desigualdades

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