Em cidade de SP, docentes cobram reforma física

Mudança no ensino médio ainda não foi discutida com estudantes; governo Alckmin veta diretora a dar entrevista, alegando que reforma ainda depende de regulamentação pelos governos federal e estadual

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2017 | 03h00

SOROCABA – O analista de recursos humanos Claudio Pinto Junior, de 38 anos, morador de Alumínio, interior de São Paulo, acompanhou com interesse as discussões sobre a reforma do ensino médio, já sancionada pelo presidente Michel Temer. Pai de um estudante de 15 anos, aluno da Escola Estadual Honorina Rios de Carvalho Mello, única escola de ensino médio na cidade de 16,8 mil habitantes, ele acredita que as novas áreas de estudo previstas, entre elas a formação técnica e profissional, darão mais alternativas para os jovens. “Estudei nessa escola quando ela tinha ensino profissionalizante, na década de 1990, e fiz um curso na área de processamento de dados que alavancou minha carreira na empresa em que já trabalhava.”

Formado em administração de empresas, Claudio é funcionário da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), maior empregadora do município e acha que a reforma pode fortalecer o ensino na Honorina. “O ideal é que continue com a atual base de ensino, que prepara quem quer fazer vestibular e curso superior, mas ofereça essas opções a mais previstas na reforma, agregando valor ao aprendizado dessa juventude.” Ele só lamenta que o tema seja pouco ou nada discutido na própria escola. “Vou às reuniões de pais e alunos, dou meus palpites, mas parece que a reforma ainda não está no foco da escola.”

O filho dele, Lucas, confirma que ainda não houve discussão do assunto com os alunos. “É estranho, porque a escola promove muitas atividades, mas não fizemos nada relacionado à reforma.” Ele ainda não escolheu a área em que pretende continuar os estudos, mas já definiu que vai para o mercado de trabalho o mais rápido que puder. “Estou pensando em trabalhar logo e, nesse aspecto, acho que a reforma do ensino médio pode ser interessante. A escola no modelo atual é boa, mas pode melhorar.”

O estudante Bruno de Oliveira, do terceiro ano, acha que a reforma ainda demora, mas vê a mudança com preocupação. “Hoje a Honorina é forte, tem bons professores, embora o foco deles seja preparar para o curso superior. A gente não sabe como vai ficar depois da introdução de cursos profissionalizantes.” A escola estadual tem 550 alunos nas três séries e funciona em três turnos. Um dos problemas para a adoção da reforma é o quadro docente enxuto, com 32 professores.

A Secretaria Estadual de Educação não autorizou a diretora da Honorina a dar entrevista, alegando que a reforma ainda depende de regulamentação pelos governos federal e estadual. Professores ouvidos pela reportagem com o compromisso de não serem identificados disseram que o prédio, construído em 1972, precisa de reforma, mas faltam recursos. Não há espaço pronto para os novos itinerários formativos e serão necessárias adaptações. Inexiste, por exemplo, laboratório de ciências da natureza.

Eles consideram também que a reforma não atende à expectativa da maioria dos alunos, que já revelaram intenção de prestar vestibular. “Sempre trabalhamos muito forte a parte acadêmica e temos alunos que saíram daqui e entraram direto em universidades públicas, como a Unesp e a Ufscar”, disse um deles. “Os alunos mais interessados no ensino profissionalizante já cursam o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que tem uma escola muito boa aqui." Também causa preocupação, segundo ele, a possível dispensa de professores e sua substituição por quadro técnico, como engenheiros.

No Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp), a Honorina tem ficado acima da média estadual, mas abaixo da média regional. Sobre a falta de discussão da reforma com os alunos, a direção informou que a escola trabalha com total transparência e só não abriu discussões porque considera prematuro, já que ainda faltam definições de ordem prática.

Leia a série de reportagens sobre a reforma no ensino médio:

 1: Cidades pequenas, falta de estrutura e recursos desafiam novo ensino médio

2: Ampliar apoio financeiro e técnico às escolas é fundamental, segundo especialistas

3: Em cidades com só 1 escola, sonho de oferecer 5 ‘futuros’ vira pesadelo

4: Em cidade no interior de SP, docentes cobram reforma física

5: Secretários já cogitam ampliar período do ensino noturno e enviar alunos para cidades vizinhas

6: Ministro Mendonça Filho quer 'liberdade' para Estados definirem a reforma que farão

7: Sem dinheiro, Estado de MG tem 2 mil escolas na fila por reforma física

8: ANÁLISE: Reforma exige atenção para evitar aumento das desigualdades

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