Em choque, conselho da Universidade de Virgínia promete combater violência sexual no câmpus

Declaração foi feita após revista 'Rolling Stones' publicar reportagem sobre estupro em grupo ocorrido em uma organização estudantil que fica dentro da instituição

Jennifer Steinhauer e Richard Pérez-Peña, The New York Times

26 Novembro 2014 | 20h32

CHARLOTTESVILLE, Virginia - Chocados, em prantos, por vezes na defensiva, integrantes do conselho de supervisão da Universidade de Virgínia declararam que combaterão o problema da violência sexual no câmpus, depois que a revista Rolling Stones publicou um artigo falando de um estupro em grupo na residência de uma organização estudantil. Além disso, a universidade foi acusada de estar mais preocupada com sua reputação do que com a série de ataques sexuais rotineiros na vida social da instituição em que as festas são regadas a bebidas fortes.

A reunião de emergência, da qual participaram estudantes, uma representante das organizações estudantis e o chefe de polícia de Charlottesville, não produziu normas específicas de uma nova conduta para a universidade. A instituição contratou um escritório de advocacia para ajudá-la a elaborar uma série de novas diretrizes no momento em que o Congresso e o governo de Barack Obama intensificam as pressões sobre as escolas que não denunciam nem punem esse tipo de violência.

Mas o simples fato da realização da reunião do Board of Visitors (seu conselho supervisor) - enquanto a maioria dos estudantes esvaziava a escola por causa do feriado do Dia de Ação de Graças - é um acontecimento duro para a universidade, uma das mais prestigiosas e históricas da nação. De repente, a Virgínia poderá tornar-se o símbolo nacional dos problemas dos ataques sexuais nos câmpus universitários ou a líder em mudanças substantivas na polícia com a finalidade de eliminar o problema. O conselho anunciou que apresentará recomendações dentro de algumas semanas.

"Esse tipo de comportamento não será tolerado na Universidade de Virgínia", disse o reitor, George Keith Martin. "Esta situação não será mais aceitável. Estou pasmo, simplesmente pasmo." O artigo publicado na revista Rolling Stones, na semana passada, com o relato detalhado feito por estudantes violentadas por uma gangue na Universidades de Virgínia em 2012, levou Teresa A. Sullivan, a diretora da universidade, a falar com o Departamento de Polícia de Charlottesville e solicitar investigações criminais. "Há testemunhas", disse o chefe de polícia, Timothy J. Longo Sr., que também foi encarregado da investigação da morte de uma estudante de um segundo ano da instituição, Hannah Graham, desaparecida em setembro. "Espero que essas pessoas tenham a coragem moral de se apresentar e nos ajudar na investigação."

O ataque sexual nos câmpus "aponta para um problema cultural de longa data na vida estudantil", afirmou a dra. Sullivan, que disse ter ficado paralisada com a notícia. "Este é o momento, e esta é a geração de estudantes em que este problema deve ser eliminado", acrescentou. Alunos protestaram na sala da reunião e levaram o protesto fora do edifício.

A dra. Sullivan suspendeu todas as atividades das associações estudantis, masculinas e femininas, pelo restante do ano, embora membros do conselho aconselhassem na terça-feira a manter a proibição até que sejam fixadas novas medidas para coibir os ataques sexuais e outros crimes.

Álcool. Grande parte da reunião foi dedicada ao uso de álcool entre estudantes e pouco se falou do papel da administração, que vem sendo criticada por adotar punições excessivamente brandas para graves crimes sexuais. "O motivo pelo qual decidimos nos reunir é em parte o fato de que costumamos varrer os problemas sob o tapete", disse Helen E. Dragas, integrante do conselho, que começou a chorar enquanto falava. Ela apresentou uma moção para que seja adotado o princípio de "tolerância zero" para os crimes sexuais.

Especialistas em segurança dos câmpus dizem que as universidades deveriam eliminar as ocasiões para grande consumo de álcool e tomar imediatamente medidas drásticas contra abusos sexuais e trotes, expulsando estudantes e fechando algumas organizações no caso de crimes mais sérios relacionados ao abuso da substância. Mas medidas como essa provocarão inevitavelmente uma forte reação de pais e alunos, e os administradores não estão dispostos a assumir os riscos.

Na terça-feira, a vice-procuradora adjunta de Virginia, Cynthia Hudson, enviou uma carta a Martin para informá-lo de que um escritório de advocacia independente deverá assessorar o conselho nas questões de violência sexual.

Um integrante do conselho, Stephen P. Long, alertou que as organizações estudantis estavam sendo caluniadas injustamente e estavam perturbadas com a atenção dada pela imprensa à escola, com as câmeras de televisão instaladas no câmpus, não pela primeira vez. "Este conselho está agindo de maneira precipitada. Não podemos responder apenas com a emoção." Quanto às organizações estudantis, ele disse: "Não devemos sacrificar nenhuma organização".

Thomas Reid, presidente do Inter-Fraternity Council, declarou que é o ideal grego que está sendo atacado e denunciou o que foi noticiado como estupro na casa da Phi Kappa Psi, agora sob investigação. "Neste momento, a nossa universidade está sendo marginalizada, neste momento", ele disse.

História. O capítulo da organização Phi Kappa Psi data dos anos 1850, o que a torna a segunda mais antiga entre os mais de cem capítulos de toda a nação, e uma das mais antigas da universidade. Na hierarquia do câmpus, ela ocupa um lugar preeminente por causa dos seus membros afluentes e bem relacionados, assim como muitas outras escolas.

Vários dos seus capítulos também tiveram graves problemas recentemente. Poucos dias antes da publicação da reportagem na Rolling Stones, a Brown University suspendeu seu capítulo Phi Kappa Psi, depois que duas mulheres declararam ter sido drogadas numa festa da organização estudantil e uma delas disse ter sido atacada sexualmente; uma mulher submetida a teste quanto à droga que lhe teria sido ministrada para realizar o estupro apresentou resultado positivo, e os resultados dos testes da outra ainda demoram, informou a universidade.

Desde 2011, denúncias de trotes e abuso de álcool levaram ao fechamento dos capítulos do Phi Kappa Psi da Universidade da Califórnia. A organização nacional não quis responder a perguntas a respeito do caso.

Outra fonte de embaraço para a universidade foi o hino de guerra From Rugby Road to Vinegar Hill, cuja letra celebra as bebedeiras excessivas, o sexo e, até certo ponto, a violência sexual. A canção data de várias gerações - embora novos versos tenham sido acrescentados ao longo dos anos - de uma época em que a universidade era exclusivamente masculina e constituía descaradamente um baluarte dos privilégios.

O câmpus de Charlottesville começou a admitir mulheres em grande número em 1970, mas demorou muito tempo para que se fizessem objeções à letra. A marcha parou de ser tocada em 2010, mas o Glee Club só retirou a canção depois de ter sido amplamente citada no artigo da Rolling Stones, na semana passada. / Tradução de Anna Capovilla

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