Werther Santana/Estadão
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Eles desaprenderam

Consequências da pandemia na educação começaram a aparecer em estudos

Renata Cafardo*, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2021 | 23h00

Parece impossível até de imaginar, mas a pandemia fez crianças desaprenderem o pouco que já sabiam. Tanto se falou e agora começam a aparecer as consequências de um ano de pandemia sem controle, escolas fechadas e ensino remoto insuficiente. Como se esperava, infelizmente elas são trágicas.

Na última semana, três estudos mostraram os números de um país que não priorizou a educação e permitiu que desigualdades se aprofundassem. Mais de 5 milhões de crianças e adolescentes ficaram fora da escola em 2020 no País, ou seja, ou nem estavam matriculadas ou sequer fizeram uma atividade, segundo estudo do Unicef e do Cenpec.

Um número assim só era registrado 20 anos atrás no Brasil. Ao longo desse período, esforços durante os governos Fernando Henrique e Lula fizeram com que quase todas as crianças brasileiras, ao menos até o fim do fundamental, estivessem na escola. Crucial para isso foi o mecanismo criado – antigo Fundef e hoje Fundeb – que atrelou o financiamento da educação a cada aluno matriculado. 

O mais devastador é que quase a metade desses 5 milhões fora da escola são crianças pequenas, de 6 a 10 anos. Crianças que mal aprenderam a ler e a escrever. E pode ser que não aprendam nunca, se não se investir em políticas como a busca ativa, que identifica os evadidos e faz de tudo para que voltem para a escola.

E aí vem outro problema. Na maioria dos Estados e cidades do País, a escola ainda não está lá para que se volte a ela – fisicamente. Permanece fechada pela pandemia descontrolada ou por falta de dedicação dos governos em tratá-la como essencial. Nesses casos, essas crianças precisariam ser incentivadas a se engajar no ensino remoto, receber chips para celulares, ter ajuda para usar a tecnologia ou mesmo para preencher materiais impressos, já que seus pais muitas vezes são analfabetos. 

Parece muito e, de fato, é muito. Por isso que especialistas defendem tanto que a escola seja aberta. Mesmo em Estados como São Paulo, que deixaram a educação fechada por menos tempo em comparação a outros, os resultados já são dramáticos.

O estudante que está hoje no 5.º ano sabe menos de Matemática do que sabia quando foi testado no 3.º ano. Em Português, a nota agora foi levemente melhor do que há dois anos. As provas foram feitas pelo Estado no começo deste ano e comparadas as de 2019. Estima-se que vamos precisar de 11 anos para os alunos chegarem ao desempenho de antes da pandemia.

Outro estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Zurique com estudantes paulistas, mostrou que durante a pandemia eles aprenderam só 27,5% do que ocorreria em aulas presenciais. E o risco de abandono da escola aumentou em 300%. 

Mais uma vez, estudantes pretos, pardos, os que estão em escola de bairros pobres e as meninas foram os mais prejudicados. Um alento: em cidades onde a volta foi autorizada em novembro, o impacto sobre aprendizagem foi menor. 

Esses resultados são só de São Paulo. O Brasil pode ficar no escuro, sem saber o impacto da pandemia se o Ministério da Educação (MEC) não fizer este ano o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). O governo Bolsonaro não confirmou até hoje a prova e tem esvaziado o órgão que cuida dos exames, tirando técnicos e responsabilidades. 

Há estratégias para que o País tente recuperar a aprendizagem de meninos e meninas. Mas o entrave é político e ideológico. É emblemático que, na mesma semana em que esses dados eram revelados, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, dizia em um evento que “um menino de 9 anos no Brasil não sabe ler e sabe colocar camisinha”

* É REPÓRTER ESPECIAL DO ESTADO E FUNDADORA DA ASSOCIAÇÃO DE JORNALISTAS DE EDUCAÇÃO (JEDUCA)

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