Colégio Rio Branco
Colégio Rio Branco

Eleição, orçamento e debates sobre fake news viram matéria na escola

Colégios preparam aulas e discussões em classes extras sobre assuntos como cláusula de barreira e representatividade

Guilherme Guerra, especial para o Estado

30 Outubro 2018 | 05h00

SÃO PAULO - O estudante Antônio Pedro de Miranda, de 18 anos, não se sentia tão seguro quando o assunto eram as eleições 2018. Política é um assunto de que ele gosta, mas, para quem é eleitor de primeira viagem, o pleito deste ano poderia ser uma verdadeira confusão. Querendo entender o jogo eleitoral, o garoto propôs à escola, o Colégio Franciscano Pio XII, um projeto sobre o tema.

“Meu amigo Gabriel e eu discutíamos política porque, em época de eleição, íamos votar e estávamos perdidos. A gente precisava também saber como se posicionar melhor para ter um voto com consciência, racional”, conta. Tendo isso em mente, os meninos consultaram professores e a coordenadora-geral do ensino médio, Viviane Paiva Direito. “Tudo nasceu desse pedido”, comenta Viviane, que ficou responsável por dar sustentação às ideias de Antônio e Gabriel. “É uma necessidade deles e se sentem inseguros. Se escuto isso, eu não consigo não propor um projeto diferente”, diz.

Assim nasceu o Entendendo a Política: em horário extraclasse e opcional para os estudantes. A coordenadoria estima adesão de 60% dos alunos do 2.º e 3.º anos do ensino médio. Foram quatro aulas sobre o básico da política brasileira, abordando Sociologia, História e Língua Portuguesa.

A primeira aula foi sobre regras eleitorais, incluindo os votos brancos e nulos, a proporcionalidade do número de deputados por Estado e a cláusula de barreira. A seguir, foi tratado o orçamento público, com gastos em educação e tributação. Na terceira aula, análise de projetos de governo dos candidatos. Por fim, a última foi a apresentação em grupo de comentários sobre esses programas na área de educação.

Parceria

Viviane defende que é preciso discutir política, até nas escolas. A coordenadora conta que, antes de receber a proposta, ela também havia pensado em criar um projeto semelhante, com o objetivo de “sair daquele tabu de que política não se discute”. Com receio de que fosse interpretado como propaganda política, adiou o projeto. A sugestão de Antônio e Gabriel, no entanto, foi o empurrão necessário. E sucesso de crítica e público, com famílias e estudantes elogiando. Antônio diz que ele e seus colegas não sabiam como seriam as aulas. Mas diz que a turma se entusiasmou e encheu os professores com dúvidas.

Viviane considera que o projeto faz com que os alunos se sintam ouvidos e destaca que as quatro classes foram um espaço para discutir política entre eles, sem a interferência das famílias, que “aceitaram muito bem porque nós temos uma parceria grande.” “Elas entendem que a gente não faz um processo de doutrinar ninguém. Como confiam muito nesse posicionamento nosso, que educa para paz, para o bem, entendem que é muito imparcial. A gente não tem esse desejo, e sim de capacitar nossos meninos”, conta.

Antônio, por exemplo, afirma que só escolheu seus candidatos depois das aulas e antes fazia um voto mais emocional, a partir do que a família dizia. O mesmo ocorreu com Giulia Klein Scurato, estudante do 9.º ano do ensino fundamental do Colégio Rio Branco, de 15 anos. Em setembro e outubro, a escola realizou o Construindo Opiniões, incentivando atividades relacionadas à política. Para ela, a principal conquista é ter ferramentas para formar o próprio pensamento. “Antes do projeto, eu tinha uma certa noção, mas pelo que meu pai fala. O projeto ajuda a criar opiniões e a não ficar repetindo o que a gente ouve, o que é muito comum na nossa idade. Você não tem oportunidade de criar opinião. A leitura e as atividades ajudaram muito nesse quesito”, conta.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Eu tinha uma certa noção, mas pelo que meu pai fala. O projeto ajuda a criar opiniões e a não ficar repetindo o que a gente ouve, o que é muito comum na nossa idade.
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Giulia Klein Scurato, estudante do Rio Branco sobre o Construindo Opiniões

Debate

O Construindo Opiniões começou a ser planejado neste ano a partir de um questionário aplicado aos alunos do 9.º ano do fundamental ao 3.º ano do médio. Com as respostas, a coordenação pensou em cinco temas para que cada grupo de estudantes fizesse uma roda de discussão. Os assuntos preferidos foram representatividade de minorias no Legislativo e o fenômeno das fake news. Os principais pontos levantados pela turma eram apresentados em auditório aos outros estudantes.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Meu amigo Gabriel e eu discutíamos política porque íamos votar e estávamos perdidos. A gente precisava saber como se posicionar melhor para ter um voto racional.
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Antônio Pedro de Miranda, aluno do Pio XII sobre projeto abordando política

“A análise de tudo começou a partir dos alunos”, diz a coordenadora de História do Colégio Rio Branco, Lívia Botin. Assim como em outros colégios, o protagonismo do adolescente estava na essência do projeto. Por trás, havia a participação de outros professores, que receberam materiais para também se preparar para o assunto e mediar as discussões. 

No horizonte, ela vê o debate sobre política ocorrendo todo ano na escola, e não a cada quatro anos. E, já que teve sucesso, ela quer manter o formato do programa em outros temas polêmicos nas Ciências da Natureza, por exemplo, como organismos geneticamente modificados. “Acho que a gente foi bem ousado. Não sei se outras escolas topariam discutir esse tema agora. É algo que muita gente daria um passo para trás”, comenta.

Brincadeira de criança consciente

Há quem acredite que é possível falar de política com crianças, até com aquelas que estudam no maternal. Talvez seja complicado falar das diferenças entre liberalismo e socialismo para os pequenos, mas é possível abordar a importância do voto para os pequenos, de 3 a 8 anos. É o que acredita a coordenadora pedagógica dos ensinos infantil e fundamental 1 do Colégio Vital Brazil, Káthia Kobal, que simulou urnas eletrônicas com candidatos para que os pequenos entendessem o processo eleitoral.

Os candidatos, é claro, não são os verdadeiros. Foram retirados do livro A Eleição dos Bichos (Companhia das Letrinhas), em que um leão, uma cobra, uma macaca e uma preguiça, com perfis diferentes, disputam os votos do leitor. Saindo da teoria, Káthia e a equipe de Tecnologia da Informação do colégio criaram um sistema de votação com tela touchscreen, visualmente igual às urnas eletrônicas do TSE (e com o mesmo som característico) e com resultado em tempo real. 

Durante uma manhã e uma tarde de sexta-feira, às vésperas do primeiro turno da eleição, professores fingiram ser mesários para que 780 crianças de 3 a 11 anos, com “títulos” de eleitor, votassem nos seus favoritos. À noite, o resultado mostrava que foi eleita a Preguiça, cujo slogan era “Juntos e sem pressa”. “Conseguimos trazer um projeto gostoso para um momento conturbado”, resume Káthia, orgulhosa.

Para ela, esse trabalho deve começar já na infância e com os pais. Só depois é que viria a participação da escola. “Esse projeto valida que não tem como ser adolescente e só aí falar de cidadania”, afirma a coordenadora. “Isso começa desde as crianças pequenas.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.