Educando para a revolta

Pessoas de um nível de educação mais elevado costumam participar de todas as formas de atividades políticas

Filipe Campante* e Davin Chor** / International Herald Tribune, O Estado de S. Paulo

24 Fevereiro 2011 | 10h58

Muitos observadores da tempestade que se abate sobre o mundo árabe concordariam num ponto: tudo isso foi  totalmente inesperado.

 

Embora sempre tenham existido correntes de insatisfação contra os vários ditadores, poucos poderiam prever a iminência de uma rebelião ou a escala  destas manifestações. Entretanto, vários fatores visíveis relacionados à educação, demografia e falta de oportunidades econômicas, indicavam havia  algum tempo um grau crescente de instabilidade política na região.

 

Embora as notícias sobre o levante no Egito falem em grande parte de uma “revolução jovem”, parecem reduzir a importância do  efeito crucial que o nível de educação cada vez mais elevado entre os jovens egípcios exerceu na explosão das críticas contra os regimes encastelados na  região.

 

Não há dúvida de que os participantes dos enormes protestos pertenciam a uma imensa faixa da sociedade egípcia. Mas não se pode deixar de notar que no  movimento de oposição se destacaram também engenheiros, médicos, estudantes universitários e até mesmo executivos de empresas.

 

Este fato coincide com um dos acontecimentos mais amplamente documentados na ciência política – as pessoas de um nível de educação mais elevado  costumam participar de todas as formas de atividades políticas, desde o ato mais básico que é o voto até os protestos públicos.

 

Os motivos precisos desse comportamento nem sempre são bem compreendidos. Talvez os indivíduos dotados de uma melhor formação tenham uma atitude  mais crítica em relação aos acontecimentos políticos, e estejam menos dispostos a aceitar os erros de um autocrata irresponsável.

 

Nossa pesquisa destacou que esta conexão entre educação e participação política muitas vezes é influenciada pela existência de oportunidades no mercado de  trabalho para pessoas de melhor formação.

 

Em outras palavras, a capacidade adquirida por meio da educação leva a uma tendência cada vez maior ao envolvimento político, bem como à  eficiência neste envolvimento (como demonstraram as pessoas mais versadas em computação que souberam usar o Facebook e o Twitter para sua própria  causa). Quando estas pessoas são bem recompensadas e remuneradas em suas ocupações, estão naturalmente menos inclinadas a dedicar tempo e energias a  objetivos políticos. Os países em que as oportunidades econômicas para os mais preparados são abundantes tendem a registrar um engajamento político menor por  parte das pessoas mais preparadas.

 

O mundo árabe não é um modelo de dinamismo econômico. As economias da região não estão voltadas para áreas do trabalho que efetivamente explorem o capital  humano adquirido por meio da educação.

 

Menos reconhecido é o fato de que vários destes países são os que mais investiram em educação. Dados recentes relativos a 104 países mostram que, entre 1980  e 1999, o Egito foi o quinto país de maior crescimento no mundo em termos de escolaridade média de seus habitantes, dobrando-a de apenas 2,3  anos para 5,5 anos. A Tunísia não ficou muito atrás, com um aumento de 2,5 para 5 anos de escolaridade média.

 

Portanto, neste ambiente são inúmeros os jovens árabes que adquirem uma educação muito mais completa do que seus pais e avós. Na falta de promissoras  perspectivas de emprego, é mais provável que eles invistam a capacidade que adquiriram em atividades políticas, não apenas mantendo blogs de conteúdo  político, mas organizando protestos na Praça Tahrir. Como eles não encontram uma saída democrática, podem chegar a desestabilizar regimes que, até muito  recentemente, pareciam exercer um total controle nos seus países.

 

Investir em educação é evidentemente excelente. Entretanto, ironicamente, investindo em educação sem oferecer suficientes oportunidades econômicas, os  autocratas árabes contribuíram em grande parte para a situação que agora os aflige.

 

Com certeza, devemos esperar que a transição democrática em curso proporcione, no fim, o crescimento e os empregos indispensáveis para que  estes países realizem seu pleno potencial econômico. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

* CAMPANTE É PROFESSOR-ASSISTENTE DE POLÍTICAS PÚBLICAS NA HARVARD KENNDY SCHOOL

**CHOR É PROFESSOR-ASSISTENTE NA SINGAPORE MANAGEMENT UNIVERSITY

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