Helcio Nagamine/Estadao
Helcio Nagamine/Estadao

Professora de escola de elite cria curso para reduzir desigualdade em favela de SP

Projeto atende moradores da favela Real Parque, em São Paulo, e tem o objetivo de ajudá-los a se preparem para o Encceja

Gabriel Belic, Especial para o Estadão

06 de agosto de 2022 | 05h00

Graduada em direito e professora universitária, Monica Pinhanez desenvolveu – junto com as amigas Wania Pinto, Samara Werner e Marina Gelman – a Zeka Educação Digital, um curso preparatório para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). O trabalho rendeu a ela o prêmio BRICS Women Innovation Contest 2022, organizado pelo Conselho da China para Promoção do Comércio Internacional (CCPIT) e Câmara de Comércio Internacional da China (CCOIC), conhecido como Prêmio Mulan.

Em meados de 2018, Monica matriculou seu filho na primeira turma de ensino médio do colégio Avenues, escola de elite em São Paulo. Localizada nas imediações da Marginal do Rio Pinheiros, a escola é um retrato de alta desigualdade social: de um lado, prédios exuberantes e empresariais, de outro, a favela Real Parque.

Na primeira reunião de pais, Monica descobriu um interesse em comum que a conectava com outras mães: a paixão pela educação. Foi assim que ela e as amigas Samara, Marina e Wania começaram a se reunir para conversar sobre o assunto. “Uma das coisas que a gente queria trabalhar ou ajudar a mitigar é a questão de que a Avenues é uma escola super rica no meio de um mar de favelas”, explica Monica.

A partir disso, elas começaram a estudar uma maneira de amenizar a desigualdade social da região por meio da educação.

Durante os estudos geográficos do bairro, descobriram que não havia escola de ensino médio de fácil acesso aos jovens da favela. A escola mais próxima ficava do outro lado do Rio Pinheiros e, por essa razão, muitos alunos acabavam desistindo. Esses jovens, inclusive, faziam parte da estatística de 10,1 milhões de brasileiros de 14 a 29 anos que evadiram o ensino médio, de acordo com o PNAD Educação de 2019. Esse foi o ponto de partida.

Apesar do nome, a Zeka Educação Digital não nasceu Zeka, tampouco uma edtech – tecnologia educacional. Era, na verdade, um espaço dentro da favela Real Parque para dar aulas preparatórias para o Encceja. As aulas aconteciam duas vezes por semana, na terça e quinta. Em outubro de 2019, elas conseguiram reunir 35 alunos para compor o início do curso. “Não ter o ensino médio precariza e vulnerabiliza muito a vida das pessoas", conta.

Poucos meses depois, veio a pandemia de covid-19, que tornou o curso presencial inviável. Monica, professora universitária da Insper, já estava familiarizada com ferramentas digitais de aula, como Microsoft Teams e Zoom, mas sabia que essa não era a realidade da maioria dos inscritos no curso.

A solução que atendia os alunos naquele momento era aula por WhatsApp. Uma hora presencial virou três horas online com vídeo, áudios e fotos. Hoje, o curso funciona por meio do aplicativo. Francisca do Nascimento, 60 anos, queria fazer podologia e precisava do Encceja. “As professoras eram maravilhosas. Passei. Sou muito grata às professoras”, afirma.

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