Educação, ponto fraco na política de comércio

Rolf Kuntz * Os indicadores sociais recém-divulgados pelo IBGE fazem soar de novo o sinal de alerta: a educação brasileira continua muito abaixo dos padrões necessários a uma economia competitiva e capaz de ocupar espaços cada vez maiores no mercado mundial. Estará enganado quem olhar somente o progresso ocorrido no País. Não basta avançar, é preciso eliminar desvantagens acumuladas durante décadas.No ano passado, o Brasil ficou em 25.º lugar entre os exportadores, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Sua receita comercial foi 21% maior que a do ano anterior e, apesar disso, o País subiu apenas um degrau na classificação. Os brasileiros ? e isso inclui vários formuladores de política oficial ? parecem esquecer com freqüência que os concorrentes não ficam parados.Os indicadores do IBGE trouxeram algumas boas notícias. A parcela de analfabetos caiu de 17,2% para 11,8% da população com 15 anos ou mais de idade, entre 1992 e 2002. Na faixa de 15 a 24 anos a alfabetização já é quase total.Mas a qualidade do ensino continua insatisfatória, a maior parte dos estudantes permanece defasada e o tempo de estudo é muito menor que nas economias com maior presença no comércio internacional.A escolaridade média da população com 10 anos ou mais chegou a 6,9 anos em 2002. Houve um ganho de 1,3 ano em relação ao dado de 1992. No caso da população ocupada, o tempo de estudo acumulado em 2002 alcançou 6,9 anos. Para o grupo de 25 anos o tempo médio de escola registrado na pesquisa foi 6,1 anos.Na Coréia, em 1995, pessoas com 25 anos tinham 12 de estudo. Em Taiwan, 12,3. Nos Estados Unidos, 13,4. Na mesma época, a escolaridade média das pessoas com 65 anos, nesses mesmos países, era de 5,3, 5,8 e 12,3 anos, respectivamente. Mesmo na América Latina, o tempo médio de estudo, em boa parte dos países, é mais longo que no Brasil.O descompasso entre a idade e a série cursada é parte importante desse quadro. Pessoas com 14 anos deveriam ter em média 8 anos de estudos completos. Aos 17, deveriam ter concluído ou estar concluindo 11 anos. Mas, segundo a pesquisa do IBGE, somente na faixa de 19 a 24 anos a média de estudos chegou a 8 anos. A partir dos 25, a média caiu para 6,1.As médias são afetadas, naturalmente, pelas disparidades econômicas entre famílias e entre regiões. Nos 20% mais pobres das famílias, a escolaridade média das pessoas de 25 anos ou mais, em 2002, era de 3,4 anos. Nos 20% mais ricos, o tempo de estudos era em média de 10,3 anos.A pesada herança da desigualdade afeta as estatísticas mais amplas. Os progressos dos últimos dez anos são mais visíveis quando os números se referem apenas às parcelas mais jovens da população, beneficiadas pela extensão do ensino fundamental.Mas não basta o esforço para universalizar o ensino básico. Parte do esforço de alfabetização é desperdiçado quando as pessoas são forçadas a interromper os estudos antes do quarto ano, em geral para trabalhar em atividades de baixa qualificação.Pessoas familiarizadas com os rudimentos da escrita e da leitura podem ser analfabetas funcionais, incapazes de entender a maior parte do que lêem, mesmo quando se trata de textos bastante simples. Em 2002, havia no Brasil, segundo o IBGE, 32,1 milhões de analfabetos funcionais. Esse número correspondia a 26% da população com 15 anos ou mais.O documento do IBGE não avança na discussão da qualidade do ensino. Mas não pode haver dúvida a respeito do assunto. As deficiências ficam bem visíveis tanto na vida profissional quanto nas provas de acesso às faculdades mais sérias.As falhas do ensino têm ficado evidentes, também, nas competições internacionais que envolvem conhecimentos básicos de matemática, ciências naturais e linguagem. Não se pode falar seriamente em política de emprego, num mundo competitivo, sem levar em conta esses resultados.* Jornalista

Agencia Estado,

17 de abril de 2004 | 14h09

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