Divulgação
Divulgação

'Educação infantil exige acolhimento, e não extravagância'

Em entrevista, o médico Saul Cypel diz que preocupação com o desenvolvimento da criança deve começar antes da gestação

Luciana Alvarez, O Estado de S. Paulo

14 Março 2011 | 10h52

Médico especialista em desenvolvimento infantil e consultor da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Saul Cypel diz que conhecimento médico sobre o assunto de 60 anos atrás ainda não chegou com clareza a muitos pais e mães do Brasil.

 

Quando deve começar a preocupação dos pais com o desenvolvimento do filho?

 

No momento em que eles começam a planejar ter um bebê, pois as vivências da gestação já podem influenciar a criança. Existe um psiquismo pré-natal. Mas é claro que a preocupação é maior após o nascimento.

 

Por que esse período inicial é tão importante?

 

A sobrevivência do bebê depende dos cuidados que vai receber. Mas o cuidado não deve ser só físico. O bebê, quando tem fome, tem também uma sensação de risco. Ele entra em um certo nível de ansiedade e comunica que precisa de atenção. Por isso é importante que a mãe ofereça o peito e o acolha. Não é uma questão meramente nutricional.

 

Qual é a coisa mais importante para os pais saberem ao educar os filhos?

 

Educar um filho não é um processo simples. O primeiro passo é os pais saberem que o bebê já nas primeiras semanas tem um psiquismo em desenvolvimento. Não basta só dar cuidados de alimentação e higiene. Ele é um ser que já vivencia insegurança, ansiedade. Por isso a necessidade de acolhimento.

 

E o que o sr. acha das teorias sobre música clássica, DVDs para estimular a inteligência?

 

É equivocado começar a estimular cedo com coisas que não fazem muito sentido. O bebê precisa de cuidado, acolhimento, mas não de coisas extravagantes. É mais o feijão com arroz.

 

Isso não parece tão difícil...

 

Mas a grande maioria das pessoas não está instrumentada. É importante que os pais se preparem, seja durante a gravidez ou mesmo depois, com ajuda de profissionais, porque nem sempre isso vem naturalmente. Os pais têm de fazer perguntas para profissionais preparados em desenvolvimento infantil, que pode ser o próprio pediatra. Mas não precisa de nada sofisticado.

 

E como é o trabalho da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal?

 

Procuramos trabalhar desde a gravidez até a idade de 3 anos, porque é a base do desenvolvimento. Trabalhamos para que a informação chegue de forma simples e esclarecedora aos pais, para que eles sabiam da importância de brincar, colocar regras. O ginecologista/obstetra já pode começar a informar os pais. Depois passamos pela humanização do parto, a defesa do parto normal, que deixa a mãe muito mais pronta para acolher o bebê em seguida. E também para que os profissionais da área da saúde tratem a mãe de forma afetuosa, durante todas as consultas. Fazemos grupos com famílias, orientamos que o pai também é umafigura muito importante. Temos programas em creches, mas vale lembrar que só 15% das crianças no Brasil estão na creche, O que falamos não são coisas novas, são já conhecidas há seis ou sete décadas. Fizemos, por exemplo, parceira com a Sociedade Brasileira de Pediatria para inserir programas de formação continuada, palestras, distribuímos livros. O discurso de desenvolvimento infantil está muito em voga, mas a lição de casa tem de ser feita.

 

QUEM É

 

Saul Cypel

Médico especialista em desenvolvimento infantil

 

Neuropediatra, professor livre-docente de Neurologia Infantil, consultor do Programa de Desenvolvimento Infantil da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e diretor do Instituto de Neurodesenvolvimento Integrado (INDI).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.