Educação e produtividade

Para especialistas, currículo é defasado se comparado com o de outros países

O Estado de S.Paulo

25 Abril 2014 | 02h12

SÃO PAULO - "Se queremos melhorar a produtividade no País, temos de melhorar o ensino", afirmou o coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes Filho. O objetivo da segunda rodada de debates, que começou às 11h, era discutir caminhos para melhorar a qualidade da educação.

Os palestrantes identificaram algumas questões específicas, como o papel da família na garantia do aprendizado, o estabelecimento de parâmetros de formação, a contratação, a valorização de bons professores e a necessidade de um currículo nacional unificado.

As iniciativas de órgãos públicos e privados e os casos de sucesso, no país e no exterior, serviram de costura para a discussão, que teve como participantes o economista Gustavo Ioschpe, da empresa de análise de dados Big Data, o presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, Simon Schwartzman, e a pedagoga Paula Louzano, da Faculdade de Educação da USP.

Um dos pontos abordados foi o de como aproveitar melhor os recursos para uma gestão eficaz. "Não existe relação clara, direta, entre gastos e aprendizado", afirmou Menezes Filho. De acordo com o coordenador, os jovens atualmente possuem mais anos de estudo e, no entanto, o desempenho deles é pior, criando profissionais menos preparados para o mercado de trabalho. Segundo dados apresentados por ele, 40% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível 1, o pior, no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) 2009.

A noção de que é possível melhorar esses indicadores sem fazer investimentos foi recebida com ceticismo pela pedagoga da USP. "Apenas 15% das unidades de ensino da rede pública podem ser chamadas de escolas em termos de infraestrutura", apontou. De acordo com Paula Louzano, quase metade das escolas não possuem sala dos professores, o que interfere, por exemplo, na coordenação de trabalhos em grupo. Em termos de financiamento, Paula crê que o País está atrasado e precisa investir mais: o Brasil gasta em torno de US$ 2 mil por aluno enquanto o padrão da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de US$ 8 mil.

Para o economista Gustavo Ioschpe, a maior interferência no processo educacional é o interesse político colocado acima dos resultados. "Educação de qualidade não dá voto, tira", afirmou. De acordo com Ioschpe, há interesses de diversos grupos organizados em manter a qualidade do ensino baixa, pois isso evita cobranças. A dificuldade não é técnica, mas política. Existem estudos empíricos que apontam quais ações funcionam. "A pergunta que deveria ser feita é por que essas mudanças não estão sendo implementadas", disse. O economista aponta uma falta de cobrança e até mesmo de interesse dos pais como cerne do problema. "Precisamos trazer os pais da rede pública para a causa da educação e mostrar que a escola é ruim; e o impacto que isso vai ter na vida futura dos filhos deles."

Outra questão tratou da ausência de um currículo melhor estruturado, com parâmetros menos amplos. Segundo Paula, ele não é suficientemente desafiador. De acordo com a pedagoga, o currículo do aluno brasileiro possui uma defasagem enorme quando comparado com o de outros países. Uma criança no Ensino Fundamental no exterior aprende coisas que são requeridas apenas no Ensino Médio no Brasil. Além de tentar atingir a expectativa básica, seria necessário pensar em algo mais desafiador.

Para Schwartzman, o currículo é muito vago na formação inicial e demasiadamente rígido no ensino médio. O pesquisador apontou que os alunos demonstram progresso significativamente menor depois dos 15 anos. Schwartzman citou exemplos do exterior em que o aluno opta por uma área de especialização. Para ele, fazer escolhas e ser avaliado de acordo com elas pode ser uma alternativa para melhorar índices ruins de desempenho.

Os debatedores discutiram a possibilidade de oferecer alternativas ao governo federal não só em termos de grade curricular, mas também de estrutura. A ideia seria investir em instituições que recebam financiamento público, mas sejam geridas pelo setor privado, como as charter schools dos Estados Unidos.

Paula Louzano enfatizou a necessidade de investir na formação e na valorização da carreira de educadores. "Estamos indo para o caminho inverso e nos despreocupando da formação", criticou. De acordo com a educadora, 36% dos professores são formados por cursos de ensino à distância, pouco regulados. Além disso, frisou a diferença nas horas necessárias para a formação do professor: na Finlândia, exemplo de excelência em educação, um curso tem 9 mil horas; no Brasil, apenas 2,8 mil horas. Além disso, o recém-formado recebe pouco apoio e logo desiste da profissão. Não adianta contratar um bom profissional, é necessário que ele permaneça na rede, afirmaram os especialistas. Para tanto, há a urgência do desenvolvimento de um sistema de incentivos.

Os debatedores também discutiram o papel dos diretores. Um caso lembrado por Ioschpe foi o de duas escolas de Goiânia que possuíam indicadores de desempenho opostos. A escola de pior rendimento contava com uma infraestrutura mais sofisticada, mas a outra era administrada por uma diretora muito motivada. O economista tentou reunir as duas diretoras tempos depois - por ironia, a responsável pela escola ruim não apareceu.

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