Educação e economia

Recentemente assistimos à substituição do ministro da Educação que havia tomado posse no início do atual governo. Ele não teve tempo suficiente para esquentar a cadeira, mas teve para criar uma confusão nas regras de avaliação de universidades, criadas no governo anterior. Pelo que os jornais informaram, ele foi demitido por telefone, enquanto estava fora do País.Educação nunca foi um assunto que desperte muito interesse no Brasil. Se comparado com economia e futebol, então, não dá nem para o começo. Basta o leitor observar o espaço reservado nos jornais à educação com aquele reservado aos outros dois temas.Será que uma coisa tem a ver diretamente com a outra? Afinal qual a contribuição que um bom sistema educacional traz para o desenvolvimento econômico e para a melhoria do padrão de vida da população?Para responder esta pergunta, é interessante mencionar alguns pontos de um discurso que o presidente do Federal Reserve, o banco central americano, fez dia 11 de março, perante o Comitê de Educação e Força de Trabalho da Câmara dos Deputados dos EUA.Entre outros assuntos, Alan Greenspan afirmou que um elemento decisivo para a criação de oportunidades que possibilitarão aos americanos a efetiva participação na economia mundial é o oferecimento de rigorosa educação e treinamento contínuo a todos os membros da sociedade.Informou ainda que pesquisas sobre geração de riqueza, realizadas tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, mostram a importância do conhecimento e das habilidades da população, interagindo sob o domínio da lei, na definição da renda dos trabalhadores.Para enfrentar os constantes desafios tecnológicos, afirma Greenspan, os americanos têm de receber cada vez mais uma educação técnica. Os trabalhadores têm de desenvolver habilidades para ler manuais, interpretar plantas e entender fórmulas.Uma boa educação, afirmou ele aos congressistas, é que garantirá aos americanos a manutenção de uma força de trabalho capaz de enfrentar os imensos desafios tecnológicos da atualidade. Greenspan deixou muito claro aos congressistas que os trabalhadores com melhor educação têm tido um aumento significativo de renda nos Estados Unidos.Este é um tema importante, especialmente neste momento, quando se fala sobre a urgente necessidade da geração de empregos no Brasil.Para se ter uma idéia da gravidade da situação, o nível de desemprego no Brasil hoje é igual ao que os americanos tiveram durante a crise de 1929, uma das maiores, senão a maior, de toda história mundial.Infelizmente, os dados relativos à educação no Brasil não são muito encorajadores. Os últimos números fornecidos pelo próprio governo e por institutos de pesquisa mostram uma situação catastrófica.A informação mais impressionante já foi mencionada em outros artigos neste mesmo espaço, mas não custa repeti-la: 67% dos brasileiros foram considerados analfabetos funcionais em recente pesquisa realizada pelo Ibope. Outros 8% são analfabetos completos. Apenas 25% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são capazes de ler, entender o que estão lendo e escrever corretamente. Isso é assustador!De acordo com especialistas, este problema se deve ao imenso déficit educacional do País. Aproximadamente 60% da população não chegou a receber oito anos de estudo. Estima-se que o baixo nível educacional dos brasileiros cause perdas de produtividade de US$ 6 bilhões por ano ao País.Uma pesquisa apresentada na edição 2002 da World Education Indicators, da ONU, mostrou que o Brasil possui a menor proporção de professores para alunos entre todos os 45 países considerados no estudo.Nos países desenvolvidos, há, em média, um professor para cada 14,3 alunos. Nos países em desenvolvimento, esta proporção é de 21,7. No Brasil, é 37,2. Na América Latina o País perde para o Peru (18,5), Argentina (11,2), Chile (30,2) e México (31,7). O Brasil é lanterninha.Quando se considera os dados de ensino universitário, a situação é catastrófica: segundo o IBGE, somente 3,43% dos brasileiros possuem curso superior. Entre a população com idade superior a 25 anos, apenas 6,8% são formados. Apenas 0,4% desta população possui mestrado ou doutorado.O País não tem condições de enfrentar a competição mundial. Como é possível competir com Canadá, Estados Unidos e Europa nessas condições? Só mesmo exportando commodities ou fazendo desvalorizações cambiais gigantescas, providências típicas de países atrasados.Já defendi o estabelecimento de metas sociais em alguns artigos. Deveríamos ter metas educacionais. Não temos de inflação? Por que não de educação?Pelo menos dessa forma parte dos brasileiros saberia quanta mentira tem sido contada quando se fala que o País caminha para o Primeiro Mundo. É tudo conversa fiada!* Mestre em Finanças pela FGV-SP, professor do Ibmec, foi participante do Programa Minerva em Washington

Agencia Estado,

19 de março de 2004 | 15h19

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