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Educação e castigo

Por que castigar se podemos ajudar a criança a sair da situação que a faz sofrer?

Rosely Sayão, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 05h00

“Não quero que meu filho seja um menino sem educação. Ele tem quase 5 anos e quero saber que cas tigos posso usar nessa idade.” Por que associamos boa educação à aplicação de castigos? Por que fazemos tantas ameaças de punições a nossos filhos? Por que usamos castigos físicos na tentativa de corrigir alguns comportamentos? 

Temos muitas hipóteses e justificativas para explicar o uso tão disseminado dos castigos em educação, mas talvez seja a tradição que mais contribui para que pensemos assim. Não há uma única vez que, ao conversar com grupos de pais, eu não ouça argumentos a respeito do uso da palmada, que alguns chamam de pedagógica! Céus, o que vem a ser isso?

A frase mais comum costuma, justamente, invocar a tradição: “Levei algumas palmadas quando criança e não sou traumatizado por isso. Por que não usar com meu filho?”. Como não há cartilha sobre que é certo ou errado ao educar, o que podemos fazer é refletir. E, para isso, devemos levar em consideração alguns pontos importantes: a idade e a etapa de desenvolvimento da criança, suas características e, principalmente, o respeito à infância.

E por falar em infância, vamos, hoje, pensar nos castigos aplicados a crianças de até 5 anos, mais ou menos. Não sei se você se lembra de que houve um programa de televisão em que uma babá ia socorrer pais que não conseguiam dar conta de seus filhos. Esse programa ajudou a difundir a ideia de que o castigo seria uma boa saída para lidar melhor com filhos pequenos. Foi assim que muitos pais passaram a colocar o filho descontrolado em um canto da casa, sozinho, por exemplo. Funcionava no programa? Parecia que sim e por isso muitos pais passaram a copiar a estratégia, nem sempre com sucesso.

Acontece que a questão das crianças de até 5 anos é que, quando perdem o controle sobre si, não têm recursos para retomá-lo por si mesmas. A criança sabe muito bem, desde cedo, o que quer. Mas se o que ela quer faz bem a ela ou não, isso é responsabilidade dos pais. Faz bem a uma criança pequena ficar perdida em crises de birra? Não! Mas ela, sozinha, não consegue sair da situação e, por isso, precisa de ajuda. O que podemos fazer? Tirá-la da cena e do foco da birra, por exemplo.

Nunca me esqueço do caso contado por uma professora de educação infantil. Uma colega, que precisava tirar alunos do parque e levá-los ao refeitório, pediu ajuda porque uma das alunas, de 4 anos, jogou-se no chão e passou a gritar que não queria sair de lá. Depois de muitas tentativas, a professora decidiu pedir ajuda da colega. Essa, experiente, olhando para a garota, perguntou: “Viu minha borboleta azul passar por aqui?”. Imediatamente a aluna esqueceu a gritaria e respondeu que não. Em minutos, saíram as duas procurando a tal borboleta, e logo a aluna tomava seu lanche calmamente.

Parece mágica, mas não é. É respeito à infância, conhecimento de como crianças funcionam. Por que castigar se podemos, amorosamente, ajudar a criança a sair da situação que a faz sofrer? O cantinho do pensamento é isso: tirar a criança da situação. Mas precisamos deixá-la sozinha? Não.

Mas a criança aprende que não deve se comportar inadequadamente quando os pais usam essas estratégias? Precisamos entender que o aprendizado na primeira infância é diferente: é lúdico por excelência. Quando retirada de uma situação constantemente, a criança, no seu ritmo, desistirá de repetir por um motivo simples: já percebeu que não terá sucesso. A criança subiu a escada sem pedir ajuda e é perigoso: devemos castigar? Ela morde ou bate no rosto da mãe: precisamos castigar? Bem, como na primeira infância a criança depende totalmente dos pais ou adultos que os substituem, deixo uma pergunta para refletir: nesses casos, quem falhou? A criança? Ou terá sido o adulto?

*É PSICÓLOGA

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