Educação do futuro será personalizada e híbrida

Educação do futuro será personalizada e híbrida

Pesquisa da Fundação Catar mostra que até 2030 as escolas vão focar nas demandas dos alunos, e professores se tornarão tutores

Bárbara Ferreira Santos , Victor Vieira, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2014 | 02h02

Computadores e tablets estarão mais presentes na vida de professores e estudantes do que lousas e apostilas. Até 2030, a maior parte do ensino será personalizada, ou seja, vai acompanhar o ritmo e os interesses de cada aluno. Aulas online serão mais importantes do que as presenciais. Essas são apostas para a educação do futuro de 645 especialistas ouvidos por pesquisa do World Innovation Summit for Education (Wise), da Fundação Catar.

O levantamento, que será lançado nesta semana e foi obtido com exclusividade pelo Estado, reuniu opiniões de experts de todos os continentes. No estudo, 93% dos pesquisadores apontam que a inovação - social, tecnológica e pedagógica - será a chave para o avanço educacional nos próximos anos, com mudanças estruturais significativas no papel do governo, da escola, dos professores e dos alunos. 

Na educação do futuro, as escolas terão formatos híbridos, usando plataformas online e espaços físicos onde ocorram as interações sociais entre estudantes. O professor, nesse modelo, deixará de ser peça central na aprendizagem para se tornar o mediador do processo de aquisição de conhecimento, segundo 73% dos especialistas.

A tecnologia será fundamental, mas apenas distribuir os aparelhos não basta, destaca o trabalho. Para serem incorporados, os dispositivos deverão ter propósitos claros para melhorar o ensino. 

No Brasil, experiências inovadoras de ensino, que enfocam a educação personalizada e o professor como tutor, já estão sendo aplicadas, tanto nas redes particulares quanto públicas. O problema, contudo, é reproduzir esses modelos - ainda pontuais - em larga escala, de acordo com especialistas ouvidos pelo Estado. Entre os desafios, estão a fragmentação das políticas educacionais, a falta de estrutura e a dificuldade para que os professores, na maioria formados na perspectiva mais tradicional, se adaptem às constantes transformações.

Entre as previsões feitas pelo Wise, está a predominância, no futuro, das competências socioemocionais, que envolvem questões pessoais e interpessoais, como responsabilidade e estabilidade emocional, por exemplo. Segundo os especialistas, a intimidade com cálculos ou memorização de datas históricas dizem pouco sobre o aluno. 

A maioria também não acredita que todos devam aprender os mesmos conteúdos ao mesmo tempo. 83% deles afirmam que o currículo terá parâmetros básicos, mas será moldado de acordo com o perfil e o ritmo de progressão de cada estudante.

Além dos livros. Um dos exemplos brasileiros de foco nas competências socioemocionais é o Colégio Estadual Chico Anysio, no Rio de Janeiro. A unidade, inaugurada em 2013, faz parte de um projeto da Secretaria de Educação fluminense e o Instituto Ayrton Senna. A escola tem jornada integral no ensino médio, mas sem conteúdo profissionalizante. Os eixos da formação envolvem trabalho, convívio, aprendizagem e autonomia. 

"Temos projetos de pesquisa, em que somos protagonistas", conta Anna Beatriz Figueiredo, de 17 anos, aluna do 2º ano do ensino médio do Chico Anysio. A jovem, que antes estudava em um colégio público convencional, percebe a diferença entre os modelos. "Antes, eu estava em uma condição passiva, sem muita voz", lembra.

De acordo com Anna Beatriz, o trabalho com essas habilidades ajuda tanto nas disciplinas básicas quanto fora da escola. "Essa bagagem se reflete na forma como lidamos com as críticas e os desafios", diz ela, que está no colégio desde o ano passado. "Meus pais perceberam a diferença na minha postura".

Willmann Costa, diretor da unidade, explica que o objetivo é interligar os conhecimentos e desfazer as barreiras entre professores e alunos. "É um modelo de currículo atrativo, mais próximo da juventude", destaca.
 
Âncora. O modelo menos conteudista também é adotado no Projeto Âncora, que tem uma escola localizada em Cotia, na Grande São Paulo. Com turmas mistas, compostas por crianças e adolescentes de várias idades, a proposta da instituição é que os estudantes aprendam uns com os outros. 

Na escola, o currículo não é engessado, mas formatado a partir do interesse dos estudantes. "Cada um aprende no seu ritmo. Não preciso aprender ao mesmo tempo que o meu colega", afirma a aluna Giulia Jacobete, de 14 anos.

Fabio Zsigmond, educador e diretor do projeto explica que os alunos aprendem os conteúdos curriculares enquanto desenvolvem seus projetos. “O aluno se planeja para desenvolver o que ele tem interesse, como um livro, por exemplo. E a partir daí ele aprende os objetivos curriculares”, explica. “Não é de forma cronológica, separado por disciplina e alunos por idade, mas de uma forma orgânica.”

No Âncora, o professor é um mediador do caminho de aprendizagem do aluno. “Não é necessário ele ficar falando sobre um conhecimento que já está disponível nos livros ou na internet”, afirma Zsigmond. “É mais produtivo ele propiciar uma discussão e fazer uma reflexão.”

Desafio será ampliar ações, diz especialista

O desafio para o Brasil no futuro será replicar em todo o sistema educacional as experiências inovadoras de ensino, ainda muito concentradas em poucas escolas, segundo especialistas ouvidos pelo Estado. 

Entre os gargalos no sistema brasileiro estão a fragmentação das políticas educacionais (divididas entre União, Estados e municípios), a falta de estrutura das redes e a dificuldade para que os professores, na maioria formados na perspectiva tradicional, adaptem-se às constantes transformações.

"Ter um ensino personalizado significa levar em conta que instrumentos culturais fazem parte do mundo dos alunos e trazer essa forma para dentro da escola. Não adianta impor um modelo de ensino instrutivo (professores ditando as matérias) para um aluno que vive nas redes sociais", explica Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Ela explica que o Brasil não conseguirá inovar na educação antes de rever como os professores são formados. "Não vamos mudar só com formação continuada, que é o que as redes estão fazendo. Tem de mexer na formação inicial dos professores, nas licenciaturas", diz. 

Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, afirma que as escolas terão de acompanhar as demandas do mundo contemporâneo. "Escola e juventude não podem ser simplesmente consumidoras de informações, mas produtores de conhecimentos", defende. Para ele, as tecnologias terão cada vez mais destaque. "A educação do futuro será um grande laboratório hacker, com produção de materiais multimídia o tempo todo."

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