'Educação deve preparar para enfrentar problemas'

Pesquisador de neurociências, Pedro Calabrez defende a reforma estrutural das universidades

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2017 | 03h00

Para fechar o abismo entre ensino superior e necessidades do mercado, o pesquisador de neurociências Pedro Calabrez defende a reforma estrutural das universidades. Mas alerta aos jovens: a graduação continua indispensável. 

Numa sociedade em que a informação está disponível facilmente, muitas vezes de graça, uma graduação ainda é importante?

Em diversos campos existe um abismo entre o que se ensina e o que é exigido no mercado. É comum ouvir que o aprendizado no Brasil é “on the job”. Ou seja, aprende-se mais trabalhando do que na faculdade. Isso não significa, no entanto, o fim dos cursos de graduação. Em um mundo com tanta informação disponível, certamente aumenta a quantidade de conhecimento de qualidade, mas junto aumenta, em proporção muito maior, a quantidade de informação falsa e distorcida. As universidades necessitam, urgentemente, de uma reforma na graduação, para se adequarem melhor ao mundo contemporâneo.

Além da oportunidade de um emprego melhor, o que a educação formal pode oferecer de benefícios? 

Educação não é mero meio para obter emprego. Ela é a base de todo comportamento necessário a um bom cidadão, a um bom ser humano. Uma sociedade carente de educação, como a brasileira, não saberá votar, gerir suas finanças domésticas, abrir e manter um negócio, compreender as mudanças políticas, sociais e econômicas. Educação é a base da independência de um cidadão. 

Na faculdade, deve-se privilegiar o contato com colegas, a ampliação do repertório cultural ou atividades voltadas ao mercado? 

A formação técnica, pragmática, voltada ao mercado, é essencial. Como formar um engenheiro ou um médico sem isso? Mas o mercado muda com grande velocidade. A universidade deve, além das questões de mercado, formar indivíduos capazes de usar seus conhecimentos para transformar o país, de enfrentar problemas inéditos de maneira flexível. Indivíduos que compreendam o papel de seu trabalho, enxergando o mundo de forma sistêmica. E isso tudo vai muito além do ensino pragmático. 

Como fazer os jovens refletirem sobre seu aprendizado, desenvolvendo uma mentalidade de crescimento acadêmico constante? 

Quando o filho tira boa nota, os pais dizem: “Parabéns, você é muito inteligente”. Parece que a inteligência faz parte da natureza da criança, como a cor do cabelo. Estudos mostram que esse tipo de mentalidade faz com que a criança internalize a ideia de que é inteligente e de que não precisa se esforçar. Quando o desempenho piora, culpam a professora, a prova, a escola. A ciência psicológica recomenda o desenvolvimento de uma “mentalidade de crescimento”. O elogio adequado seria: “Parabéns pelo seu esforço”. No entanto, a mentalidade fixa é disseminada em nossa sociedade. Quanta gente diz coisas como “sou ruim em matemática”. Ora, você não estudou o suficiente para ficar bom. A educação deve incentivar crianças e jovens a enfrentar as dificuldades, conscientes de que o aprendizado é um caminho fantástico e encantador.

QUEM É PEDRO CALABREZ

+ Pesquisador do Laboratório de Neurociências Clínicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Pedro Calabrez foi responsável pela criação dos primeiros cursos de neurociências aplicadas aos negócios do Brasil, assim como de disciplinas de Neurociências Aplicadas para o Centro Universitário Belas Artes, Instituto Europeo di Design e Escola Supersior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP). Hoje é sócio-fundador da Neuro Vox, uma consultoria de comportamento. Junto com Clóvis de Barros Filho, ele é autor do livro Em Busca de Nós Mesmos (CDG Editora). 

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