Educação de SP terá reforma administrativa

Secretaria vai criar coordenadorias e cargos; objetivo é manter professores na sala de aula

Luciana Alvarez,

21 Janeiro 2011 | 23h18

Titular da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo desde o dia 5, o professor e engenheiro Herman Voorwald promete fazer uma gestão marcada pelo diálogo com a rede ensino e entidades de classe. Em sua primeira semana, reuniu-se com seis sindicatos. Após 30 anos de experiência no ensino superior - era reitor da Unesp até ser convidado para a pasta pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) - Voorwald quer oferecer atividades profissionalizantes aos estudantes de ensino médio, ampliar as escolas de tempo integral e mudar os ciclos da progressão continuada do ensino fundamental. Leia a seguir trechos da entrevista que Voorwald concedeu ao Estado.

 

- Qual o balanço que o senhor das últimas gestões da secretaria de educação?

 

A resposta começa com o que eu entendo por educação: um processo. Um processo que deve ter objetivos claros, e ações para que os objetivos sejam atingidos. Vi a evolução do processo educativo na Unesp, que fez com que uma universidade muito nova, da década de 70, hoje esteja entre as 400 melhores do mundo. A educação de qualidade é um processo que precisa de agentes envolvidos. O Estado de São Paulo, desde a gestão Covas, está em um processo, com quatro grandes vetores sendo trabalhados. O primeiro foi padronização de um currículo; o segundo é a questão da avaliação, ter metas definidas e fazer avaliação para saber se as metas foram atingidas. A terceira ação foi associar o desempenho (dos professores) ao bônus. Por fim temos a carreira. O conjunto de vetores é fundamental, mas tem que ter no magistério uma força comprometida. Os servidores que ingressam precisam ter claros quais os critérios para evoluir na carreira, associada a uma remuneração digna.

 

- O senhor vê então que hoje a carreira é um problema?

 

Não é que seja um problema, é um assunto dinâmico, que você sempre discute. A discussão de carreira e de uma política salarial que dignifique a profissão de professor é uma ação em que estaremos concentrados. Porque o processo de educação passa pelo comprometimento e diálogo constante com a rede. Ou ela está comprometida e participa do processo, ou ela se julga um agente não importante no processo.

 

- Os sindicatos da rede básica são grandes, em especial a Apeoesp, e têm tido uma relação muito difícil com o governo. Como o senhor vai fazer para driblar essa resistência?

 

Driblar não é a palavra. O perfil dessa gestão será o de discutir. As três universidade também têm sindicatos fortíssimos; passaram por discussões dificílimas, mas que ajudaram num processo de busca de qualidade. A discussão já começou, na primeira semana. De maneira geral a posição das entidades é a mesma, se concentraram na questão do resgate da figura do docente. O diálogo faz parte do processo. Difícil ou fácil, não se pode deixar de conversar com as entidades. Essa será uma maneira de trabalhar desta gestão. Venho de uma universidade, onde as decisões são colegiadas - os setores são representativos e dão as diretrizes administrativas e pedagógicas que o reitor tem de seguir. É muito importante a multiplicidade de opiniões.

 

- Mas a rede agora é bem maior.

 

Não importa a quantidade. Importa é a maneira de conversar, de colocar as coisas. Tem de ser de forma honesta, muito franca. O diálogo com as entidades e a rede de forma geral faz parte do processo de construção de uma educação de qualidade.

 

- As entidades estão preocupadas também com a questão da quarentena dos professores temporários (docentes temporário que estavam na rede no ano passado não podem mais entrar como temporários). Isso vai ser resolvido?

 

Estamos estudando a matéria. Por enquanto é isso que posso dizer.

 

- Se isso se mantiver vai faltar professor?

 

A grande preocupação nossa é que não haja a não presença de professores na sala de aula. Esse é um dos assuntos prioritários. Há um caminho que está sendo discutido.

 

- A secretaria vai manter a escola de formação para os novos concursados?

 

Sim, acho que foi uma grande iniciativa da secretaria. Faz parte de um processo de educação continuada que acho importante. A proposta é aumentar a demanda para a escola, oferecer mais cursos. A carreira avaliará a qualificação. Quanto mais os docentes da rede se especializarem, mais eles podem evoluir na carreira. É importante que essa escola dê a eles a possibilidade.

 

-Não será só para ingresso então?

 

Exatamente.

 

- O senhor considera boas políticas o sistema de bônus e prova de promoção por mérito?

 

Sem dúvida nenhuma. É uma tendência. A carreira do docente passa por um processo de avaliação a todo momento. O bônus trouxe o reconhecimento do comprometimento com o processo ensino/aprendizagem. Esse processo será consolidado.

 

- Quando o governador Serra foi eleito, prometeu mudar a duração dos ciclos da educação continuada. A ideia foi abandona, dois anos depois retomada pela então secretária Maria Helena Guimarães de Castro, mas nunca se mudou de fato. Desta vez vamos ter mudanças mesmo?

 

Os dados que a secretaria tem hoje mostram que devemos trabalhar na reorganização do ensino fundamental de nove anos. Não há como fugir. Pode ser que as decisão anteriores de não se mudar tenham sido baseadas na ausência de informações contundentes. Os dados hoje mostram claramente que a reprovação por si só é um processo perverso. Reprovar significa que o aluno foi incapaz de aprender, ou o sistema foi incompetente em ensinar? Não é a reprovação que diz se o processo de ensino/aprendizagem foi eficiente. A progressão continuada tem mérito por evitar a evasão por excesso de reprovações e também de evitar que se tenha na mesma série alunos de idades diferentes, o que é um problema na sala aula. O que não posso concordar é que haja uma progressão, mas depois se perceba que o aluno não está alfabetizado. Isso é tão perverso quanto uma reprovação sem sentido. Queremos garantir o aprendizado do aluno. Estamos formatando uma proposta, vamos apresentar ao governador, depois discutiremos com a rede. É importante ouvir o professor, a diretora, o supervisor. A ideia é que as discussões ocorram em 2011, inclusive sobre a carreira, para que possam ser implantadas em 2012.

 

- E também estão sendo discutidas com a rede municipal de São Paulo, certo? O secretário Ari Schneider disse que vai mudar os ciclos do município para ficar como a rede estadual, que os ciclos seriam de três em três. Vai ser assim?

 

Sim, estamos conversando com eles também. Todo mundo quer saber essa questão do tamanho dos ciclos, mas não vou falar. O importante é que o menino aprenda. A questão dos ciclos é menos importante do que a garantia de que haja uma evolução do estudante durante sua vida na escola. Esse é o objetivo.

 

- O ensino médio ainda é a etapa mais problemática. São Paulo fez algumas experiências com parcerias com Fatecs. O que podemos esperar para essa etapa?

 

Vamos expandir esse programa. É uma das ações em que a secretaria está mais concentrada. Na realidade, não é só em São Paulo, mas no País todo o ensino médio apresenta os piores resultados. Há uma experiência anterior na secretaria, que julgo bem sucedida, que é a possibilidade do aluno ter uma integração com o ensino profissional, para que tenha uma habilitação. Isso é prioridade da gestão. Não só dar continuidade, mas expandir muito o programa, para que haja por parte do aluno interesse no ensino médio.

 

- No dia da sua posse, foi falado também sobre ampliar as escolas de tempo integral. Como isso vai ser feito?

 

O que se precisa é ter o interesse da comunidade na manutenção das escolas em tempo integral. Houve casos apresentados à secretaria de que a própria comunidade, por outras opções para as crianças, pede que a escola integral seja encerrada. Mas outras, solicitam o tempo integral. Hoje temos umas 320. Acho o programa interessante, mas quando a comunidade julgar efetivamente importante. O que estamos discutindo é flexibilizar um pouco, não deixar as atividades muito amarradas. A flexibilização pode possibilitar que se aumentem as escolas em tempo integral.

 

- Em alguns casos, o problema foi a implantação.

 

Alunos reclamavam que ficavam sem atividades.

A experiência acumulada dos sucessos e dos casos de menos sucessos estão possibilitando a formatação de propostas alternativas, que serão discutidas. A ideia principal é a flexibilização do conteúdo. Será um conteúdo de acordo com a localização e os interesses da região em que a escola está inserida. Em regiões em que se tem uma carência social, a escola de tempo integral é um diferencial até para evolução da cidadania.

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