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Artigo: Educação de qualidade passa por cabeça e coração

Para o jornalista e educador Alexandre Le Voci Sayad, fundador do Media Education Lab, espaços educativos vão além da sala de aula

Alexandre Le Voci Sayad, O Estado de S. Paulo

28 Abril 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Datas comemorativas servem geralmente a um só objetivo: trazer à consciência aquilo que se transformou em paisagem e perdeu relevância no cotidiano. Para este 28 de abril, Dia Mundial da Educação, não será diferente. Há, sim, o que comemorar, mas há muito o que transformar. Pensar na educação no Brasil é desenrolar uma teia complexa de limitações que vão desde a organização curricular até a avaliação e a formação do docente. Só há um caminho: coragem e conhecimento de gestores públicos para mexer nesse emaranhado e garantir aprendizado para crianças e jovens.

Selecionei dois pontos que acho fundamentais no debate  - mas nem de longe os únicos existentes. O primeiro é que celebrar a educação hoje não tange somente o universo da escola. O sonho utópico dos pensadores da educação nunca teve uma chance tão evidente de se tornar realidade: quase todos os espaços, virtuais ou reais, são potencialmente educativos.

O que se aprende no cinema, na internet, na televisão, nos saraus literários, enfim, na vida comunitária em geral, passou discretamente a ser considerado parte importante do que chamamos de “formação para a vida toda”. O desafio agora é como o lócus escolar, e seu currículo engessado, passam a dialogar com a vida real, que acontece fora de seus muros. E mais, como a certificação do conhecimento, em um termo mais vulgar, o diploma, pode abranger a então chamada educação informal.

O segundo ponto é justamente esse: a informação é o que não falta hoje nos veios virtuais e reais da sociedade. Eis um motivo pelo qual a escola precisa se modernizar: como tornar um aluno curador, que selecione o que é relevante num mar de informações? Afinal, ela perdeu o protagonismo de principal fonte de conteúdo para os estudantes.

Nos anos de 1990, a Unesco divulgou um relatório (Educação: Um Tesouro a Descobrir) que acabou por pautar boa parte do debate sobre uma educação para para século 21.  O texto, atualíssimo, colocava desafios para a escola em termos de desenvolvimento de habilidades e competências nos alunos; propunha quatro pilares básicos para o aprendizado: aprender a conhecer, a conviver, a fazer e a ser.  Em outras palavras, a Unesco propunha uma educação que passasse pela cabeça (cognitivo), coração (sócio-emocionais) e membros (habilidades no fazer).

A breve análise acima cabe em muitas experiências concretas no Brasil – que podem impactar a qualidade do aprendizado. Por exemplo, a experimentação de alunos através da produção de mídia, como uma cobertura jornalística. De certa maneira, os jovens repórteres passam a ser protagonistas do fazer, suplantando aquilo que uma escola poderia ser: sem muros ou grade curricular, atenta aos seus interesses e com foco em curadoria e produção de conteúdo.

Na prática, isso será realizado por alunos de diversas escolas de São Paulo, durante a Bett Brasil Educar, um dos maiores eventos sobre educação da América Latina, quando serão orientados por educadores e jornalistas. A experiência será certificada e, por isso, poderá contar como atividade de um portfólio do estudante, que lhe será útil na porta de entrada de universidades e do primeiro emprego. 

* ALEXANDRE LE VOCI SAYAD É JORNALISTA E EDUCADOR. É FUNDADOR DO MEDIA EDUCATION LAB (MEL)  E AUTOR DO LIVRO IDADE MÍDIA: A COMUNICAÇÃO REINVENTADA NA ESCOLA, PUBLICADO PELA EDITORA ALEPH.

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