Economia: Situação do País é "treinamento"

Ser economista em um país tão instável como o Brasil é um desafio e uma experiência única. Pelo menos para o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, Heron do Carmo, de 52 anos. Na semana passada, quando o dólar bateu o recorde desde a implementação do Real, ele tirou todas as dúvidas que o estudante do Colégio Madre Alix José Anibal Fernandes, de 17 anos, ainda tinha sobre a profissão. Filho de uma administradora e um economista, José ainda não sabe o que prestar no vestibular, apesar de achar que "80% da certeza vai para economia e 20% para administração". Com Heron do Carmo, aprendeu que, se optar mesmo pela economia, terá de desenvolver sua intuição. José - Como você escolheu economia? Heron - Era 1969 e naquela época ninguém falava em economia. Eu não sabia direito o que fazer, tinha estudado em colégio militar, até que um amigo me contou que havia um novo curso na USP: administração de empresas. Resolvi prestar e passei. Naquela época, o 1.º ano de administração, economia, ciências contábeis e ciências atuariais era comum e, no fim desse período, tinha odiado as matérias de administração e amado as de economia. Foi então que descobri o que queria fazer. O curso de administração está ligado ao de economia? Administração está mais ligada ao curso de engenharia de produção do que ao de economia. Há áreas, como marketing e recursos humanos, que usam instrumentais de economia, mas as diferenças são inúmeras. O que está sendo cada vez mais comum hoje é o estudante fazer graduação em administração e MBA em economia ou vice-versa. O estudante hoje precisa fazer cursos fora do País? Não. Com a internet e o domínio do inglês é possível ficar plugado em tudo que acontece no mundo sem sair daqui. Professores e alunos de todos os lugares recebem as mesmas informações quase ao mesmo tempo e acho que, hoje, o mais importante é se manter informado sempre. Não dá mais para parar de estudar. Como trabalhar em um país com a economia tão conturbada quanto a nossa? Essa turbulência é um prato cheio para o economista. Já cheguei a calcular inflação de 80% em 15 dias aqui e essa é uma experiência que só é possível em poucos países. É por isso que nossos profissionais são cada vez mais requisitados no exterior. A gente aprende a trabalhar no meio do furacão e é obrigado a encontrar uma saída. Não tem treinamento melhor. Ser economista no Brasil é sempre um desafio. Quais são as dicas para quem quer ser economista? O fundamental é desenvolver a intuição para poder analisar o cenário econômico. Também é preciso conhecer muito sobre a realidade do País, estudar um pouco de matemática e muito de teoria de probabilidade, além de se manter sempre informado. Mas desenvolver a intuição sobre como a sociedade se comportará é o mais importante.

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