<!-- ecarreira -->Pós-graduação em Relações Internacionais abre portas a profissionais de várias áreas

Há muito mais que modismo na alta procura por cursos de Relações Internacionais. Bem informados como nunca, os jovens que disputam uma das 5 mil vagas nos 35 cursos de graduação existentes no País estão de olho num mercado de trabalho promissor: empresas, associações setoriais, prefeituras, governos e ONGs que precisam, cada vez mais, entender o cenário global. Desta vez, os veteranos profissionais têm muito o que aprender com os calouros e sua visão de futuro sobre as oportunidades de carreira.Mais do que aprender, é possível seguir seu exemplo sem ter de voltar aos bancos universitários. Quatro cursos de pós-graduação em Relações Internacionais foram criados no País, desde 2001, e facilitam uma turbinada na carreira, ampliando possibilidades para profissionais de diversas áreas. A economista Solange Dias da Silva, 37 anos, há cinco como especialista econômico-financeira da Sabesp, viu aí o meio que procurava para aguçar sua percepção do mundo e abrir novos caminhos de atuação."Com esta formação, posso atuar no setor governamental, privado ou acadêmico", resume ela, que em março foi admitida no primeiro programa feito por um consórcio de instituições, unindo Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e PUC-SP. Solange tem preferência pela pesquisa acadêmica e planejava um mestrado desde que se formou pela Unicamp, em 1992, mas não desdenha do mercado. "Há uma demanda crescente por pessoas com perfil negociador, e neste ano o Brasil deve investir muito forte em relações com a África e a Índia", analisa. "Não temos profissionais suficientes para atuar nestes fóruns de negociação."Demanda por profissionaisFoi esse diagnóstico que levou a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) a fomentar a criação de programas de pós-graduação em Relações Internacionais. Encarregada de pensar estrategicamente a produção de cérebros no País, a Capes ouviu pedidos de muitos professores de graduação, que alertavam para a falta de pessoal qualificado e material de estudos para formar profissionais capazes de, por exemplo, fazer uma análise de cenário para uma empresa interessada em investir no Mercosul."Não podemos mais contar só com o corpo diplomático, porque a demanda é enorme nos setores público e privado", explica Luiz Valcov Loureiro, diretor de programas da Capes em 2000, ano em que foi criado o Programa San Tiago Dantas de Apoio ao Ensino de Relações Internacionais ? ponto de partida dos novos cursos de pós-graduação. Até 2001, havia apenas os mestrados da Universidade de Brasília (UnB), criado em 1984, e da PUC-Rio, de 87; com o San Tiago Dantas, PUC-Rio e UnB criaram seus doutorados em Relações Internacionais (2001 e 02, respectivamente), o Instituto Rio Branco abriu uma especialização profissionalizante (01) e surgiu o consórcio das universidades paulistas. Além disso, UFRGS e Federal Fluminense estão preparando seus programas.Não houve um estudo de mercado com números desta demanda, mas o Mercosul, as negociações para a formação da Alca e para a liberalização do comércio e serviços, em Doha, a busca de novos mercados para produtos brasileiros evidenciaram a falta de quadros no País. "Esta foi considerada uma das seis áreas estratégicas ligadas ao desenvolvimento do Brasil", lembra Valcov, que esteve na Capes de 1995 a 2002.Financiamento internacionalA importância do programa cresceu após o 11 de setembro, quando o terrorismo ? antes restrito ao temário político ? começou a causar impacto econômico grave, afetando desde a indústria do turismo até o sistema de seguros de cargas e embarcações, passando pelos custos de portos e aeroportos. O coordenador do programa Unesp/Unicamp/PUC-SP, Tulo Vigevani, lembra que hoje é imprescindível a qualquer organização, "seja a Fiesp, um banco ou uma siderúrgica", ter profissionais capazes de fazer análise de risco em outros países e regiões. "Para isso, é fundamental compreender as relações políticas e econômicas contemporâneas", afirma.É preciso conhecer também a malha de organismos e programas internacionais que liberam recursos para países como o Brasil. Governos, empresas prestadoras de serviços públicos e ONGs começaram a fazer uso destes mecanismos e tentam profissionalizar a garimpagem do dinheiro. Daí a necessidade de negociadores com novo perfil. "Antes, um administrador era um cara de Comércio Exterior, mas agora é preciso levar muito mais em conta aspectos políticos e culturais nas negociações, tem de saber como acessar financiamentos internacionais", diz o paranaense Feliciano de Sá Guimarães, 26 anos, mestrando da Unesp/Unicamp/PUC-SP.Roubando vagasÉ provável, aliás, que graduados e pós-graduados em Relações Internacionais comecem a "roubar vagas" do pessoal de Comércio Exterior, como observa Guimarães, graduado em Ciências Sociais pela UFPR e em Relações Internacionais pela Universidade Tuiuti do Paraná. "É um campo novo no Brasil, mas com um crescimento enorme: quando entrei na graduação, em 98, havia um ou dois candidatos por vaga; hoje, há seis ou sete para uma vaga", observa ele.Quem já pensa em aproveitar esta onda na pós-graduação deve levar em conta que quase todos os programas ainda visam principalmente a formação de professores e pesquisadores. Só o Instituto Rio Branco tem curso com perfil de especialização profissionalizante, que é o maior atrativo para profissionais de áreas distintas em busca de novas habilitações. Mas o consórcio paulista já considera a possibilidade de abrir sua especialização nos próximos anos, segundo o coordenador Vigevani. De qualquer forma, o mestrado da Unesp/Unicamp/PUC-SP não atraiu poucos interessados: havia 83 candidatos para 15 vagas na primeira inscrição, em março.

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