<!-- ecarreira -->No serviço público, privilégios não chegam a quem produz conhecimento

Socióloga e historiadora com dois mestrados em Ciência e Tecnologia, a doutoranda Cristina Araripe de 40 anos, era pesquisadora visitante da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e, ano passado, não perdeu a oportunidade quando foi lançado concurso público para a instituição. Inscreveu-se, passou e hoje é efetiva do Departamento de Formação Profissional em Ciência e Tecnologia em Saúde, que se dedica à difusão do conhecimento científico para alunos do ensino médio.Cristina cita as vantagens de ter um trabalho fixo e o reconhecimento de ser funcionária de um centro de excelência na pesquisa científica como a Fiocruz. Porém, na ponta do lápis, recebia cerca de R$ 1.000,00 a mais como bolsista do que atualmente. Hoje, ganha salário-base de R$ 1.484, mais R$ 1.018 em gratificações e R$ 148,88 em auxílios transporte e alimentação, somando R$ 2.650 brutos.Com um filho de 7 anos, desconta todo mês R$ 250 de plano de saúde, R$ 291 de contribuição para a Previdência e R$ 445 de Imposto de Renda, ficando com salário líquido em torno de R$ 1.600. Cristina é um caso entre milhares de profissionais que optaram pela carreira no serviço público, onde privilégios de alguns dividem o cenário com a péssima remuneração de quem cuida da produção de conhecimento no País.Vivendo "mais ou menos"Durante seis anos, Cristina morou na França. Fez mestrado e atualmente, mesmo à distância, é aluna do doutorado da Universidade Paris 7, onde defenderá a tese em História da Ciência. Recém-eleita diretora do departamento onde trabalha, deverá ter um reforço de cerca de R$ 800 mensais líquidos enquanto ocupar o cargo."Desde o tempo da graduação, eu sempre quis ser pesquisadora e, nessa área da difusão do conhecimento científico o caminho é trabalhar em instituição pública. Com filho, aluguel e outros gastos, só com o meu salário seria impossível. Eu e meu marido vivemos mais ou menos, porque juntamos nossos salários", diz a pesquisadora, casada com um antropólogo com doutorado, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).Piores na eliteNa universidade pública, também é marcante a defasagem entre qualificação e salário, como mostra o edital do concurso da Universidade Federal Fluminense (UFF), disponível na internet para contratação de três professores assistentes, quatro adjuntos e um titular. Para os assistentes, de quem é exigido o mestrado, o salário inicial será de R$ 1.799,85. Adjuntos, que devem ser doutores, chegam a R$ 2.688,73 e o titular, doutor com mais qualificações, receberá R$ 3.687,76.Professor titular do Departamento de Ciência Política da UFF, Renato Lessa, de 49 anos, trabalha no regime de 40 horas semanais e recebe salário bruto de pouco menos de R$ 4 mil mensais. "Cheguei ao máximo da carreira e tenho salário líquido de R$ 3 mil na UFF", diz o professor, também pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro, da universidade particular Cândido Mendes. Os professores em regime de dedicação exclusiva das universidades federais recebem em torno de R$ 6 mil.Cientista social com mestrado e doutorado em Ciência Política, Lessa considera que, na elite do serviço público, os professores universitários são os que têm pior remuneração. "Falo elite no sentido do grau de escolaridade, da formação. É a pior relação entre salário e qualificação exigida. Basta ver o que se paga a um juiz do Supremo Tribunal Federal, por exemplo", diz o professor. Os ministros do STF recebem R$ 17,1 mensais.

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