<!-- ecarreira -->Eles não querem ser professores

Desde que se conhece por gente, Brisa Cristina Corrêa de Araújo (foto), de 16 anos, vê seu pai se matar de trabalhar dando aulas em até três escolas para conseguir sustentar a família. Agora, chegou a sua vez de escolher a profissão. Optou por História, mas jura que não quer nem saber de lecionar. Ela deseja trabalhar em museus, fazer pesquisas, mas nada de pisar em uma sala de aula.Assim como Brisa, milhares de jovens que todos os anos entram nos cursos de graduação com habilitação em licenciatura (aqueles que formam docentes) - como Química, Física e Biologia - não querem ser professores. Por isso, o Brasil já sofre com a falta de 254 mil docentes de 5ª a 8ª séries e de ensino médio, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do MEC.DesmotivaçãoEm São Paulo, não há estatísticas, mas escolas públicas e particulares começam a enfrentar o problema. Na rede municipal, por exemplo, há dificuldade em se encontrar professores de Geografia e na estadual, de Física. Uma das maiores escolas particulares da capital diz que toda vez que precisa contratar um docente de Química é um sufoco.De acordo com especialistas, a situação deverá se agravar em dois ou três anos. E tudo por conta da desvalorização da carreira. Salários baixos, excesso de trabalho e falta de condições para lecionar são as principais causas de desmotivação para o novos professores.Pedro Terranova, 17 anos, faz cursinho no Objetivo e está em dúvida se presta Química ou Física. Mas uma certeza já tem: "Não darei aulas. Vou trabalhar em laboratório ou fazer pesquisa". A falta de vocação para o magistério é um dos motivos para a escolha, mas ele confessa que o salário também conta. "Não quero ganhar mal."Alunos mal-educadosEssa é a mesma justificativa de Brisa. "Quero manter o nível de vida que meu pai conseguiu, mas vejo o tanto que ele se esforça e não sonho em ter essa vida", diz. "Também não teria a paciência que ele tem. Os alunos são mal-educados, não respeitam o professor, e há escolas perigosas."A violência é mais um dos fatores que contribuem para a falta de professores. "Algumas escolas são controladas por gangues, onde docentes, intimidados, desistem da profissão", conta o vice-presidente do sindicato dos professores municipais (Sinpeem), Adelson de Queiroz. "Quem vai querer trabalhar em um lugar assim e ainda ganhar mal?" leia também Maioria está perto da aposentadoria Salário baixo e ´caos´ na sala de aula

Agencia Estado,

24 de março de 2004 | 12h26

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