<!-- ecarreira -->Cientistas não querem imagem de gênios malucos

Poucos são os cientistas que nunca ouviram frases como ?o senhor não parece um físico? ou ?ninguém diria que o senhor é biólogo?. Por trás delas está, na verdade, a visão estereotipada que grande parte das pessoas tem dos cientistas, como sujeitos meio malucos, excêntricos, desligados do mundo e concentrados apenas em seus laboratórios.A questão da imagem que a sociedade tem da ciência e do cientista é mais séria do que pode parecer. A maneira pela qual a sociedade os vê tem implicações no apoio e financiamento das pesquisas e, em última instância, no desenvolvimento científico e tecnológico de um país.?O estereótipo, como a idéia de que cientistas são meio malucos e pesquisam algo sem aplicação prática, como se quisessem descobrir o sexo dos anjos, é prejudicial à ciência?, diz o biólogo Célio Magalhães, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). ?Uma sociedade que não entenda e não veja os benefícios que a ciência pode trazer não entenderá a necessidade de apoiá-la e financiá-la.?Asterix e CalvinFã de Asterix e da tirinha do Calvin, Magalhães garante que não se enquadra em nenhuma caricatura de cientista. ?Tenho uma vida extracientífica perfeitamente normal?, diz. ?Os meus poucos hobbies são comuns a muitos, como escutar música, escolher as minhas preferidas e gravar meus CDs de obras clássicas e jazz para escutar quando estou no carro ou no laboratório.?Apesar de assegurar que os cientistas são normais, Magalhães arrisca um palpite sobre de onde surgiu a idéia de que todo cientista não bate bem. ?Conhecendo alguns colegas, até que não é tão difícil entender de onde vem esse estereótipo do cientista?, diz. ?Afinal, quem pensaria ser uma pessoa ?normal? aquele cara que se afunda até o pescoço na lama do Pantanal em busca de caranguejos ou camarões só para saber de que espécies são??O doutor em glaciologia Jef-ferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tem uma explicação diferente para a origem do estereótipo. ?O mito do ?cientista meio maluco?, sem preocupações com o cotidiano, é recente?, diz. ?Começou a aparecer nos filmes B de Hollywood na década de 1930. E depois tem sido explorado de várias maneiras pela TV e a mídia em geral.?Frankenstein e salárioPara o físico Marcelo Knobel, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no entanto, o mito é bem mais antigo. ?Ele deve ter surgido com Dr. Frankenstein, criado em 1816 pela escritora Mary Shelley (1797-1851), que aparece como um cientista maluco?, diz. ?E o interessante é que alguns cientistas que tiveram muito espaço na mídia, como Einstein, por exemplo, se adaptaram bem ao estereótipo, reforçando-o.?Tanto Simões como Knobel estão longe dessa caricatura. O primeiro, que coordena uma das redes de pesquisa do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), se considera uma pessoa comum. De acordo com Simões, hoje um professor doutor com estágio de pós-doutorado e 15 anos de trabalho recebe salário líquido de cerca de R$ 3.500,00. ?Agora compare com o salário de R$ 3.700,00 que se oferece num concurso para a Polícia Rodoviária Federal, que exige somente 2.º grau?, reclama.?Ou seja, os cientistas sofrem os mesmos problemas do resto da sociedade. Eu, por exemplo, a muito custo, consegui só agora, aos 45 anos, comprar um apartamento financiado pelo sistema de habitação.?Knobel acredita que, por si só, o estereótipo não causa danos. ?O problema é que sempre seja relacionado com algo negativo?, diz. ?O cientista, quando não é considerado meio bufão, brilhante, mas esquisito, descuidado, é considerado ?workaholic? ou mau, perigoso. Ou seja, quase sempre são características negativas e não há um contraponto positivo.? leia também Estereótipo é praticamente universal A vida bem concreta dos cientistas

Agencia Estado,

05 de abril de 2004 | 14h59

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