<!-- ecarreira -->A ciência precisa dos ilustradores

De boca de girinos, crânios de ratos e escamas de lagartos a aves de belas plumagens, passando por plantas e insetos, nada escapa da pena e dos pincéis dos ilustradores científicos. São profissionais que unem as habilidades de artista ao rigor da observação científica, para realizar seu trabalho, que pode ser ilustrar um livro ou uma tese acadêmica.Eles não são muitos no Brasil ? não passam de algumas poucas dezenas ? e de certa forma são seguidores dos primeiros pintores e naturalistas que passaram pelo Brasil, do século 17 ao 19, e fizeram as primeiras ilustrações da biodiversidade brasileira, como Albert Eckhout (1610-1665), Jean-Baptiste Debret (1768- 1848) e Johan Moritz Rugendas (1802-1858).O objetivo do trabalho dos antigos e atuais ilustradores não mudou muito. Basicamente desenham animais e plantas para ilustrar trabalhos científicos. ?Faço desenhos e pinturas para pesquisadores que necessitam ilustrar o tema de seus estudos?, diz o mineiro Giacarlo Zorzin (foto), de 27 anos, filho de pintor, que desenha desde que se lembra como gente. ?Sou especialista em ilustrar a vida selvagem, trabalho que me fascina, pois não me canso de admirar as maravilhas da natureza.?Fotografar?Não é uma tarefa fácil. ?As dificuldades são muitas?, diz Raphael Dutra, de 31 anos, nascido em São Paulo mas criado em São João Nepomuceno (MG), que também pinta desde garoto. ?É preciso ser bom desenhista, bom pintor e ainda conhecer a natureza, estudar as plantas e animais no campo, visitar museus para fazer comparações das cores das penas de aves e do pêlo de mamíferos ou das asas de borboletas.?Diante disso, alguém poderia perguntar se não seria mais fácil fotografar os bichos ou plantas. ?Não?, responde o baiano Osmar Borges, de 30 anos, que quando criança fazia álbuns com desenhos de animais, que vendia para seus primos. ?Por vários motivos. O primeiro é que nem sempre é possível dispor do objeto que se quer representar para fotografá-lo, como animais já extintos, raros ou difíceis de encontrar.?Além disso, por incrível que possa parecer, uma boa ilustração, que pode ser feita com várias técnicas, como pinturas a nanquim, guache ou aquarela, mostra melhor os detalhes do que uma foto. ?Com o desenho se pode escolher a pose mais adequada, realçar certas características e detalhes e representar mais fielmente as cores?, explica Borges. ?As fotos mudam as cores reais de penas, pêlos ou flores de acordo com as condições de luz?, acrescenta Dutra.Câmera claraHá ainda os casos difíceis de fotografar, como a boca com dois milímetros de um girino. Para superar o obstáculo, os ilustradores usam tecnologia. ?Usamos uma câmera clara?, diz Dutra.?É uma espécie de microscópio com uma lente extra. Além da que focaliza o animal ou planta que será desenhada, há uma outra que mostra a mão que desenha. Assim, conseguimos retratar com exatidão a garganta de um girino, os ossos do crânio de um rato ou as escamas de um lagarto.?Biólogos e zoólogos que utilizam os serviços dos ilustradores reconhecem sua importância. É caso da bióloga Adriana Bueno, da Universidade de São Paulo, que contratou Dutra para desenhar crânios de ratos para sua monografia. ?Eu queria mostrar estruturas ósseas ligadas à audição dos roedores?, explica. ?Fiz fotos, mas não fiquei satisfeita. As ilustrações mostraram exatamente os detalhes que eu queria.?

Agencia Estado,

05 de março de 2004 | 11h17

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