Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

ECA-USP adotará seleção via Enem na maioria dos cursos

Educomunicação, Biblioteconomia, Jornalismo, Publicidade, Editoração, RP e Turismo terão 81 das 270 vagas no Sisu

Luiz Fernando Toledo e Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - A Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) vai adotar o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que prevê a entrada de candidatos pela nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), para a maioria dos cursos de graduação. Para o próximo vestibular, todos os cursos de Comunicação - Educomunicação, Biblioteconomia, Jornalismo, Editoração, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Turismo - vão separar 81 das 270 vagas pelo sistema e 34 dessas 81 serão reservadas para candidatos pretos, pardos e indígenas (PPI).

Já os demais cursos da unidade - Audiovisual, Artes Cênicas, Artes Visuais e Música - não farão parte do processo. Segundo a direção da ECA, as graduações em Artes exigem provas de habilidade específica, que são anteriores ao vestibular. A Universidade de São Paulo (USP) definiu que cada uma de suas unidades tem liberdade para oferecer vagas pelo Sisu - até um limite de 30%.

A adoção do Sisu deve ser referendada nesta quinta-feira, 16, pelo Conselho de Graduação. Dois dos cursos que adotaram a mudança para este ano - Jornalismo e Publicidade e Propaganda - estiveram entre os dez mais concorridos na relação candidato-vaga no vestibular do ano passado.

A adoção de cotas sociais e raciais na instituição é pauta antiga do movimento estudantil e já ocorre nas universidades federais desde 2012. No mês passado, alunos ocuparam diversas unidades, incluindo a ECA, reivindicando a adoção de cotas e políticas de permanência estudantil. Procurados nesta quarta-feira, 15, os estudantes disseram que a adoção do Sisu pela ECA não atende às reivindicações do movimento - que deve prosseguir.

No curso de Jornalismo, 18 (30%) das 60 vagas agora vão para candidatos do Sisu. Dessas, 27% (16) serão para alunos vindos de escola pública, 8 delas para pretos, pardos e indígenas (PPI). O curso teve 2 mil inscritos no ano passado, relação de 33,5 candidatos por vaga. “Diversidade sempre foi um problema. Temos um aluno de perfil muito parecido. A presença de negros e indígenas é importante para ter formação mais ampla do próprio jornalista. Mais questões são trazidas para o debate e isso contribui para formar profissionais com várias experiências sociais”, diz o chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração, Dennis de Oliveira. Em Editoração, das 15 vagas, 5 vão para o Sisu. 

Em Publicidade, 8.º curso mais concorrido da universidade no ano passado, serão oferecidas 15 das 50 vagas pelo Sisu, 5 delas para PPI. Para o chefe do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo, Victor Aquino, o número ainda é insuficiente e pode não causar o impacto desejado. “É uma opinião de todos os professores ser contra o limite atual de 30%. A USP vive escondida atrás de um biombo furado chamado meritocracia, excelência. Mesmo com Sisu, os alunos estão desestimulados a concorrer em uma fatia tão estreita de vagas.”

Em 2015, a universidade já aderiu ao Sisu e separou para o vestibular de 2016 13,5% das vagas - 10,5% para alunos de escola pública e 1% para pretos, pardos e indígenas. Mas 10 das 42 unidades da instituição decidiram não abrir espaços, incluindo a ECA. 

Com notas de corte que chegaram a 700 pontos, só 55% (814) das 1.489 vagas destinadas ao Sisu no ano passado foram preenchidas. E a USP recuou ainda mais no acesso aos alunos de escola pública. O índice caiu de 35,1%, em 2014, para 34,6%, distanciando a universidade de alcançar a meta de ter 50% até 2018.

Cota. Aluna de Artes Cênicas e única da turma a ter estudado em escola pública, Marcela Carbone, de 24 anos, é contra a adoção de cotas apenas pelo Sisu. “As outras faculdades da USP já mostraram no ano passado que essa política só piora a situação, porque traz para a USP os melhores pontuados no Enem, a elite da escola pública, e escolas técnicas ou que fizeram cursinhos. Não muda a composição social e racial da USP, que é extremamente elitista.”

Debate

A USP deve adotar cotas sociais e raciais?

Sim

A adoção das cotas por alguns departamentos da USP deve ser parabenizada, mas a universidade ainda está muito atrasada em cumprir a própria meta de ter 35% dos estudantes negros e pardos até 2018. É muito grave que ainda adote medidas tímidas diante de cenário grave de exclusão.

São 82 anos de exclusão da população negra na USP e o que se vê, quando são adotadas medidas de inclusão, é que elas não são embasadas em estudos sociocientíficos. A universidade adota medidas de inclusão com base em “chutômetro”, sem de fato adotar uma política que reflita o necessário para mudar sua composição social e racial. É vergonhoso que uma universidade reconhecida por suas pesquisas científicas formule políticas dessa forma. 

Depois de tantos anos de atraso para adoção de cotas é inaceitável que as reservas sejam de um número tão pequeno de vagas e em apenas alguns cursos. Em uma cidade como São Paulo, com tantos negros, não é possível aceitar que nossa população ainda só tenha garantido esse número de vagas na universidade.

Frei David Santos, diretor-executivo da Educafro

Não

O ingresso em uma universidade deve ser pelo mérito. O estabelecimento de cotas, sejam elas raciais ou sociais, não é a solução para o problema da falta de acesso dos estudantes mais pobres e negros ao ensino superior. 

A questão é que a admissão por mérito estimula os alunos a serem mais esforçados. Não é uma boa ideia que universidades públicas e tão caras à sociedade tenham esse tipo de cota. Um aluno da USP custa, em média, R$ 50 mil por ano e é o processo de seleção que privilegia o mérito, que faz com que ela seja uma universidade de excelência e considerada a melhor instituição da América Latina. 

Conceder uma bonificação para os alunos de escola pública, como uma espécie de correção, é aceitável. Mas as cotas sociais não são, porque assim se desencoraja os estudantes mais esforçados. As cotas têm um efeito pedagógico muito ruim, sobretudo em uma universidade reconhecida por suas pesquisas, como é a USP. As cotas vão contra a ideia de uma universidade de alto padrão de qualidade de ensino e pesquisa.

José Goldenberg, ex-reitor da USP e presidente da Fapesp

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