<!-- eartigo -->Ensino de qualidade, ensino jurássico

Dentre as situações inesquecíveis que vivi está a participação como ouvinte de uma palestra, em que o então reitor de uma universidade pública disse para os jovens presentes em alto e bom som: ensino de qualidade não deve ser nossa preocupação. A preocupação com ensino de qualidade é uma discussão jurássica. O mercado de trabalho faz a seleção.Tolices como estas foram acrescidas. Apesar de toda a indignação, não me retirei do auditório por respeito ao grupo de alunos que acompanhava. Mas nunca mais esqueci, pois contrariava, frontalmente, o que eu tentava repassar a esses mesmos alunos, a cada dia.Hoje, transcorridos poucos anos, estamos assistindo à derrocada vertiginosa do ensino, em todos os níveis. Em nome de uma pedagogia avançada, a repetência é vista como inadmissível, sobretudo nas escolas públicas, no caso dos ensinos fundamental e médio.As 65 universidades públicas brasileiras vivem crise sem precedentes, que atinge sua estrutura administrativa, organizacional, acadêmica e o seu modelo de financiamento, mas, o que é mais grave, alcança até mesmo o seu ideário enquanto academia do saber. Controladas por legislação obsoleta, que interfere em sua autonomia financeira, política e pedagógica, falta-lhes transparência administrativa.Salvo as denominadas ?centros de excelência?, com cursos e programas de qualidade, grande parte das instituições de ensino superior figura, hoje, como verdadeiras ?academias do ócio?, instituições falidas, administrativa e eticamente, arraigadas em atitudes corporativistas, distanciadas do sistema produtivo e deficientes em sua capacidade de iniciativa.Há carência de recursos para tudo ? equipamentos, recuperação e manutenção de laboratórios, bibliotecas, papel de expediente e salários dignos para os docentes. Não há extensão, quase não há pesquisa e o ensino se arrasta muito mais como uma obrigação do que como um compromisso de produzir conhecimento, em pacto de cumplicidade com o alunado.Sem dúvida, tudo isso acentua o seu isolacionismo e atinge sua credibilidade. Como decorrência, sob a aquiescência do governo federal, surgem e se expandem, velozmente, verdadeiras empresas lucrativas em educação, privilegiando grupos privados, sob o falso argumento de modernização e democratização do ensino. Há de tudo: desde excelentes professores com alta titulação (em geral, oriundos das universidades públicas) a aqueles sem nenhuma experiência, nem em sala de aula, nem em pesquisa, nem em mercado.Há alunos bem preparados e os semi-alfabetizados, dentro da perspectiva do analfabetismo funcional, ou seja, alunos que ingressam no ensino superior em face da demanda menor do que a oferta. Há a cobrança de taxas extorsivas, até mesmo para obtenção de um histórico escolar, a priori, direito de qualquer universitário. Há abuso no valor das fotocópias. Há a prática exacerbada de avaliações em grupos. Há livros de menos e cantinas de mais. Há uma carga exaustiva de trabalho para técnicos e docentes. Há, realmente, de tudo.E, diante dos fatos há, sempre, a desculpa agora recorrente de que o mercado é encarregado de fazer a seleção. Diante desse quadro restrito, eu me penitencio e sou forçada a concordar com aquele reitor, para quem ensino de qualidade é ensino jurássico. Aceito, pois, minha defasagem ante o ?avanço? e a democratização do ensino. Mas, paradoxalmente, me nego a adotar tal prática. Se assim o fizer, sofro o risco de contrariar os meus princípios mais íntimos e profundos.* Doutora em Ciência da Informação e pesquisadora do CNPq

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