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‘É uma mudança tão brusca que nenhuma hipótese explica tudo’

Para especialista, apesar de esperado, avanço no nº dos que já fizeram a prova do Enem surpreende; erro estatístico seria possível

Isabela Palhares e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Além da nova regra de inscrição, segundo especialistas, a maior proporção de candidatos veteranos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é uma tendência natural da prova. O exame já absorveu boa parte da demanda reprimida de adultos do País que havia terminado o ensino médio, mas não teve chances de fazer um curso técnico ou superior. Se não passam da primeira vez, no entanto, muitos desses candidatos voltam a encarar o teste.

Mas, ponderam os especialistas, a variação radical no perfil dos participantes também levanta a hipótese de um erro estatístico ou mudanças de classificação do Inep.

“É uma mudança tão brusca que nenhuma hipótese explica todos esses números, a princípio”, pondera Márcio da Costa, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Esse aumento deveria ser processual, não um salto de um ano para o outro.”

De acordo com ele, pode ter havido um erro de cálculo ou uma mudança de classificação dos candidatos. Procurado, o Inep disse que ainda não conseguiu fazer uma análise mais ampla dos dados e não houve alteração nos critérios para classificar os participantes.

Reynaldo Fernandes, ex-presidente do Inep, dizque é normal que o número de estreantes no exame caia. “Em um sistema equilibrado, o total de participantes deve ser bem próximo ao de concluintes da educação básica. Esses são os candidatos naturais da prova”, diz ele, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP).

Ainda não há balanço sobre quantos estudantes devem terminar o ensino médio em 2015. No ano passado, eram 2,225 milhões de alunos no 3.ºano do ensino médio. No ano anterior, eram 2,213 milhões.

Já sobre a inibição de treineiros com a nova regra para faltosos, Fernandes acredita que isso ajuda a reduzir o gigantismo do exame. “Fazer como teste não é ruim, mas a prova tem uma logística extremamente complicada”, explica. “E quanto maior for a prova, mais altos são os riscos de algo não dar certo. Ainda é muito inchado.”

Sem estímulo. Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP, acredita que o recuo de candidatos que estão prestando o Enem pela primeira vez é “puxada” pelos alunos de escolas públicas. Esse grupo, de acordo com ele, desenvolve um sentimento de não ter chances de obter boa nota no exame e ingressar na universidade. “É um movimento de alunos mais realistas com relação às efetivas chances no Enem”, diz.

Em agosto, o Estado mostrou que 68% das escolas da rede estadual de São Paulo, por exemplo, não aparecem na lista do Inep que traz as médias do Enem por colégio. Isso acontece por causa da baixa participação dos alunos. As notas por escola são divulgadas só quando mais da metade dos alunos do 3.ºano do ensino médio daquela unidade faz o exame.

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