'É uma angústia para toda a família'

Obstáculo do idioma leva escolas encaminharem crianças a instituições de educação especial; para mãe, faltou paciência e contato com a família

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

19 Março 2017 | 05h00

O menino de 7 anos escondeu-se embaixo da carteira na sala de aula, em uma escola estadual da zona norte, e não quis mais sair. A professora ordenava, os colegas riam, todos os olhos nele. A situação repetiu-se algumas vezes, e a UBS do bairro recebeu um pedido: avaliar R., congolês que vivia em São Paulo havia um ano, por “sinais sugestivos de autismo”.

O pedido chegou à agente comunitária de saúde da área, que estranhou. Ela conhecia o menino, o havia “subornado” com pipoca doce em uma campanha de vacinação, e não notou nada incomum. “Fui à casa dele e o vi correndo e brincando no quintal”, conta a agente, que não quer se identificar por atuar na área. “A escola dizia que ele não obedecia ordens, então pedi à mãe que dissesse, em lingala, para ele ficar parado, ou escovar os dentes, e ele obedecia. Era só o idioma mesmo. E ele ficava embaixo da mesa por vergonha de não entender a professora.”

Com o menino G., de 11 anos, também congolês, foi parecido: faltou paciência e contato com a família. Um dia a mãe foi convocada à escola municipal do filho. Havia um documento para ela, que não entendeu na hora, mas na UBS traduziram: falava em “caso psiquiátrico” e “QI rebaixado”. A mãe entrou em pânico: sabia que o filho tinha problemas na dentição e algum estrabismo, mas disso ela já tratava. “Ele não era alfabetizado em nenhuma língua, por isso não escrevia nada, apesar da idade. Mas não era doente”, conta a mãe, na sala de casa, em Sapopemba, zona leste. “Foi um sofrimento a toda a família. Queriam que ele fosse a uma escola de educação especial, longe de casa, e já pensamos se teríamos condição.” A solução veio em uma mudança de bairro, quando teve de trocar de colégio. A essa altura já havia ganho um laudo da UBS dizendo que ele tinha condição de frequentar uma escola comum. Desde então, avançou em estudo e socialização – recebe elogios em matemática e faz caratê. “A professora liga para ver se li o caderno dele, para ajudar na escrita. O que mudou entre um colégio e outro foi o cuidado para avaliar meu filho.”

Nos seis anos em que trabalhou nas UBSs da Sé, República e Bom Retiro, o fonoaudiólogo Jean Camargo Longhi viu muitas situações como essa. “Eram crianças que ainda não tinham aprendido todos os sons do português, e enviavam para o fono ‘consertar’, como se tivessem problema na língua ou garganta. Mas toda visita médica desnecessária gera um impacto, uma opressão. Emocionalmente, não é saudável”, diz. “Estamos falando da questão da patologização da infância, com o adicional de que se trata de um imigrante, muitas vezes há pouco tempo no País, ainda absorvendo tantas mudanças e sem capacidade total, linguística, de se expressar. É preciso cuidado redobrado.”

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