É preciso olhar para fora para avaliar a educação

Qual o pecado mais grave, a desigualdade ou o atraso? Em educação, os dois males são associados. No ano 2000, apenas 12,8% dos brasileiros com 25 anos ou mais tinham educação fundamental completa, equivalente a oito anos de estudo. A desigualdade tem sido ainda maior no acesso ao diploma superior. Só chegaram até lá 5,8% dos brasileiros nessa faixa de idade, segundo os últimos números do Censo Demográfico de 2000, recém-divulgados pelo IBGE.A má distribuição da escolaridade deixa o Brasil em enorme desvantagem diante dos competidores no mercado internacional. A imprensa e o próprio IBGE, em seu press release, deram maior destaque à minúscula porcentagem dos diplomados em faculdades. Os formuladores de política deveriam ser mais atentos ao outro número: o poder de competição depende em primeiro lugar de uma grande massa trabalhadora com educação fundamental.Criar essa massa foi o primeiro passo das economias que se modernizaram com maior sucesso nos últimos 20 ou 25 anos. Em segundo lugar, esse esforço é necessário para se romper o funil que limita o acesso à instrução superior. Esse funil é terrivelmente estreito, no Brasil, e é preciso não menosprezar essa obviedade.O Brasil fica em má posição mesmo quando se comparam seus dados de escolaridade com os de outros países latino-americanos. Num estudo publicado há três anos, Robert Barro e Jong-Hwa Lee confrontaram estatísticas dos anos 90 de 20 países latino-americanos. O Brasil aparecia em 16.º lugar. Sua população de 25 anos ou mais tinha em média 4,6 anos de estudo. Os colombianos tinham 5, os equatorianos, 6,5, os chilenos, 7,9, e os argentinos, 8,5.Na mesma época, as populações nessa faixa tinham em média 9,5 anos de escolaridade nos países de alta renda, 8,4 no Leste e no Centro da Europa e 7,6 no Leste da Ásia. Já era ostensiva a enorme vantagem dos países, como a Coréia, que haviam investido na educação fundamental acessível a todos e de boa qualidade.Os números do Censo mostram melhoras no Brasil. Grupos mais jovens têm tido maior escolaridade. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, 42,8% tinham em 2000 entre 8 e 10 anos de estudos. Na faixa de 20 a 24 anos, a porcentagem ficava em 21,5%. A proporção caía para 17,6% entre os jovens de 25 a 29 anos.Essa melhora já era visível quando se comparavam, nos anos 90, os anos de estudo de duas gerações, a de 1930 e a de 1970. De uma para outra, a escolaridade média havia passado, segundo um estudo publicado em 1996, de 2,8 para 6,7 anos. Na mesma época, no entanto, a escolaridade média da população nascida em 1970 na Coréia já era de 11,2 anos. Chegava a 12,3 em Taiwan e a 13,4 nos Estados Unidos. A maior parte dos países latino-americanos apresentava números bem melhores que os do Brasil.O tamanho da economia brasileira, as dimensões de sua população e o treinamento profissional disponível nas áreas mais industrializadas têm permitido ao País, apesar de tudo, ocupar uma posição de certo destaque internacional. Mas a economia brasileira foi até o começo dos anos 90 muito fechada e pouco exposta, portanto, à concorrência global. O tamanho de seu mercado e seu potencial aparente de crescimento serviam como atrativos para o capital estrangeiro.Os fatores que tornavam o Brasil atraente são hoje menos importantes. Não há como continuar adiando a adoção de políticas sérias de competitividade. Aumentar a escolaridade dos brasileiros é parte dessa tarefa. Mas não basta inflar os números. O desempenho dos estudantes brasileiros em testes de matemática, de ciências naturais e de compreensão de leitura tem sido um desastre.Esse resultado se explica não só pelo treinamento insuficiente dos professores, por seu baixo salário e pelas más condições materiais das escolas. É inegável, embora seja difícil quantificar esse dado, uma escandalosa tolerância à má qualidade do ensino, especialmente quando se trata das escolas, públicas ou particulares, destinadas à massa. Falta uma conversa franca a respeito desse tema.* Jornalista

Agencia Estado,

05 de dezembro de 2003 | 16h16

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