'É possível aliar eficiência a qualidade na educação'

Diretora da Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Superior defende gestão e qualidade

Entrevista com

Elizabeth Guedes

Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

28 Julho 2015 | 10h07

As receitas os grandes grupos educacionais de ensino superior com ações na bolsa tiveram um grande salto em suas receitas, impulsionadas por fusões, alta nas mensalidades e pela ampliação do Financiamento Estudantil (Fies), mas têm direcionado proporção cada vez menor de recursos para o pagamento de professores. A remuneração dos docentes em relação à receita líquida passou de 45% em 2010 para 35% no ano passado, na média das empresas Kroton, Ser, Estácio e Anima - todas de capital aberto. 

A diretora da Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Superior (Abraes), Elizabeth Guedes, defende que há um planejamento cada vez mais eficiente dos recursos utilizados e a preocupação com qualidade é permanente. A Abraes representa as empresas de capital aberto, além dos grupos Devry e Laureate.

Os dados indicam que as receitas da empresa não tem sido revertidas para investimentos nos professores na mesma ordem. Por que?

Há muitos investimentos em professores que não estão incluídos na conta contábil de professores, como por exemplo, qualificação, treinamento e capacitação docente. Esses gastos são vistos como despesas administrativas, mas estão diretamente relacionados com a qualidade acadêmica e a valorização do professor. E há ainda outros como a melhoria contínua do acervo das bibliotecas e dos laboratórios por exemplo. É verdade que a folha salarial das nossas instituições de ensino vem aumentando nos últimos anos: isso significa mais professores, mais horas contratadas, mais encargos recolhidos, mais empregos, mais arrecadação em benefício de todo o país. Se ela cresce menos do que a receita, isso se deve a um planejamento cada vez mais eficiente dos recursos utilizados, utilizando de melhor forma os recursos disponíveis que sempre finitos. Sem investimentos contínuos, as empresas educacionais deixariam de ser competitivas.

Como as empresas têm conseguido esses resultados de eficiência, mantendo a qualidade na oferta da educação? Isso é possível?

Na realidade, estamos obtendo resultados e elevando,  não apenas mantendo, a qualidade acadêmica de nossas escolas. Basta ver a evolução de nossos indicadores de qualidade  segundo os indicadores do sistema de avaliação e supervisão do MEC. Não só é possível aliar eficiência a qualidade, como esta tem sido nossa orientação. Essa é a grande chave para a sustentabilidade no longo prazo: aliar qualidade acadêmica e eficiência operacional e financeira. Com maior capilaridade, as empresas educacionais conseguem otimizar seus recursos, compartilhar competências e experiências entre suas instituições e utilizar melhor seus recursos tecnológicos para aprimorar a qualidade do ensino. Em 2014, a ABRAES conduziu uma importante e exclusiva pesquisa no setor, que comparou os resultados médios do Enade entre alunos das instituições de ensino públicas e alunos das instituições de ensino privadas com bolsas 100% Prouni. O estudo comprova que alunos de instituições de ensino superior (IES) privadas com bolsa 100% Prouni obtiveram resultados médios mais elevados no Enade de 2010, 2011, 2012, 2013. Sistematicamente e em todas as áreas. Recebendo alunos com notas de Enem inferiores, nossas estruturas acadêmicas permitem que estas diferenças iniciais (e que também são sócioeconômicas) sejam anuladas ao longo do curso. Podemos afirmar, portanto, que no setor privado há eficiência e qualidade acadêmica, simultaneamente.

Especialistas em ensino superior indicam que essa eficiência econômica contrasta com as particularidades do setor da educação. Qual o entendimento da Abraes nesse sentido?

De acordo com a experiência internacional, a qualidade do ensino oferecido pelas instituições está diretamente relacionada à capacidade de gestão.  É inegável o avanço que grande parte das instituições de ensino privadas tiveram ao longo dos últimos anos neste quesito. A ABRAES entende que as empresas que representa, buscam, permanentemente, aliar eficiência e qualidade acadêmica. São empresas de educação formadas por instituições de ensino  de pequeno, médio e grande porte que fazem diferença positiva na vida das comunidades das regiões onde estão localizadas, muitas vezes em cidades distantes dos grandes centros.

Como é possível aumentar investimentos em qualidade se o gasto de custos e de remuneração com professores está caindo?

Muitos custos avançam mais do que as correções salarias definidas  em acordos coletivos anualmente realizados com os sindicatos de professores de cada estado. Professores e alunos precisam encontrar um ambiente favorável para a educação dos tempos atuais. Isso significa ter à disposição, tecnologia, infraestrutura e materiais didáticos adequados para o ensino e aprendizagem. Para isso, são necessários investimentos que vão além dos gastos docentes, cujos custos podem crescer mais.  Outra forma de não necessitar ampliar custos é implantar ações para mitigar a evasão, o que aumenta o número de egressos e otimiza a relação “quantidade de professores” e “quantidade de alunos”. Isso, além de ser importante para a empresa, traz benefícios para o país, pois entrega, para o mercado de trabalho, profissionais habilitados e qualificados. Sem considerar toda a estrutura de custos das instituições de ensino, é temerário afirmar que despesas com professores estão sendo reduzidas em detrimento de outras.

Essas quatro empresas tem porcentuais significativos de alunos com contratos do Fies. Isso, no entendimento da Abraes, aumenta o compromisso com a qualidade?

O Fies efetivamente demanda maior qualidade acadêmica uma vez que o poder de decisão é transferido para os alunos através do financiamento. Assim, cada aluno pode escolher o curso do seu sonho, na IES do seu sonho de modo que ou as IES atendem às expectativas desses alunos, ou sequer serão por eles consideradas. O aluno não busca mais apenas fazer um curso acessível, mas uma graduação que seja reconhecida pelo MEC e pela região em que ele atua profissionalmente. Os investimentos na elevação permanente da qualidade acadêmica independe da fonte de recursos: se por bolsas concedidas pelas próprias instituições, pelo governo federal, pelas empresas, pela família ou pelo próprio aluno. A ABRAES considera o Fies uma excelente oportunidade de acesso do aluno carente ao ensino superior e continuarão comprometidas com as causas sociais, tanto quanto são com a qualidade no ensino. Acreditamos que manter a exigência do FIES a critérios de qualidade, como sempre foi, seja uma estratégia correta do governo e indutora do aumento da qualidade em todo o setor.

Quais tem sido os investimentos em qualidade de educação?

Muitos linhas de investimento são dedicadas a este fim mas de forma geral, pode-se elencar:

Formação contínua do corpo docente, atualização de material didático, capacitação permanente da equipe técnica e administrativa, direcionamento do aluno (atual e egresso) ao mercado de trabalho, investimentos em bibliotecas, laboratórios e salas de aula, novas tecnologias e inovação aplicadas à educação e nivelamento de aprendizagem para ingressos.

Mais conteúdo sobre:
Fies Universidades Ensino superior

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.