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É hora de investir na segunda língua

Em época de crise, ter outro idioma no currículo faz ainda mais diferença para conquistar uma vaga no mercado de trabalho

Lorena Amazonas, Especial para o Estado

19 Julho 2016 | 03h00

A crise econômica que o Brasil está enfrentando trouxe como uma de suas principais implicações o aumento substancial do desemprego. A taxa de desocupação foi de 10,9% no primeiro trimestre deste ano, o que representa uma alta de 39,8% em relação ao mesmo período em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse é o maior índice registrado desde 2012. Com um número cada vez maior de profissionais qualificados fora do mercado de trabalho, surge a questão: que diferencial pode ajudar o candidato a se destacar na multidão? Falar uma segunda e até terceira línguas conta muitos pontos?

Sim. É o que aponta o Guia Salarial Hays 2016 – Olhando para o futuro do trabalho no Brasil, desenvolvido pela Hays, empresa especializada em recrutamento, em parceria com a ESPM. De acordo com ele, 18,88% dos entrevistados tiveram dificuldade em encontrar um emprego por falta de conhecimento de outros idiomas. Falar uma segunda língua pode servir como fator de desempate entre pessoas com perfis parecidos, assegura Caroline Cadorin, gerente da Hays. O inglês, claro, continua sendo o mais procurado pelas empresas. “Dos projetos que conduzimos, 85% pedem o inglês, dificilmente é outro idioma.”Mas, dependendo do ramo de atividade, quanto mais idiomas souber, melhor. “Atendemos muitos clientes de hotelaria e, em algumas funções, é essencial falar inglês. Além disso, saber duas ou mais línguas é um baita diferencial”, explica Rita Graton, sócia da Virtus Recursos Humanos.

Quando cursava Automação de Escritórios e Secretariado, Cida Arcanjo precisava obrigatoriamente escolher uma língua para estudar. Por ter dificuldade com o inglês, foi contra a corrente e optou pelo francês. “Na época, acabei sendo desclassificada em várias entrevistas de emprego por não ter conhecimento em inglês”, diz. Para compensar, ela decidiu se dedicar ao máximo ao aprendizado do idioma, estudando até mesmo na França. Desta forma, conseguiu ser contratada para estagiar na Peugeot e depois foi efetivada.

A representante comercial Aline Medeiros de Maria foi outra que encontrou o seu trabalho graças a uma língua diferente do inglês. Por ser formada em Letras – Tradutor e Intérprete e ter fluência em italiano, ela buscou empresas italianas que viriam ao Brasil para participar de eventos e acabou contratada por uma delas. “No início, seria um trabalho temporário. Eu visitava clientes com o diretor da companhia e auxiliava nas traduções. Depois, me ofereceram uma vaga como representante comercial no Brasil”, conta.

Investindo no idioma. Se a hora de aprender outra língua é agora, o melhor, então, é investir em um bom curso e não ir atrás de soluções milagrosas. De acordo com Vinícius Nobre, gerente acadêmico da Cultura Inglesa, são necessárias no mínimo 200 horas de estudo para atingir o nível básico de conhecimento em um idioma. Já o intermediário exige 800 horas e o avançado, no mínimo, 1.200 horas.

O Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas determina o grau de proficiência do aluno de acordo com o seu conhecimento. Desta forma, o nível mais baixo, o A1, engloba quem consegue compreender e usar expressões familiares e cotidianas, e se comunicar de forma simples. No nível intermediário, B1 e B2, a pessoa precisa ser capaz de produzir um discurso simples e coerente sobre assuntos que lhe são familiares, como justificar uma opinião. “Um aluno pode ser considerado fluente em inglês quando for capaz de se comunicar com segurança em um número maior de situações, incluindo interações em dinâmicas desconhecidas e inesperadas. Quanto maior a desenvoltura, assertividade, flexibilidade e segurança, maior o tempo de estudo necessário”, explica Nobre.

O Istituto Italiano di Cultura de São Paulo oferece, além dos cursos tradicionais da língua, módulos específicos que abordam o idioma no mercado de trabalho. Para acelerar o aprendizado, Livia Raponi, vice-diretora do instituto, aconselha a não limitar o estudo às atividades realizadas em sala de aula. “Nem todo mundo pode viajar para a Itália, mas na internet é possível ouvir programas de rádio italianos, assistir a programas de TV, ler jornais, blogs, revistas...”

Turbinando o currículo. Além de ser um diferencial no processo seletivo, o conhecimento de outro idioma é necessário para quem deseja ingressar em um mestrado ou doutorado e, assim, melhorar seu currículo. Segundo o Parecer 977/65 do Ministério da Educação, que define as pós-graduações no Brasil, os candidatos a esses cursos devem submeter-se a provas que verifiquem sua capacidade de leitura em língua estrangeira. No caso do mestrado, é preciso conhecer um idioma além do português; para o doutorado, dois.

Essa exigência tem uma razão: nesses cursos, é necessário ler muitos textos que não são escritos em português. A Faculdade de Filosofia, Comunicação, Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) oferece cursos de inglês, francês e espanhol instrumental, que capacitam o aluno a ler artigos acadêmicos em outros idiomas. “Dou aula no programa de pós-graduação e 60% dos nossos textos são em inglês. Passo uma média de quatro artigos em língua estrangeira para serem lidos de uma semana para a outra. Se o aluno tiver dificuldade na leitura, será mais complicado acompanhar o curso”, explica Angela Lessa, diretora adjunta da faculdade.

Na Universidade Metodista, para ingressar nos cursos de Inglês Instrumental I ou II é necessário ter, pelo menos, o nível básico no idioma. As aulas procuram propiciar a vivência de atividades no meio acadêmico e servem tanto para quem quer ingressar em um mestrado ou doutorado quanto para quem vai prestar um exame de proficiência.

Caso a meta do estudante seja aprender inglês para prestar o Toefl, é possível realizar o exame tendo qualquer nível do idioma, pois o objetivo da prova é medir a proficiência do aluno. “As faculdades costumam exigir uma pontuação no Toefl ou no Ielts, que corresponde geralmente a um mínimo de 800 horas de educação formal e estudo do idioma estrangeiro”, explica Nobre, da Cultura Inglesa.

ENTREVISTA: 'Fluência não depende só das aulas’ 

Alberto Costa é senior assessment manager da Cambridge English Language Assessment, departamento da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, especializado em certificação internacional de língua inglesa. Ele dá dicas para escolher um bom curso.

Como escolher o melhor curso de inglês para o seu perfil?

É preciso se perguntar quais são suas reais necessidades com a língua, se o curso está alinhado com as habilidades que você precisa adquirir e se está dentro da proposta de tempo disponível para atingir o nível desejado. Quando um profissional não tem rotina e linearidade nos horários de trabalho, o ideal é buscar opções mais flexíveis, com aulas in company ou em casa, que podem ser marcadas caso a caso e orientadas para o resultado que se pretende atingir.

Existem escolas de inglês que prometem a fluência no idioma em um curto período de tempo. É possível prever em quanto tempo uma pessoa conseguirá se tornar fluente?

A fluência é composta não só pela aula em si, mas também pela vontade de cada aluno. Por causa disso, não é possível fazer promessas. Então, é mais assertivo determinar um alvo como, por exemplo, um aluno totalmente iniciante estabelecer que em um ano vai alcançar o nível A2, com condições de fazer uma viagem, uma reserva em hotel, ler mensagens de e-mail com linguagem direta e curta.

Há diferença entre fazer cursos online e presenciais?

As duas modalidades trazem benefícios ao aprendizado, mas há algumas diferenças a serem consideradas. Uma vantagem do presencial é poder estar em contato com a oralidade, ouvindo e falando, e ter o feedback imediato do professor. Já o online oferece flexibilidade de agenda e permite que o aluno estude no horário que melhor lhe convier. Nesses cursos, o ideal seria ter suporte humano para sanar dúvidas imediatas e motivar os estudantes. 

SERVIÇO

PUC-SP

Curso: Inglês, Francês e Espanhol Instrumental

Duração: Semestral

Início das aulas: Agosto

Custo: A definir 

Site: pucsp.br

Universidade Metodista

Curso: Inglês Instrumental I e II

Duração: 32 horas cada 

Início das aulas: Segundo 

semestre

Custo: 5 parcelas de R$ 275 

Site: portal.metodista.br 

Cultura Inglesa

Curso: Inglês (básico a avançado)

Duração: Um, dois ou quatro 

meses por módulo

Início das aulas: Janeiro, 

fevereiro, julho, agosto e outubro

Custo: A partir de R$ 1.080 

Site: culturainglesasp.com.br 

Istituto Italiano di Cultura de São Paulo

Curso: Italiano (básico a superior) Duração: Quatro meses a cada módulo

Início das aulas: Agosto

Custo: A partir de R$ 1.410,50 

Site: www.iicsanpaolo.esteri.it

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