É correto retomar aulas presenciais em 2020 em São Paulo? Especialistas debatem

Prefeitura da cidade anunciou que, a partir de 7 de outubro, escolas poderão voltar com atividades extracurriculares enquanto ensino superior está liberado para aulas regulares

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 05h00

A Prefeitura de São Paulo anunciou nesta quinta-feira, 17, que escolas poderão reabrir para atividades extracurriculares em outubro e para aulas em novembro; as faculdades já poderão abrir para aulas em outubro na capital paulista. A retomada deverá seguir especificações, como limite da capacidade máxima e medidas de distanciamento e higiente. O Estadão ouviu dois especialistas que avaliam se a decisão da gestão Bruno Covas (PSDB) foi acertada. Veja:

SIM. A partir da autorização e das recomendações das entidades de saúde, é importante começar a planejar o retorno das atividades escolares, que no caso da cidade de São Paulo ainda será mais pontual e gradual. A proposta é diferente de uma retomada presencial mais ampla que já ocorreu em outros países em que a pandemia está mais controlada.

Por causa dos prejuízos que poderemos ver no futuro devido ao fechamento das escolas, como piora dos indicadores de aprendizagem e risco maior de evasão escolar, já é hora de priorizar a educação, com bons planos para o retorno. Importante frisar que essa decisão não depende apenas das autoridades educacionais, então precisamos da liberação dos órgãos de saúde, em consonância com os governantes, para que se promova uma reabertura segura.

Outro ponto é que não se trata apenas de seguir os protocolos sanitários, mas avaliar o número de alunos e quais professores podem voltar. Aqueles do grupo de risco devem permanecer afastados da escola. A decisão de Bruno Covas é corajosa, por colocar o tema na mesa e apresentar um plano para reabertura. Não se pode, como outros prefeitos têm feito, simplesmente postergar esse retorno sem nenhuma justificativa ou plano em meio ao ano eleitoral. Com cautela e cuidado, é fundamental começar a retomada, sempre preservando vidas.

Ivan Gontijo, coordenador de projetos do Todos Pela Educação

NÃO. Desenvolvemos um simulador para entender como seria a dinâmica de infecção nas escolas a partir de uma eventual reabertura. O resultado, até aqui, é que não há condições de reabrir. Nem com apenas 35% dos estudantes na escola e se a maioria seguisse os protocolos de higiene e distanciamento.

O Estado jamais garantiu um retorno seguro, a tal ponto que as famílias permanecem massivamente contrárias à reabertura das escolas, públicas ou privadas. Enquanto isso, os argumentos em favor do retorno abraçam o negacionismo mais chulo, que compara escolas a shopping centers em vez de perguntar: quais foram os países que reabriram escolas sem terem, antes disso, controlado a pandemia e preparado adequadamente instalações e equipes escolares?

Enfrentar esse problema requer esforços interdisciplinares, e tudo isso sem perder de vista o dilema ético de decidir se a proteção da vida é ou não uma prioridade. A decisão de reabrir escolas em novembro é eleitoreira, e não tem qualquer sentido pedagógico. Melhor seria concentrar esforços em um plano robusto para a mitigação das perdas em 2021. Isso aliviaria uma parte da ansiedade de milhões de estudantes, famílias e profissionais da educação.

Fernando Cássio, professor de políticas educacionais da Universidade Federal do ABC e integrante da Rede Escola Pública e Universidade (REPU)

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