E as primeiras letras chegam a Araruna, na Paraíba

As razões são simples, as pessoas também. Escrever o próprio nome ou uma carta ao filho que mora longe, ler a placa na rua, enxergar. "A gente é como se fosse cego", define Juno Miguel da Silva, que, aos 37 anos, decidiu que já era hora de deixar de ser analfabeto. Depois de passar o dia moendo mandioca, ele e a mulher Josefa aprendem, há menos de um mês, a "juntar as letras" em uma sala de aula especial, na zona rural de Araruna, norte da Paraíba. O casal e mais cerca de 25 vizinhos ocupam parte do espaço onde funciona, durante o dia, uma escola municipal. Eles formam a décima turma de estudantes atendidos na cidade pelo programa da organização não-governamental (ONG) Alfabetização Solidária. A entidade iniciou em 1998 o trabalho em Araruna, onde o índice de analfabetismo chegava a 60% da população. Os cursos duram um semestre e hoje há dez salas espalhadas pelas áreas urbana e rural do município. Do lado de fora, a escuridão das plantações de feijão e maracujá. Dentro, olhos atentos no quadro negro nem notam um morcego que passeia pela sala. A aula é para jovens e adultos, mas também há crianças - filhos de alunos, que não têm onde ficar. Já alfabetizadas e impacientes com a dificuldade dos pais, vez ou outra gritam do fundo da classe as respostas corretas às perguntas da professora. "Queria mesmo aprender todas as letras", diz Maria Francisca Conceição, que aos 62 anos descobriu que sempre escreveu seu nome errado. Como os colegas, foi chamada a voltar a estudar pela própria professora, escolhida entre os moradores da comunidade e treinada pelo programa. É assim que as salas de aula são montadas. Maria mostra as fotos dos nove filhos, todos trabalhando em São Paulo. Em 20 anos de separação, foi quatro vezes visitá-los, e sente não poder se corresponder com eles. O telefone público, a alguns metros de casa, é a única forma de comunicação, mas é preciso combinar a hora e ir até lá esperar a ligação. Pés descalços na terra, ela vai falando dos filhos e arrancando - com as mãos - lagartas que teimam em aparecer na plantação. "Você acredita que eles tomam banho quente lá em São Paulo?", espanta-se. Maria não sonha com isso. A aposentada conta que, graças às aulas, já conhece algumas palavras. Orgulha-se de ter facilidade para entender as letras impressas. "Quem sabe não posso ainda virar professora." Perto dali, outra Maria, outro desejo. Aos 71 anos, Maria Martins de Souza aceitou o desafio de estudar apenas para conseguir "ler os versos da música e cantar direitinho na igreja". Durante a aula, ela se levanta da carteira e chega bem perto da palavra ´alegria´ escrita na lousa. Como se não bastasse a barreira da idade, a vista cansada também prejudica seu aprendizado. Um dos objetivos do programa é identificar essas dificuldades e fornecer óculos aos estudantes. Mas Maria, aluna nova, ainda precisa improvisar. Até na hora de ir para a escola, quando ilumina o caminho com um lampião caseiro, feito com vela e um recipiente plástico. Distante da roça, a alfabetizadora ajuda alunos a montarem uma frase sobre o carnaval. São vários pedaços de papel, cada um deles com uma palavra, e os homens e as mulheres vão organizando o quebra-cabeças no chão. "Preparamos o material e ensinamos partindo da realidade deles, do Nordeste, do País. Sem cartilha", diz a monitora pedagógica do programa em Araruna, Jucélia Batista da Silva, que já foi professora do Alfabetização Solidária. Ela conta que, no início, correu um boato de que os estudantes ganhariam dinheiro para se alfabetizar. "Diziam que eu tinha ido estudar só por causa disso, mas continuei mesmo quando soube a verdade", diz Joacil Pinheiro, conhecido como Didi, de 27 anos. Ele conta que estudou em escola regular até os 16 anos, mas não aprendeu nada. Didi trabalhava em uma lanchonete e perdia dinheiro porque não conseguia anotar as dívidas dos clientes que compravam fiado. "Agora, enquanto estou preparando o lanche já faço as contas e escrevo quanto a pessoa vai ficar devendo." EvasãoDepois de cinco anos do programa na cidade, 48,2% dos 16 mil habitantes de Araruna ainda são analfabetos. Começaram o curso 3.420 pessoas, desde 1998, mas apenas 2.666 delas terminaram. A rotina de trabalho, que às vezes impede o aluno de estudar à noite, é a maior causa da evasão. Grande parte da população de Araruna, situada no agreste paraibano, trabalha na roça, come o que planta, vende o restante. A geografia ajuda o município a sofrer menos com a seca: a cidade se localiza sobre uma chapada, o que ameniza o clima e traz mais chuva. O Alfabetização Solidária atua hoje em cerca de 2 mil municípios do País. Em parceria com a iniciativa privada, prefeituras e governos, e com o apoio financeiro do Ministério da Educação, já alfabetizou 3 milhões de jovens e adultos desde 1997. O novo governo anunciou recentemente que o programa continuará recebendo o mesmo investimento e deve atingir mais de 1 milhão de pessoas este ano. O Brasil tem 16,3 milhões de homens e mulheres com mais de 15 anos de idade analfabetos. Presente de José para a mãe: uma cartaJosé Ferreira de Lima Filho, de 32 anos, diz que pretende continuar com os estudos Alfabetizar não basta. Continuar os estudos em uma rede de ensino preparada para receber adultos é tão importante como as primeiras letras. Caso contrário, o aluno pode regredir à condição de analfabeto funcional, alguém que, embora escreva e reconheça palavras, não entende o que lê. "Enquanto não houver oferta suficiente de Educação de Jovens e Adultos (supletivos), é impossível erradicar o analfabetismo no País", diz a superintendente do Alfabetização Solidária, Regina Esteves. Ela se refere à promessa feita pelo ministro da Educação, Cristovam Buarque, de atingir essa meta em quatro anos. Hoje, 3.890 municípios (cerca de 70% do total do País) oferecem esse nível de ensino, com 3 milhões de matriculados. Em Araruna, o número de estudantes nos supletivos passou de cerca de 200 para 717 desde que o programa chegou à cidade, segundo a Secretaria Municipal da Educação. "Antes, tinha inveja quando via alguém lendo jornal", brinca a falante dona de casa Maria de Fátima Laurentino, de 45 anos. Ela se alfabetizou há mais de um ano e começa agora o equivalente às 3.ª e 4.ª séries. "Enquanto puder, eu estudo." "A minha primeira carta quero escrever de presente para a minha mãe", sonha José Ferreira de Lima Filho, de 32, que, alfabetizado, também continua estudando no supletivo. Para ele e para Maria, ler ainda é mais fácil do que escrever. Mesmo assim, acredita que nunca mais precisará ditar suas cartas, como fazia quando morava em São Paulo. "O duro era ter de contar meus segredos." Há ainda os que relutam em abandonar as salas de alfabetização, principalmente porque não há supletivos perto de onde moram. O agricultor Manuel do Nascimento, que vive numa área distante das escolas de Araruna, começou a aprender a ler e escrever aos 62 anos. Participou de um módulo do Alfabetização Solidária em 2002 e no mês passado - quando as aulas recomeçaram para novos alunos - estava de volta. "É tão bonito a gente saber das coisas, não queria parar."Para ensinar, idealismo e paciência A professora, que nem banheiro tem em casa, se sente realizada Na simplicidade, uma linha tênue separa os professores dos alunos em Araruna. A diferença, que gabarita Elisandra Silva Goes a ensinar no Alfabetização Solidária, é ter completado o ensino médio. Para exercer a função, ela - como os outros dez professores em atuação - recebeu aulas na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Belo Horizonte, uma das parceiras do programa. "Nunca pensei que seria professora porque sou feia", diz a moça, de 24 anos. Na sala de aula, a paciência é sua virtude. Elisandra incentiva e espera durante quase dez minutos até que os alunos identifiquem a letra que falta no nome ´Maurício´. Um senhor a escreveu na lousa e esqueceu do último ´i´. "Me sinto realizada quando eles conseguem ler. Mas, às vezes, ensino a coisa agora e, minutos depois, já esqueceram." Elisandra é parente de alguns de seus alunos e conhecida de quase todos. Em casa, recolhe água da chuva para beber, não tem banheiro e torce para que o marido consiga um emprego em São Paulo, como muitos outros moradores de Araruna. Alfabetizar acaba sendo um bom negócio para os jovens da cidade, apesar de não ser esse o objetivo do programa. Eles recebem R$ 120 por mês e emprego por pelo menos um semestre, algo difícil na cidade. "O que pretendemos é que eles também continuem estudando e se capacitem para trabalhar na rede pública de ensino", diz Regina Esteves, da ONG. Ivanelson Lima Targino é o melhor exemplo. Alfabetizador no primeiro curso do programa na cidade, conseguiu este ano sua vaga na Universidade Estadual da Paraíba. Vai cursar geografia. "Quero ser professor." Antes de conhecer a ONG, Targino acreditava que "nunca mais estudaria na vida". O ideal para o programa é que o professor dê apenas uma vez o curso, para que o maior número de alfabetizadores seja capacitado. Em muitos municípios do Brasil, isso não é cumprido, simplesmente pela dificuldade em encontrar pessoas aptas para a função. Em Araruna, já foram treinados 145 jovens; no País, 135 mil. O trabalho é realizado por universidades parceiras, que hoje somam 204.Veja a galeria de imagens

Agencia Estado,

16 de março de 2003 | 10h16

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