Doutorado na Unicamp discute potencial de espaços abertos na Cidade Universitária

Projeto de Arquitetura colaborou para obras de requalificação na instituição

Jornal da Unicamp,

24 Outubro 2012 | 15h24

Há um antagonismo no espaço urbano atual onde cada vez mais as cidades tendem a se fechar ao uso coletivo e às manifestações de cidadania. Essa conduta não passou desapercebida da academia. Uma tese de doutorado da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC), defendida por Flávia Brito Garboggini, teve como campo de pesquisa a Cidade Universitária “Zeferino Vaz”, o campus da Unicamp, para avaliar o potencial dos espaços abertos na qualificação urbana. Ter olhado para esse retrato exigiu considerar a sua história, a concepção do seu plano diretor, sem deixar de contemplar a instituição como ela é 46 anos após sua fundação, em 5 de outubro.

A conclusão da pesquisa foi que ela colaborou para uma mudança de paradigma sobre os espaços abertos de uso coletivo da Unicamp, iniciando com a requalificação da praça do Ciclo Básico, um projeto piloto que agora, como efeito multiplicador, está levando suas diretrizes à praça das Bandeiras, ao polo de tecnologia da Unicamp e ao novo campus da Faculdade de Ciências Aplicadas. A obra de requalificação está finalizando, e a estimativa de conclusão é nos próximos três meses.

O doutorado de Flávia é o terceiro do novo programa de pós-graduação “Arquitetura, tecnologia e cidade”, criado há um ano. O elemento motivador foi a revalorização da vida pública, com uma preocupação maior com a cidade contemporânea. O estudo, entre 2006 e 2011, incluiu uma pesquisa-ação, que ainda deve ter continuidade para o registro da ocupação da Universidade.

A autora explica que os espaços abertos geralmente “são entendidos como tudo o que não é edificação e têm grande potencialidade de aplicações, dependendo de como são tratados. Alguns lugares podem ser de maior permanência, outros só de passagem. Valoriza-se o ambiente de uma maneira geral”.

 O espaço aberto do campus foi analisado pela vertente do desenho urbano, como se daqui para frente houvesse um marco: o pensamento de enxergar e tratar os espaços valorizando não apenas as edificações – também o entorno, em interação com a comunidade.

Na cidade tradicional, desde a Idade Média, os edifícios definiam os espaços urbanos e seus contornos funcionavam como paredes dos ambientes externos. Já a partir da cidade moderna, do século 20, os edifícios tornaram-se autônomos, e a malha viária passou a defini-los. Isso desvirtuou o espaço aberto como local de convivência, e as atividades passaram a ser dispersas no território.

Nesse contexto surgiu a Unicamp, distante da cidade, formada para funcionar isoladamente. Vários prédios ficaram prontos sem ter calçadas e caminhos para chegar até eles, sem falar na urbanização do entorno, que em muitos casos não foi projetada.

Pesquisa-ação

Vendo a relevância que isso tinha para a instituição, a doutoranda, que passou a atuar como arquiteta da Coordenadoria de Projetos (CPROJ) da FEC, idealizou o projeto para a praça com o arquiteto Antonio Luis Castellano, aplicando os enfoques da sua pesquisa acadêmica.

Seu trabalho foi enriquecido com uma pesquisa-ação, metodologia em que o pesquisador não é só um observador do processo. Interage com a comunidade para saber as percepções e expectativas dos vários agentes. Foram ouvidos alunos, funcionários, a Administração, visitantes e expositores da feira de artesanato, etc.

Após um tempo na CPROJ, a arquiteta transferiu-se para a Coordenadoria de Projetos e Obras (CPO) da Pró-Reitoria de Desenvolvimento Universitário (PRDU) e continuou gerenciando esse projeto, com a chance de poder avaliar o seu desempenho após a conclusão das obras.

A praça do Básico foi imaginada como um centro referencial de todo o traçado do campus, com as ruas radiais partindo dele. Foi planejada para funcionar como um espaço de integração entre a comunidade universitária, as unidades básicas e os setores institucionais.

Ocorre que a sua urbanização concretizou-se somente 12 anos depois, criando uma defasagem entre a concepção e a implementação do projeto. A praça foi inaugurada em 1978, final da gestão Zeferino Vaz, mais configurada como um espaço de passagem do que de uso.

O que ela tinha? O espelho d’água com uma escultura de pedra, pela qual jorrava água; o teatro de arena; a torre da caixa d’água e os caminhos radiais. Nesse tempo, já havia o Ciclo Básico 1, e as pessoas se reuniam ali.

Requalificar a praça envolvia, além de espaço físico, estimular novos usos para que atingisse o potencial esperado. O próprio arquiteto Bross confirmou que “a praça nunca alcançou esse plano e que o nosso estudo poderia retomar a concepção de forma repaginada”, informa Flávia.

O seu projeto buscou respeitar o traçado original da praça. Para a área do espelho d’água, de cerca de 50 metros de diâmetro, sugeriu-se a preservação, fazendo um trabalho com sobreposições. Sobre parte dele, construiu-se um tablado, que deve atuar como palco para manifestações artístico-culturais, tirando partido do desnível natural do terreno.

No ponto central, havia uma escultura de pedras que, com o tempo, cedeu e virou uma ilha com árvores. Esse elemento gerou um bloqueio visual, tirando a noção da escala e de orientação do restante da praça. Não se podia enxergar o outro lado.

Para esse local, a arquiteta propôs uma escultura urbana verticalizada, marcando esse momento de inovação da Universidade. “Em breve, será aberto um edital para que artistas se candidatem a fazer projetos de arte que sejam cambiáveis, dando-lhe dinamismo.”

Fora isso, foi criado um deck metálico em forma de elipse, suspenso sobre o espelho d’água, fazendo um percurso que liga o Ciclo Básico 1 ao Básico 2. Essa intervenção se justifica, uma vez que aquele espelho d’água, ao invés de integrar as pessoas, as dispersava. Ao chegarem ali, tinham que contorná-lo.

Com a inserção da nova estrutura, elas podem cruzar pelo centro da praça, que une os dois conjuntos principais. Uma marquise semicircular vermelha cobre uma área extensa, reforçando o traçado circular da praça e possibilitando outros usos.

O projeto expandiu-se para a direção do Restaurante Universitário e interligará a praça ao bairro da Cidade Universitária, nas proximidades do Arquivo Central. O local será uma rua de pedestres.

Conforme a docente da FEC Silvia Mikami, orientadora da tese, a praça do Ciclo Básico foi o embrião do projeto, e a ideia de valorizar os espaços  abertos no projeto da Universidade foi aos poucos tomando corpo. “Agora suas diretrizes vão se irradiando: os padrões urbanísticos de desenho de piso, de elementos de mobiliário e de desenho urbano passaram a ser usadas em outros campi”, festeja.

Os pisos têm rotas para pessoas com necessidades especiais e ciclofaixas. Foram feitos em blocos intertravados de concreto, com apelo de sustentabilidade: são permeáveis e drenam a água da chuva; se precisarem ser removidos, não geram entulho e são reaproveitáveis.

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