Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Dos aprovados, 63% já haviam tentado Fuvest duas ou mais vezes

'Veteranos' na prova são ainda mais comuns em cursos concorridos, como Medicina na capital em que 86% fizeram mais de uma vez

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Eles mal passaram no vestibular, mas já são vistos como veteranos. De cada cem calouros aprovados na última edição da Fuvest, que seleciona alunos para a Universidade de São Paulo (USP), 63 tiveram de tentar a prova duas ou mais vezes. Principalmente em cursos concorridos, é comum enfrentar anos de estudo em casa ou em cursinhos preparatórios antes de conquistar a vaga.

Na Medicina da capital, por exemplo, 86% dos ingressantes na última edição fizeram a Fuvest mais de uma vez. Entre os calouros da Escola Politécnica e do Direito, no mesmo vestibular, apenas cerca de 35% passaram na primeira tentativa. Esses dados não consideram as vezes em que o aluno participou como treineiro.

Amanda Pacheco, de 20 anos, encarou a Fuvest três anos seguidos antes de entrar no curso de Ciências Sociais da USP em 2015. Em todas as investidas, a ansiedade foi uma barreira, mas de um ano para outro ela ganhou confiança. “Em relação à primeira vez, a diferença é ter mais experiência para lidar com a prova.” 

Administrar o tempo e a ordem em que serão resolvidas as perguntas são vantagens dos vestibulandos “veteranos” sobre os novatos. “Na terceira vez, deixei o mínimo possível de coisas em branco, o que não havia feito no ano anterior”, diz Amanda. Também fica mais fácil entender o formato da prova: os tipos de enunciados e conteúdos exigidos. 

A preparação mais longa ainda dá chances de rever a escolha de carreira. “Primeiro, eu queria fazer Direito. No cursinho, tive contato com outras áreas que não havia conhecido na escola”, conta a estudante da USP. 

Jéssica Ramos, de 25 anos, não vê a hora de realizar o mesmo sonho. Vestibulanda de desde o ensino médio, ela vai tentar a Fuvest pela nona vez neste ano, para Medicina. “Sempre estudei mais de 14 horas por dia”, diz. “Mas, nas últimas vezes, a ansiedade acabou me sabotando na segunda etapa. Até passei mal.”

Como veio de escola pública, o desafio foi reforçar sua bagagem de conteúdos. “Tive de aprender tudo o que não aprendi na escola. Só me equiparei aos concorrentes no quarto ano em que tentei”, afirma Jéssica. A defasagem em Matemática e a interpretação de texto, segundo ela, foram os principais obstáculos. 

De um ano para o outro, ela mudou os métodos de estudos e chegou a priorizar disciplinas diferentes. A jovem atribui o insucesso até agora à exigência alta do vestibular. “Como a disputa é concorrida, a margem de erro é bem pequena.”

Apesar das dificuldades e de ter passado em outras universidades públicas, ela mantém o sonho de entrar na USP. Dos últimos calouros da universidade, 4,5% tiveram persistência igual ou parecida com a de Jessica: encararam a Fuvest quatro ou mais vezes. 

Já a nota de Brenno Ferreira, de 20 anos, melhorou ano a ano, mas ainda não foi suficiente para ele chegar à segunda fase do processo seletivo. “É difícil ver que o esforço não deu certo, mas é preciso perseverança. Eu sou bem teimoso.”

Candidato ao curso de Direito, ele já tentou o exame três vezes e espera ter mais sorte desta vez. Os erros em cada prova, diz Ferreira, nortearam os estudos do ano seguinte. “Não adianta deixar muito tempo para uma matéria que temos facilidade e não melhorar nas outras.” 

Treino e prática. As perguntas são novas a cada edição, mas o estilo da Fuvest se mantém parecido, o que ajuda candidatos mais tarimbados. “A prova é bem tradicional na cobrança de conteúdos, segue uma mesma linha. Não é aquela prova em que tem uma surpresa. Sempre cobram o que está no edital, mas de modo criativo”, aponta Marcelo Carvalho, coordenador do Grupo Etapa.

Como o estudante “veterano” já sabe quais são os assuntos recorrentes no exame, ele pode concentrar seu tempo de estudo em aperfeiçoar pontos fracos nessa reta final de preparação. “É interessante fazer um relatório de erros para saber exatamente em onde ele foi pior”, sugere Carvalho.

O conhecimento maior sobre o teste, porém, não pode se traduzir em displicência. “Recomendamos ficar até o final da prova e revisar tudo”, alerta o professor do Etapa.

Outro cuidado é para que o fator psicológico – como a cobrança da família e do próprio candidato – não prejudique o aluno. Em vários casos, também cresce a pressão para arrumar emprego, já que não conseguiu a vaga na faculdade.

“Esse aluno (que tentou mais de uma vez) tem maturidade diferente, sabe como é a pressão do vestibular, Mas isso não significa que ele está à frente”, afirma Alessandra Venturi, orientadora educacional do Cursinho da Poli. “Ele precisa acreditar que é capaz.” 

O fracasso no vestibular, segundo Alessandra, não precisa levar a uma guinada total nos estudos para a tentativa seguinte. “O candidato costuma achar que errou em tudo. Às vezes, foi mal por causa do nervosismo e não precisa mudar outros aspectos.”

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