Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Doria muda cronograma de escolas estaduais e reduz férias de julho para 15 dias

Alunos da rede de São Paulo terão quatro períodos de recesso no ano: as duas semanas tiradas de julho serão realocadas em abril e em outubro

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2019 | 13h02

SÃO PAULO - O governador João Doria (PSDB) anunciou nesta sexta feira, 26, que as escolas da rede estadual terão quatro períodos de férias escolares, com redução do recesso no mês de julho. Em vez de um mês de férias no meio do ano, professores e alunos terão, a partir de 2020, apenas 15 dias de descanso no período.

Os outros 15 dias serão distribuídos da seguinte forma: uma semana em abril e outra em outubro. O governo ainda estuda em quais semanas desses meses ocorrerão os recessos. Doria propôs aos 645 municípios do Estado de São Paulo que adotem o mesmo modelo em suas escolas.

Sindicatos de professores e entidades estudantis criticaram a mudança e a ausência de debate prévio sobre o tema.

O secretário de Educação, Rossieli Soares, diz que a alteração tem o objetivo de evitar perdas de aprendizagem que ocorrem durante longos períodos de descanso. "Quanto mais tempo afastamos as crianças da escola, mais a aprendizagem é prejudicada. Longos períodos de férias fazem com que você leve muito tempo para recuperar o ponto em que o aluno estava antes de sair para o descanso. Matemática, por exemplo, é treino. Se ela passa muito tempo sem treinar, demora para recuperar o ponto em que ela estava", disse Soares. 

Para ele, os quatro períodos de recesso ao longo do ano vão permitir que os alunos e professores tenham o mesmo tempo de descanso, sem prejudicar o aprendizado. "Vamos ter férias ao fim de cada bimestre, o que é importante porque é preciso ter pequenos períodos de descompressão. Ajuda na saúde física e mental de alunos e professores".

O secretário ainda disse que os alunos da rede pública, por causa do perfil econômico de suas famílias, não têm a oportunidade de aproveitar os 30 dias de férias para aprender ou ampliar o repertório cultural. "Se você viaja para a Europa nas férias, o seu filho está aprendendo muito nesse período. Mas quantos alunos da rede pública estadual têm a oportunidade de viajar e aproveitar os 30 dias? Os pais estão trabalhando, a criança passa a maior parte do tempo em casa, em frente à televisão", disse.

Soares disse acreditar que a integração com os municípios, ou seja a adoção de um calendário unificado com os quatro períodos de férias, será bem sucedido. Ele afirmou que a maioria das 645 redes municipais de ensino de São Paulo já têm menos de 30 dias de recesso em julho - de acordo com o secretário, apenas cerca de 30 a 40 cidades ainda mantém o mês inteiro em junho para as férias. "O Estado está dando esse primeiro aceno e se aproximando do calendário deles. Os municípios têm autonomia, mas acreditamos que algo mais estruturado e organizado pode beneficiar a todos. Tenho convicção de que estão todos afeitos a essas conversas", disse.

Doria disse que teve um encontro com o prefeito Bruno Covas na quinta-feira, 25, e ele teria sinalizado aprovar a integração do calendário da rede municipal com a estadual. Em nota, a Secretaria de Educação do município disse que ainda estuda as datas do ano letivo para 2020, mas destacou que "qualquer mudança no calendário será antecipadamente debatida com toda rede".

Em 2017, quando assumiu a prefeitura de São Paulo, Doria anunciou que faria a integração do calendário escolar e das compras para as escolas junto com a secretaria estadual de educação. No entanto, a parceria não foi para frente.

Economia

O governador apresentou ainda uma justificativa econômica para a mudança. Segundo Doria, os períodos extras de férias podem estimular o turismo local, já que com períodos menores de descanso a tendência é que façam viagens a lugares mais próximos.

A Secretaria de Turismo diz ter feito um estudo que estima um impacto econômico de R$ 5 bilhões para os municípios paulistas nos proximos 3 anos com a alteração. Eles estimam que 12 milhões de pessoas, entre alunos, professores e seus familiares, possam viajar nesses novos períodos de férias, em que a demanda por passagens e hotéis é menor e, portanto, mais barata.

"É um projeto educacional com ganhos econômicos", disse o secretário do Turismo, Vinicius Lemmertz.

Sem consulta

A rede estadual de São Paulo é a maior do País, com 220 mil professores e 4,3 milhões de alunos. A mudança no calendário não foi discutida previamente com as famílias e funcionários das escolas, apenas com a Uniao dos Dirigentes Municipais de Ensino (Undime), que reúne os secretários municipais de educação. "Não temos medo de ousar, de transformar, de melhorar", disse Doria  ao ser questionado do porquê a alteração não ter sido discutida previamente com a comunidade escolar.

Maria Izabel Noronha, presidente da Apeoesp, principal sindicato da categoria, questiona a eficácia da mudança no aprendizado e o porquê  de o novo calendário não ter sido debatido com quem será afetado. "Eles estão impondo uma mudança cultural, sem discutir com ninguém. Não há conversa porque eles sabem que a medida está longe de resolver os problemas de ensino no Estado. O que muda qualidade de ensino é oferecer melhores condições de trabalho, valorização e formação de professores", disse. 

Para Lucas Chen, presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes), a medida não leva em consideração as diferentes realidades dos alunos da rede estadual. "Muitos jovens aproveitam as férias para trabalhar, fazer um curso profissionalizante, ir ao museu e cinemas que não frequentam durante as aulas porque não têm opções perto das suas casas. Não sabem disso, porque não consultaram os alunos".

Especialistas em educação ouvidos pelo Estado consideraram a medida pouco eficiente diante da complexidade do déficit de aprendizagem na rede. "É uma mudança que altera a organização familiar dos alunos e dos professores sem comprovação de que de fato terá uma influência significativa no ensino. Há uma série de outros problemas que devem ser solucionados e que, comprovadamente, influenciam no aprendizado", disse Neide Noffs, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP.

Silvia Colello, professora da Faculdade de Educação da USP, também questiona a eficácia da medida como forma de evitar perdas de aprendizado. "Se o aluno aprende bem, ele não vai esquecer nas férias. Conhecimento efetivamente assimilado não se perde. Deveriam discutir como ensinar com significado ao invés do tempo de férias", afirmou. Arthur Fonseca, diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares (Abepar), diz que para a rede privada a mudança não tem sentido burocrático e nem pedagógico. 

Calendário de 2020

2 de janeiro a 2 de fevereiro - Férias

3 de fevereiro - Início das aulas

Abril - Recesso de uma semana

7 de julho a 21 de julho - Férias

Outubro - Recesso de uma semana

22 de dezembro - Fim das aulas


 

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