Discutindo sexo na escola

Quando acontece, a educação sexual se limita a aspectos biológicos, reprodução, anatomia e sexo heterossexual; relacionamento afetivo, emoções, gênero e prazer estão fora do foco

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2016 | 03h00

Relatório divulgado na última semana mostra o quanto a educação sexual nas escolas no Reino Unido é parcial, desatualizada e deixa de lado assuntos centrais para a vida dos jovens de hoje.

O trabalho, feito pela Fundação Terrence Higgins, entrevistou 900 jovens de 16 a 24 anos e encontrou resultados surpreendentes para um país que está colocado entre as mais avançadas economias do mundo. Entre os entrevistados, 75% nunca discutiram consentimento para o sexo. Relações entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros também é tema raro nas escolas, aparecendo em apenas 5% delas.

Quando acontece, a educação sexual se limita a aspectos biológicos, reprodução, anatomia e sexo heterossexual. Relacionamento afetivo, emoções, gênero e prazer estão fora do foco. Para piorar, três em cada cinco jovens não se lembram ou não discutiram HIV em sala de aula. Metade classificou as informações que recebeu na escola como “pobres” ou “terríveis”. Apenas 10% disseram que foram “boas”. As informações são do jornal inglês Daily Mail.

Essa situação pode deixar os mais novos vulneráveis a abuso, bullying, homofobia, dificuldades interpessoais, problemas emocionais e também mais expostos a doenças transmitidas pelo sexo (DSTs).

Em fevereiro, o governo inglês se recusou a tornar a educação sexual obrigatória nas escolas, contrariando pedido de associações de pais, educadores e dos próprios jovens. Sem acesso à informação de qualidade, os jovens têm de recorrer a fontes menos confiáveis, como a internet ou os amigos.

Outro dado importante mostra que as orientações do governo britânico sobre educação sexual não mudaram nos últimos 16 anos, ou seja, desde que a maioria dos atuais estudantes nasceu. O problema é que o jovem de hoje, conectado o tempo todo, não se sente representado pelo que está sendo discutido em sala de aula.

Na contramão da prevenção. Se no Reino Unido discutir sexualidade de uma maneira adequada deixa a desejar, por aqui são pouquíssimas as escolas, públicas ou privadas, que conseguem realizar esse processo de forma consistente, regular e atual. Enfrentando posições retrógradas e conservadoras, temas como gênero, violência, abuso, prazer, emoções e diferentes modalidades de relacionamento não chegam nem perto de serem abordados.

Sem tocar nesses pontos centrais, a educação para uma vida sexual mais plena e saudável não atinge nossos jovens. Com famílias muitas vezes sem tempo ou mesmo interesse em discutir esses assuntos, eles ficam à deriva.

Não é à toa que o novo relatório da Unaids (Programa da Organização das Nações Unidas para a Aids), divulgado na última semana, aponta um aumento de 4% dos novos casos de HIV no Brasil de 2010 a 2015 (com 44 mil casos anuais). A população mais jovem é mais atingida, sobretudo os grupos mais vulneráveis (como o de homens que fazem sexo com outros homens). Não é por acaso, também, que o País ostenta números e recordes vergonhosos de violência sexual contra a mulher, de assassinatos de homossexuais e transgêneros e de gestação na adolescência.

Para alterar esse panorama temos de mudar de verdade. E a mudança começa na educação. Não dá para deixar que barganhas políticas, vaidades pessoais e posições religiosas descoladas da realidade se sobreponham ao interesse da população jovem como um todo.

É fundamental que cada jovem possa ter autonomia para decidir sobre sua própria vida sexual. Mas só dá para fazer isso se ele tiver recebido uma educação sexual que permita acesso a informações confiáveis, discussão sobre prazer e emoções, prevenção, enpoderamento, melhora da autoestima, sexo consensual e direitos iguais para todos.

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