Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Discussão sobre ética cresce nas universidades

Debate sobre o tema passa pelo ensino superior - e os jovens estão cada vez mais interessados, assim como as empresas

Guilherme Soares Dias, especial para o Estado, Estadão.edu

09 Dezembro 2014 | 03h00

O que é um comportamento ético? A resposta muda dependendo da época, do contexto e do interlocutor. Esse conceito, flexível e cultural, vem ganhando, no entanto, cada vez mais importância no campo profissional - e as universidades estão atentas.

Segundo o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) Eugênio Bucci, disciplinas que tratam de ética têm ganhado mais espaço no meio acadêmico. “Vejo que os jovens estão interessados e as empresas também valorizam mais, por estarem preocupadas com seus códigos e com quem vai executá-los”, afirma. 

Para Bucci, as escolas são o melhor lugar para se aprender sobre ética. “Estudar (o tema) não significa que (a pessoa) será mais ou menos honesta, mas pode ajudá-la a compreender o valor das coisas. O estudo aparelha e inspira quem está vocacionado para o viver bem”, diz o professor de Jornalismo, que continua ensinando sobre filósofos, como Epicuro e Sócrates, mas também promove mais discussões sobre casos reais. “É um novo jeito de aprender. As pessoas assumem papéis diferentes.”

Professora de Ética do curso de Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Elisabete Adami dos Santos tem a mesma percepção de Bucci sobre o interesse dos alunos. “Vejo estudantes buscarem informações sobre o tema com uma postura mais crítica. Esta nova geração é muito mais preocupada com a ética, o que me deixa otimista.”

A filósofa Márcia Tiburi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ressalta que o tema aparece em vários cursos, seja em disciplina específica ou transversalmente. A professora acredita, porém, que em cursos mais técnicos o interesse é pequeno. “Não é uma disciplina que fica evidente ou uma questão que está na moda. É difícil chamar a atenção para isso em uma sociedade que demanda questões mais técnicas dos formandos.” Ouça a entrevista com a filósofa.

Carlos Alberto Di Franco, diretor do departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), acredita que uma boa bagagem cultural ajuda até nos dilemas éticos mais recentes, como aqueles relacionados ao ambiente digital. “A leitura é o que dá conceito, contexto, capacidade de reflexão e senso crítico”, afirma. O desafio da academia, de acordo com ele, é dosar a discussão prática e teórica para não enfraquecer a formação nem ficar afastada dos novos problemas do mercado. 

No mundo profissional. Situações que envolvem valores no trabalho têm colocado empresas e empregados à prova. O caso recente de maior destaque é a Operação Lava Jato, que aponta para um esquema de pagamento e recebimento de propina para a conquista de contratos de serviços públicos, colocando sob suspeita não apenas políticos, mas também empresas estatais e privadas e funcionários de carreira. 

Mas não é necessário ir tão longe ou citar apenas casos de grande repercussão para expor os conflitos éticos no trabalho. O comprometimento passa, segundo a psicóloga e especialista em carreira Bruna Tokunaga Dias, pelas pequenas atitudes. Ela cita como exemplo o reembolso de despesas de uma viagem ou mesmo os gastos com o cartão da empresa. “A forma que (você) age no ambiente empresarial é a mesma do âmbito pessoal? A prestação de contas de uma viagem é feita corretamente?”, questiona. Bruna afirma que os valores da “vantagem” que o trabalhador quer eventualmente levar podem variar de R$ 1 a R$ 1 milhão, mas têm a mesma medida: a falta de ética. “Não existe meio termo, mas sim o certo e o errado.”

Mas há questões éticas que são específicas de cada profissão e estão nas escolhas feitas diariamente. “Um jornalista, por exemplo, tem razões para não publicar uma reportagem que pode expor a intimidade de uma pessoa, mas pode veiculá-la porque existe interesse público naquilo. Nenhuma das duas atitudes é crime, mas há uma escolha a ser feita”, afirma Bucci. O professor indica livros (mais informações na página 8) para compreender melhor o conceito de ética.

Mudança de rumo. Os conflitos na empresa podem pautar novos caminhos, como aconteceu com a publicitária Sabrina Rielli, de 35 anos, que atuava em uma agência de comunicação e decidiu abrir o próprio negócio. “Era uma empresa pequena, em que os limites entre o profissional e o pessoal não estavam bem demarcados. Os chefes falavam mal de outros colegas na nossa frente, não sabiam conduzir orientações e acabavam dando broncas na frente de todos.” 

Além da difícil situação interna, Sabrina sofria com a falta de profissionalismo da agência com os clientes. “Vendiam uma coisa que não era possível entregar. Era eu que fazia a parte comercial e essa atitude conflitava com os meus valores pessoais.” Depois de nove meses e da saída de quatro colegas por causa de problemas semelhantes, ela seguiu o mesmo caminho. “Convidei uma colega e abrimos a nossa agência. Hoje temos só um cliente, que é o que conseguimos fazer bem. Não adianta querer ganhar muito dinheiro sem fazer o trabalho bem feito.”

Sabrina afirma que as discussões sobre ética que teve na universidade - ela cursou Publicidade no Mackenzie - ajudaram na tomada da decisão sobre seu rumo profissional. “Na faculdade, os debates eram ligados à profissão, mas a ética também era usada para estimular a criatividade. Os professores pediam para a gente fazer uma campanha defendendo algo com o qual não concordávamos”, conta.

Relações diversas. A ética no trabalho passa também pelas outras relações do trabalhador. O professor de Ética e Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Romano, ressalta que todo comportamento físico e mental retido tende a se repetir. “Se a pessoa aprendeu erroneamente a não respeitar o espaço do outro, ela vai continuar fazendo o mesmo sem pensar, sem refletir”, diz.

Segundo Romano, esse aprendizado se dá ao longo da vida: na família, no bairro, na escola, no trabalho. “Vão surgindo várias éticas. Na família há um comportamento que entra em contato com outras éticas, e esse automatismo pode ser modificado pela comparação moral”, acredita. Dessa forma, a postura no trabalho reflete as informações que o sujeito carrega durante sua formação. “Quem aprende que é bom levar vantagem, por exemplo, repetirá isso na sua atuação profissional também.”

Para Romano, códigos de ética criados pelas empresas são formas autoritárias de tentar impor condutas aos funcionários. Nesses casos, diz, psicólogos e/ou sociólogos são contratados para construir um sistema que deve ser seguido por todos. “Mas isso não dá certo, é apenas intelectual. Para funcionar bem, sem desvio de conduta, a empresa depende do conjunto de leis da sociedade. O comitê de ética precisa se dedicar a conhecer os costumes dos indivíduos que trabalham na empresa”, acredita.

Para Márcia Tiburi, os códigos internos são tentativas das empresas de fortalecer a ética no ambiente de trabalho. “A moral é convenção e a ética, reflexão. Quando um funcionário é contratado, implicitamente aceita as regras morais da empresa. O que precisaria ser feito pelas companhias é a promoção de formação ética.”

Depoimento: Consultora de planejamento urbano que pediu para não ter seu nome revelado

“Sou autônoma e contratada por prefeituras para fazer consultorias em projetos urbanos específicos. Meu conflito é que muitas vezes o interesse pessoal passa por cima das questões técnicas e da demanda da população. Em alguns estudos vemos que uma área deve ser só residencial dentro de um plano diretor, mas as prefeituras insistem em transformá-la em comercial ou industrial. Em outros casos, os prefeitos querem determinar com quais empresas devemos trabalhar. Também vemos muitas audiências públicas manipuladas. São casos comuns e não exceção, mas sempre me nego a assumir o projeto. Acabo perdendo dinheiro, mas é o meu limite. Quero continuar trabalhando na área, mas pretendo atuar mais com a população para ter de lidar menos com esses conflitos.”

Tribunais.Médicos e advogados estão entre os profissionais que têm tribunais de ética para analisar eventuais desvios. Na medicina, cada conselho regional, responsável por receber denúncias de irregularidade, tem um tribunal de ética. Se a queixa for julgada procedente, a punição pode ir de advertência confidencial até a cassação de registro. “As denúncias mais recorrentes são resultado de cirurgia e obstetrícia”, diz o presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, João Ladislau Rosa. 

Em média, o conselho, que tem 118 mil médicos registrados, recebe 4 mil denúncias por ano, das quais 20% viram processos. Em geral, metade é considerada procedente. Já nos tribunais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a cobrança abusiva de honorários está entre os casos mais frequentes de denúncia.

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