Disciplina escolar tem pouca importância para os pais

Os pais brasileiros buscam escolas particulares que valorizem a liberdade, a justiça e o diálogo. A disciplina rígida e a religião hoje importam para menos de 20% deles. Os dados fazem parte de uma pesquisa realizada pelo Ibope a pedido da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) com chefes de família e seus cônjuges em oito regiões metropolitanas.Apesar de declararem buscar liberdade, 63% deles aprovam o uso de câmeras dentro das salas de aula. Grande parte dos 7 milhões de alunos das escolas particulares do País voltam às aulas amanhã (1). A pesquisa foi realizada com casais das classes A e B no mês de dezembro, que têm filhos entre 7 e 17 anos. Foram feitas 1.001 entrevistas. Noventa por cento dos pais se disseram satisfeitos com a escola que escolheram."O critério de satisfação às vezes é ambíguo, porque muitos acham que o grande diferencial é a segurança", analisa a educadora da Universidade de São Paulo (USP), Silvia Colello. "A escola deveria ser boa porque ensina bem." O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp), José Agusto Lourenço, também se disse surpreso com a opinião dos pais nessa questão. "É uma interferência na relação professor aluno", afirmou.Na capital, os equipamentos de vigilância são comuns principalmente em escolas de ensino infantil, cujos pais se declaram mais seguros por poder observar pela internet seus filhos pequenos durante todo o dia. Segundo educadores, é uma contradição o fato de os pais atualmente delegarem cada vez mais a educação de seus filhos às escolas, mas defenderem mecanismos de controle.A pesquisa mostra ainda que, ao declararem os fatores que os levaram a escolher a escola para seus filhos, a qualidade de ensino e a localização do estabelecimento concentram a maioria das respostas. "Em uma cidade como São Paulo, isso ainda é muito relevante", diz a empresária Renata Rubano, que tem dois filhos estudando na Escola Viva.Ela, no entanto, lembra da dificuldade que enfrentou ao tentar compreender as propostas de cada escola enquanto decidia qual seria melhor. "Todas têm um discurso muito parecido, falam em construtivismo, que está na moda", diz. "Era difícil saber quais realmente pregavam a ética e os outros valores em que eu acredito", diz. Ela afirma, assim como mostra a pesquisa, que procurou também escolas que valorizassem o diálogo e a cidadania - e que não levou em conta a disciplina."O importante é que a escola esteja sempre aberta para discutir com os pais e com os alunos o que é melhor", diz a fonoaudióloga Cilmara Levy, que tem uma filha matriculada na Stance Dual, escola no centro da capital. Ela diz se preocupar com segurança por causa do local onde fica o estabelecimento, mas afirma que a qualidade do ensino prevaleceu.ComparaçãoQuando questionados sobre uma comparação entre a escola de seus filhos e o que imaginam das escolas públicas, os pais destacaram a formação dos professores. Outra pesquisa, encomendada também pela Fenep para a Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra, no entanto, que a porcentagem de professores formados em ensino superior atuando nas duas redes é semelhante. Entre os que dão aulas no ensino médio em todo o País, os índices nas escolas públicas e privadas são de 89,8% e 91,3%, respectivamente. O levantamento usou dados do Ministério da Educação (MEC).No Estado de São Paulo, as públicas têm 97% de seus professores formados em nível superior enquanto as particulares têm 94,4%. Segundo o educador da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Artur Costa Neto, isso ocorre porque nos últimos anos o Estado e os municípios têm feito convênios com universidades para capacitar os profissionais. "Nas escolas particulares, os professores tiveram de fazer isso às próprias custas", afirma o especialista, que coordenou programas de formação na capital.O levantamento compara também a estrutura das escolas nas duas redes e mostra ainda a prevalência das particulares com relação à oferta de equipamentos como bibliotecas, computadores e quadras de esportes. A porcentagem de alunos com idade não adequada à série no ensino fundamental público chega a 43%, enquanto na particular é de 9,2%.Há atualmente cerca de 35 mil escolas particulares no País, que atendem 12% dos estudantes da educação básica. A pesquisa também mostra que elas contribuem em 1,3% para a formação do PIB nacional e empregam 650 mil profissionais. "Estamos aqui para acrescentar", diz a vice-diretora da Fenep e presidente da associação de escolas particulares do ABC, Oswana Fameli. "Se fechássemos as portas, o governo não conseguiria acolher todos esses alunos."

Agencia Estado,

31 de janeiro de 2006 | 22h33

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